O silêncio foi talvez a minha aprendizagem mais demorada. Não era intrínseco em mim, não me nascia perante o calar alheio, incomodava-me ter de enfrentá-lo. Quantas vezes arranquei palavras ao adolescente apagado, outras tantas invadi a intimidade sossegada de quem se queria guardar, muitas outras considerei, ambiciosa e iludida, que as minhas frases acomodariam a dor de quem a sentia, aninhariam o corpo de quem me escutava, silenciavam, aí sim, o sofrimento, que morreria de morte matada, logo ali. Tudo esperança. Tudo mera projecção, auto-sublimação, um sem número de erros que deveriam ser punidos com horas de aprendizagem, eventualmente meditação. Não foram, foi o tempo que me castigou e ensinou. Com os meus silêncios, com as minhas precisões. O silêncio é hoje um dos meus aliados terapêuticos, um dos meus refúgios, um dos meus encontros, uma das minhas mais puras manifestações. Isto para dizer, entre outras possíveis conclusões, que a vida é um equilíbrio entre grandezas inversas. Daqui deverei apreender o óbvio que ainda me falta: jamais conseguirei calar ruídos incómodos.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
espelho meu
Ontem enfeiticei as ruas da cidade. Não de encantos, que a idade não permite, mas de olhares que procuravam encontrar nos outros um pouco de mim. Era a mim que eu procurava na senhora composta que segurava finamente na bolsa de mão, enquanto o filho, travesso, lhe fugia do alcance. Era de mim que eu queria saber quando olhava para o homem que corria na estrada, com pressa de lá chegar, acabei por não saber onde. Era por mim que eu gritava quando paguei o café, nos gestos da menina bonita, uma graça, por detrás de um balcão recheado de pampilhos frescos e pasteis de nata, que tentação. Era eu que vivia na correria dos passos imprecisos que recuavam na montra, que entravam e que saiam, que procuravam e não encontravam as linhas tortas do caminho. Fui andando devagar e perdi-me. O jardim estava coberto de folhas de Outono e lá em baixo o rio galgava as primeiras terras, enquanto o comboio apitava com medo das distracções. Nos bancos não havia gente, certamente porque os namoros de verão andam adormecidos, mas eu prefiro sempre acreditar que andam escondidos do frio. Os solitários dão de si mais nesta altura do ano. Pintam o coreto do meio, sobem os degraus do castelo, saem pela porta principal do sol, a mesma que me acolhe de braços abertos, mesmo quando cai a chuva ou cai o céu, quando sopra a vida ou sopra o vento. Retomei a direcção e fui encontrada. Em meia dúzia de palavras buscaram-me no meio de uma conversa fiada, a mesma desde há muito tempo, um cansaço, uma preguiça, uma dor de alma, uma condenação. A pouco e pouco fui sendo eu outra vez. O que nos dizem, o que nos dão, o que espiamos, o que esperamos, não há actos isolados, estradas que valham por si. Não há vidas sem espelho.
Adivinhação
Detesto que me tentem adivinhar o fim de uma frase que escreva ou profira, interrompendo-me o raciocínio. Não que me custe voltar ao fio condutor, nem que veja na minha alegada previsibilidade um defeito, nada disso. Por vezes, a maior parte das vezes, o que acontece é que não é esse o corolário, nem aquela a confiança que efectivamente endossei a quem me interrompe. A presunção de quem o faz é, ao contrário da água benta, quase sempre contraproducente.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
O tempo do amor
Quantos quilómetros de caminho sinuoso é necessário percorrer para concluir que afinal nos enganámos? Quantos tombos e escorregadelas? Quantas pedras no meio do troço teremos de remover? Quantas silvas, espinhos e cardos precisamos evitar? Quantos desentendimentos por desfazer, choros por verter, lágrimas por enxugar? Quantas tréguas e pazes por fazer? Quantos mais mal-entendidos por desmanchar, ciúmes por resolver, gritos mudos por dar? Quantas noites em branco, náuseas e comprimidos por tomar?
Nestas coisas, como em outras, o tempo tem um tempo sensato: o tempo do amor. Mesmo demorando, tanto pode acabar com um olhar, como terminar na eternidade. É como uma espécie de cláusula de salvaguarda. Acaba quando tiver de acabar, mas previne que acabe com um outro tempo. O da vida.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Agora, Outono
Preciso deste frio para despertar,
E daquela humidade para amolecer;
Necessito de cores onde me agarrar
A estima, que não pode esmorecer.
Não percebo este Outono,
Que só agora tarde se desfaz
De um novelo feito em sono
Que acorda e desponta tenaz.
Preciso de cores retumbantes
Como num quadro pré-Jurássico
De formas estranhas mas amantes
Que ecoam ao fundo dum som trágico.
You've got mail (5)
![]() |
| Adrien Brody em Midnight in Paris |
– Salvador Dalí?
– Claro, eu mesmo, o grande místico.
– Não, se me permite, o grande Pintor.
– Eu não sou um grande pintor. Um grande pintor é burro. Ora, eu sou um génio, descendo duma grande conjugação molecular. O meu ácido desoxirribonucleico é único.
– O seu ADN, claro.
– Advenho da grande civilização árabe, da sumptuosa luz d’oiro. Acaso sabe qual é a diferença entre a melhor fotografia do mundo e uma pintura de Velásquez?
– Não.
– Cem milhões de dólares. E a diferença entre um rinoceronte e os lábios da Mae West?
– Ah, fala o surrealista…
– Eu não sou surrealista, o Surrealismo sou eu.
– E louco.
– Louco? Sabe qual é a diferença entre um louco e eu?
– Não.
– Um louco não é Dalí.
– Nem é tão chato.
– Não, os chatos andam nas zonas públicas mais imundas.
– Quer dizer púbicas.
– Sabe onde está a diferença entre as públicas e as púbicas?
– …?
– No L dos meus lábios.
Etiquetas:
you've got mail
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Bom mas não muito
A sensibilidade masculina foi sempre vista com alguma desconfiança, para não dizer com duplicidade e pesporrência. Por eles e por elas. Fulano pode ser sensível, mas com conta, peso e medida ou, o mesmo é dizer, desde que seja muito macho, não seja picuinhas e não manifeste excessiva fragilidade. Sem embargo, um homem sensível permanece muito valorizado no gineceu enquanto descodificador e bom entendedor do eterno feminino. Contudo, não deixa de se assemelhar a uma espécie de veículo de tracção animal, uma charrette coquette, e jamais a um destino ideal, a uma casa vitoriana. Pode ser por excelência um bom amigo; terá porém de se esforçar muito para parecer um bom amante. Dir-me-ão: nada disso, a sensibilidade num homem tem outro encanto. Dir-vos-ei: sim, tem, na hora da despedida.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Aviso à navegação -Tel: 220131030
Nas últimas duas semanas tenho sido bombardeado com mais de dez telefonemas diários do número supra. Assim que atendo desligam. Fui pesquisar no Google. Surgem muitas reclamações de quem padece do mesmo problema, mas nunca iguais. Uns dizem que é de uma das três maiores operadoras telefónicas, sem se concluir ao certo qual. Outros dizem que é burla e já fizeram queixa à polícia. Uma coisa é certa, não é do euromilhões. Fica aqui apenas a informação.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Curiosidade
Não sei quem me lê. Só conheço pessoalmente cinco ou seis leitores, entretanto meus amigos. Das poucas centenas que por cá passam diariamente, sei nada. Serão amigos doutras guerras, inimigos (sim, também os tenho), cadastrados, alcoólicos, gente simpática? O que os leva a demorar mais de uma hora por aqui? Ou alguns segundos? Serão sempre os mesmos? Gostava de os ver todos reunidos numa sala, olhá-los de frente e cumprimentá-los cordialmente. Gostava de lhes agradecer a visita, mas também de saber o que procuram.
Um dia um indivíduo perguntou-me como se ganha dinheiro. Respondi o óbvio: trabalhando, herdando ou ganhando o euromilhões. Empertigado, perguntou-me se era preciso ser economista para saber isso. Não era, mas também não era necessário não o ser para desconhecê-lo.
Daqui posso inferir que pouco interessa conhecer o que procuram, apenas perceber que a curiosidade não mata pessoas de nenhum dos lados. Sejam, pois, sem perguntas, muito bem-vindos.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
You've got mail (4)
![]() |
| Woody Allen e John Turturro em Fading Gigolo |
– A ideia é formar um novo partido que vá ao encontro das aspirações femininas mais recônditas.
– Sei…
– Um líder que defenda os valores tradicionais, a família, os bons costumes, a ética. Enfim, um conservador com cara de devasso como tu.
– Como eu? Mas eu nem sei discursar – infirma Fioravante
– Melhor ainda. Se falasses muito, ainda te confundiam com o Marinho. O nosso eleitor alvo são as mulheres, todas as mulheres, reformadas, casadas, divorciadas, jovens.
– Mas eu não sei nada de mulheres…
– Não interessa o que tu sabes, o que realmente interessa é o que elas adivinham na tua postura: um discurso certinho, com poucas palavras, amigo das mulheres, sem que os seus companheiros desconfiem.
– Sei…
– As tuas parcas palavras soarão a música de embalar. O teu olhar e corpo, a uma promessa concupiscente de prazer. Vais resgatar-lhes as fantasias em troca de votos, simples, não?
– É… e as assinaturas e os mecenas?
– Não te preocupes, já tratei disso tudo. Só não te esqueças que continuamos sócios.
Etiquetas:
you've got mail
sábado, 25 de outubro de 2014
Tolerância zero
Há um certo tipo de criaturas que só moem a paciência quando sentem que estamos fragilizados; quando a vida, essa velhaca, nos prega uma cilada na dobra da betesga. Aí, surgem elas, corajosas, cheias de certezas e razões, de dedo em riste, dizendo tudo aquilo que se encontrava arrolhado em suas goelas fétidas. Ah, essa coragem. Quando me calha em sorte, viro as costas e mostro os cascos caprinos e a cauda serpenteante que nunca havia exibido. Se quiserem por instantes um belzebu, não se prendam, tê-lo-ão. Caso contrário, deixem-me.
(Isto aqui fica sem possibilidade de comentários: as tristezas não são compatíveis com o chilreio de passarinhos)
(Isto aqui fica sem possibilidade de comentários: as tristezas não são compatíveis com o chilreio de passarinhos)
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
You've got mail (3)
![]() |
| Scarlett Johansson - Match Point |
– Atenta bem, nem tudo é mau se nos afastarmos por um tempo – explica Chris.
– Ah, não? Então?
– Terás mais tempo para sair com as tuas amigas à noite, vais a bares, a discotecas, até podes encontrar alguém mais interessante… enfim, terás novas experiências, és tão novinha. Já agora, não me leves a mal, mas parece que a tua cara está a inchar. Já tinhas essa borbulha? Espera, isso é uma borbulha ou é um herpes? Um frúnculo ou uma verruga?
– Vai-à-mer-da.
Etiquetas:
you've got mail
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
You've got mail (2)
![]() |
| Anne Hathaway - One Day |
– Ah, sim? Não te chega a vida complicada que já temos?
– O nosso amor merece um filho, Emma, uma filha, digo. Terá a boca da mãe e os olhos do pai.
– Claro… e o nariz será de quem?
– Dela mesma, da nossa Alice.
– Não sigas o teu coelho, não estás no País das Maravilhas.
– Chata, não se pode sonhar nas tuas costas?
– Podes, mas tudo tem um preço.
Etiquetas:
you've got mail
terça-feira, 21 de outubro de 2014
You've got mail (1)
![]() |
| Meg Ryan - You've got mail |
– Gostava de a ver mais vezes... – sussurrou Joe enquanto afivelava o cinto.
– Depende.
– … de quê?
– Da bondade das mentiras que o levam até mim.
Etiquetas:
you've got mail
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Ter Mundo
Na sociedade actual, "ter mundo" emana um imenso charme, uma espécie de credencial que figura bem ao lado do bom berço, do currículo académico avançado, dos "conhecimentos" certos e do percurso profissional bem-sucedido, entre outros itens.
Dum indivíduo viajado, que viveu em meio mundo, o meio que interessa, civilizado e desenvolvido com uns pozinhos de exotismo – afinal toda a gente sabe que na Martinica o cosmopolitan é mais intenso, tem mais cranberry –, polvilhado por umas escalas técnicas por regiões em guerra – ao perigo das imensas capitais, junte-se o mediatismo das que fazem as parangonas nos jornais mundiais –, poderemos dizer que tem mundo? Ah, pois deve ter.
Dum indivíduo letrado, que dissecou os clássicos, tratando as grandes personagens por velhos conhecidos, que já conta em sua biblioteca com mais de quarenta mil lombadas lidas, e outras tantas na mesinha da cabeceira por ler, e inúmeras incursões à Torre do Tombo, devemos dizer que tem mundo? Ah, pois tem de ter.
Dum sujeito bem relacionado, que conhece os meandros do poder, do político que foi seu colega de faculdade ao CEO que frequenta o mesmo restaurante uma estrela Michelin; que é amicíssimo do director do semanário e do professor catedrático com coluna semanal sobre actualidades, íntimo do grande poeta e do pintor com acervo em NYC, poderemos afirmar que tem mundo? Com certeza.
E do tipo que já comeu a apresentadora de tv da estação privada, casou com uma actriz socialite agora em depressão, frequentou assíduo os camarins das bailarinas do salão preto e prata, privou com a jornalista do painel dos prós e contras a favor da legalização dos bordeis fast fuck e da despenalização das drogas duras, que dizer? Muito mundo.
Ter mundo, hoje em dia, é como ostentar sinais exteriores de derivado de caviar. Poucos provaram, mas o original deve ser bom. E, claro, não deve figurar num cartão de apresentação de uma senhora: ela apenas será inteligente e muito interessante, tudo o resto deve ser omitido, pois esse resto não lhe assenta bem.
Porém, ter mundo é outra coisa, é muito mais. É saber entender e aceitar o próximo exactamente como ele é, reconhecer-lhe com respeito todas as suas misérias, não julgar pela aparência o que nunca presenciou, não levantar o dedo indicador a quem sente diferente e, sobretudo, nunca ser indiferente à sua diferença. Quem o souber fazer é mais conhecedor, viveu mais, tem mais mundo, todo o mundo do mundo.
Afinal, há mais por conhecer em cada um de nós do que nas viagens, nos livros, nas esferas mediáticas ou nos círculos restritos. Ter mundo não é ser mundano.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







