Compreendo profusamente as reacções de incredulidade de quem confiou o seu voto, comungou dos mesmos ideais políticos, preconizou uma estratégia de desenvolvimento económico expansionista alicerçada em grandes obras públicas como modelo de crescimento, acreditou nos ideais sociais e nos tiques pessoais de bem vestir roupa de marca. Compreendo, ainda, quem não tenha resistido ao sexiest man, ao cute&chic blasé e ao facilitismo e porreirismo nacionais. Afinal estamos a falar de mais de dois milhões e meio de fãs. Impõe respeito, mas podia ser só o maluquinho aqui do bairro, que consideraria de igual forma. Contudo, entendo melhor os amigos, os políticos amigos, os empresários dos amigos e os beneficiários amigos. E com isto nem sequer falo do sofrimento da família de sangue e dos mais chegados, do inner circle afectivo totalmente alheio.
Mas não alcanço quem vê nisto, e nesta série de acontecimentos dos últimos meses, um problema de regime. O que é isso de Regime? A República? O Estado de Direito? Nada disso. O Regime é uma espécie de osmose entre o sistema político e o económico – pela qual se pauta toda uma sociedade – em que, sujeitando-se um ao outro, nunca se devem liquefazer. E quem assegura essa intransponibilidade? A Justiça, essa mesma sempre tão criticada, que nos acautela presentes e futuros actos e tentativas de contaminação. Enquanto assim for, o Regime está de boa saúde e recomenda-se. Doa a quem doer.