- Aquela pata tinha um bico fenomenal...
- Pois...
- E a outra? A outra tinha cá um penacho no rabo, que ficava bem até sem laço, parava os patos e os galos, vê bem...
- Sim...
- Mas nunca te falei da mais bela, pois não?
- Acho que sim...
- Falo outra vez. Era uma pata alta e vistosa. Uma pata cabeluda, de pose. Só de olhar para os olhos dela derretia-me, até sem sol. Namorávamos os dois no lago, meios escondidos, meio à mostra. Uma pata interessante, ainda por cima. Atrevida! Sabias dela?
- Pois, julgo que sim.
- Mas tu também és uma patinha gira. Pareces mesmo mesmo patinha. Dás-me um beijinho?
- Vai à merda...
- ?????????????????????
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
musgo
Venci o medo há 32 anos. Nesta altura do ano, devo dizê-lo, matei o medo no Inverno, na serra onde se amontoava um musgo cheio de bichos medonhos que poderiam alcançar-me os dedos pequenos e pontiagudos. Agarrava os tufos, puxava-os para cima, colocava uma faca por baixo e depositava-os na caixa de madeira que Carmina transportava em braços, um peso que só visto. Lacraus, dizia ela, havia aos montes, e o jogo era de sorte ou azar. Sendo assim, sempre que avistava um aglomerado verde, sorria. Logo que poisávamos a caixa temia, quando enfiava os dedos na terra fria já tremia, e só sossegava quando, sã e salva, arrumava o verde musgo no seu local devido. Depois da empreitada seguíamos para casa, não fosse fazer-se tarde. Forrávamos o chão a jornal, depositávamos o musgo direitinho, desenhávamos um carreiro a areia, um lago a prata de chocolate, elevávamos o anjo ao seu lugar divino e aninhávamos Jesus, quieto e imaculado, na gruta supostamente quente, feita de pedra gelada. Só no final de tudo lavava as mãos. Só no rescaldo da festa sossegava realmente o espírito e acalmava a ânsia do medo, fundida na excitação da construção do presépio. O Natal para mim sempre teve muitas festas. O medo também sempre foi uma parte do caminho, aquela pela qual passamos até chegarmos ao local pretendido. Os medos mudam com o tempo. Hoje não há lacrau que me tire o sono, mas sou bem capaz de me assustar com um devaneio, que pode ser um vazio invisível de coisa nenhuma. De qualquer forma, e verdade seja dita, já não apanho musgo. Isso era na altura em que havia avó e presépio, só os bichos assustavam, e as fantasias eram toda uma realidade.
sábado, 29 de novembro de 2014
sou toda ouvidos
O espaço que ocupamos nos outros nem sempre é equivalente à importância que temos. Não raras vezes reflecte uma extrema ocupação que não deixa margem para mimalhices. Dar ao outro o que ele precisa para consciencializar que a questão não é falta de importância, mas sim excesso de carga, é o cabo dos trabalhos. Desde sempre, desde sempre que medimos melhor o que olhamos de frente, o que se apalpa, o que faz doer. A bem da verdade temos sérias dificuldades em resumir ocasiões sem lhes atribuir o peso, sem numerar limites, sem elaborar escalas. Género, se pensas 10 queres muito, se pensas 5 queres mais ou menos. Esquecendo que quem pensa 10 pode não ter mais nada para querer, e que quem pensa cinco pode, por sorte, azar, casualidade ou circunstância, ter os outros cinco legitimamente distribuídos, sem querer dizer que queira menos. Isto é uma mera teoria explicativa, pessoal, eventualmente transmissível, pouco ou nada útil. A quem quiser deixar estratégias práticas, as válidas e verdadeiramente produtivas, muito além da parca teorização, faça o favor, sou toda ouvidos. Ou cinquenta por cento, vá, o que não quer obviamente dizer que não oiça.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
crime e castigo
Conheço o discurso, sempre parecido, da moralidade. A arrumação das palavras certas, a frequência dos lugares correctos, a compostura que começa desde pequeninos, dizem ser de pequenino que se torce o pepino. Normalmente o porte não deixa lugar a grande reparo. Usualmente o discurso é escorreito e o raciocínio irrepreensível. Muitas vezes são bons alunos, frequentam as aulas de religião e moral, à quarta passam uma hora na catequese, ao sábado de manhã frequentam a equitação, o respeito ao animal é muito urgente de se ver. Sabem de cor e salteado as regras da boa educação, quando se encontram acompanhamos pelos progenitores situam-se ao meio, entre o pai e a mãe, trazem uma mão sobre o ombro, um sorriso discreto, são o orgulho da família. Curiosamente, no dia a dia, têm o poder de transformar num longo inferno o intervalo de quinze minutos, que para a menina da aldeia que não veste Timberland, parece durar uma eternidade. Convenhamos, justifica-se, ela nem sequer traz um tablet, uma camisola da Violeta, um casaco Gap, uns óculos cor de rosa. Porque motivo deveria penetrar a perfeição do grupo?
(Também não percebo, nem me faz sentido. A perfeição da riqueza e dos valores que se dizem altos é uma linha intransponível que não passa da pele para dentro, nem atinge o coração. Soubessem os perfeitos o que lhes falta, e inverteríamos o sentido da violência. Um auto-castigo bem-falante, ignorante e bem vestido, que continua a ser confundido com evolução.)
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
A dor do regime
Compreendo profusamente as reacções de incredulidade de quem confiou o seu voto, comungou dos mesmos ideais políticos, preconizou uma estratégia de desenvolvimento económico expansionista alicerçada em grandes obras públicas como modelo de crescimento, acreditou nos ideais sociais e nos tiques pessoais de bem vestir roupa de marca. Compreendo, ainda, quem não tenha resistido ao sexiest man, ao cute&chic blasé e ao facilitismo e porreirismo nacionais. Afinal estamos a falar de mais de dois milhões e meio de fãs. Impõe respeito, mas podia ser só o maluquinho aqui do bairro, que consideraria de igual forma. Contudo, entendo melhor os amigos, os políticos amigos, os empresários dos amigos e os beneficiários amigos. E com isto nem sequer falo do sofrimento da família de sangue e dos mais chegados, do inner circle afectivo totalmente alheio.
Mas não alcanço quem vê nisto, e nesta série de acontecimentos dos últimos meses, um problema de regime. O que é isso de Regime? A República? O Estado de Direito? Nada disso. O Regime é uma espécie de osmose entre o sistema político e o económico – pela qual se pauta toda uma sociedade – em que, sujeitando-se um ao outro, nunca se devem liquefazer. E quem assegura essa intransponibilidade? A Justiça, essa mesma sempre tão criticada, que nos acautela presentes e futuros actos e tentativas de contaminação. Enquanto assim for, o Regime está de boa saúde e recomenda-se. Doa a quem doer.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Tenho três notícias para as indefectíveis viúvas, órfãos e correlativos de Sócrates
Uma é boa. A presunção de inocência mantém-se intacta, não foi condenado, nem sequer ainda lhe foi deduzida acusação. Formalmente, o vosso homem é mais inocente do que eu, um depravado das ideias.
A outra é mais ou menos. A medida de coacção aplicada foi a piorzinha de todas. Só aplicável se houver fortes possibilidades de fuga (Venezuela, quem sabe), continuação da actividade criminosa indiciada (isso faz mais parte da natureza do escorpião e não de um animal feroz), perturbação do inquérito (sempre pode querer voltar a conversar sobre livros com o ex-PGR) e perturbação da ordem e tranquilidade públicas (hélas!, mantenham-se calmos).
A última é mesmo má. Nos indícios de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais o ónus da prova inverte-se, ou seja, será o vosso senhor que terá de provar a sua imaculada inocência. No indício de corrupção não se inverte, mas, fazendo-se prova, já sois vós, os indefectíveis, as viúvas, órfãos e correlativos, que tendes de provar a vós próprios que não votaram num corrupto.
domingo, 23 de novembro de 2014
dia
Ele aparece e diz que o senhor do primeiro despeja milho aos pombos pela janela. O senhor do primeiro é o senhor que tem gato e cão no mesmo espaço, um feliz contemplado com a crença na partilha dos opostos. Os dois convivem em amena cavaqueira, ouviu dizer que se cultivou com o tempo, o tempo cura até os azeites da bicharada instintiva, deveremos sempre dar-lhe o devido crédito. Ao milho é vê-lo voar enquanto os pássaros poisam, a natureza tem maravilhas que invertem possibilidades, é simplesmente fascinante. Mais ou menos como ele a fascina a ela com a paciência que lhe dá ao ouvido em palavras ditas com os gestos, ainda dizem que os gestos são coisa de mulher. Ela pensa, mais ou menos devagar, agora sim, típica e eternamente feminino. Quando desce olha o local onde os pássaros poisaram a monte, espreita se há milho, mas agora existem uns cães. Continuam os dois de mão dada, com os mesmos passos, os mesmos olhos, a mesma loucura, deixem-se de considerar uma impossibilidade. Ninguém diria que o dia começou devagar e atrasado. Ninguém julga que do alto de um saber soberano nasceu uma mão submissa. Ninguém imagina que num corpo pequeno cresça um propósito tão espesso. Jamais uns pássaros que poisam e um milho que voa adivinhariam um dia sossegado. Nunca a distância suporia uma luz tão premente. Ele sorri e diz-lhe que a queria na palma da mão. Ela imagina-se tão pequena como se lá coubesse, a realidade é um termo tão vago quanto a nossa ideia quiser (a doutrina interna é simplesmente o maior lugar do mundo). Logo depois chove e o ar aquece. É noite. Mas está tão claro que a vista dói.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
50 cêntimos
Somos todos muito parecidos na essência. André, o moço que me venera quase todos os dias, que me olha fixamente como se me adorasse, que me traz o lanche, me pede conversa e desenha para mim, larga-me da mão mal chega a senhora que lhe oferece o chocolate quente, uma vez por semana. Nesse dia respiro aliviada, sem olhos presentes, sem conversas insistentes. Cinquenta cêntimos*, cinquenta cêntimos valem mais do que uma semana de paciência, e são responsáveis pelo meu sentimento de alívio. É muita carga para uma simples moedinha, deveremos considerar.
( *ou de como o mundo também acaba, quando se extinguir o chocolate...)
( *ou de como o mundo também acaba, quando se extinguir o chocolate...)
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
revolta
Não sou nem nunca fui fundamentalista em exagero. Mas a verdade é que quando toda a direitos de pessoas e animais, sinto um revolver nas entranhas incontrolável. Abandonar um animal para morrer à fome é coisa para me deixar com mau estar. Mas mau estar sério, daquele que me nasce no fundo, cá dentro, chego até a agoniar. Procuro, deambulo nos meus pensamentos para tentar encontrar algo a que me agarre que me faça perceber o porquê deste tipo de maldade, mas não consigo. A intenção de infligir sofrimento atroz no que de mais básico existe, neste caso o alimento, é um acto tão cruel que não consigo concebê-lo. Mas o que fará a vida a esta gente, para a deixar capaz de tamanha violência gratuitamente? Hoje sinto revolta. Bem sei, um sentir inútil e profundamente individual, mas o certo é que hoje ele mora em mim.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
sapatos verdes
Li num belíssimo livro que uns determinados sapatos verdes poderiam bem ser uma decoração. Não uma decoração qualquer, entenda-se, mas uma decoração com história, uma decoração com memória escrita onde mora uma vida, muito além de uns pés. A verdade é que mudei de paradigma há bem pouco tempo. Coisas, coisas por si eram para mim um local vazio de conteúdo. Significavam uma utilidade que poderia ser um sapato, poderia ser um vestido, poderia ser uma decoração. Hoje já percebo o objecto como fenómeno de transição, já lhe perscruto o valor, já lhe descubro o sentido, já lhe aprecio a construção muito além da forma comum. Reconheço-lhe agora uma realidade interna e individual, o que faz com que os redimensione a um outro patamar de existência. Uns sapatos verdes, por exemplo, uns simples sapatos verdes em exposição. Para mim um acessório lindo de morrer, para ele uma decoração, para alguns uma excentricidade, para outros uma alienação. Para ele são ainda um elo de ligação que ele queria ter em casa, na cómoda em frente ao espelho, entre o colar de oiro e a claridade de um sol, um dos exactos momentos onde lhe falta o sorriso. Para além de todas as outras ausências, ao lado de todos os outros lugares. Tem pena, refere, deveria tê-los comprado com ela naquele dia em que os deixou na loja. Altos demais para usar, lindos o suficiente para os querer. Uns sapatos verdes que seriam uma boa decoração. De interior.
domingo, 16 de novembro de 2014
empratar
As causas a que nos entregamos podem ser nossas ou vir simplesmente emprestadas. Podem não nos pertencer de raiz mas brotarem-nos nos gestos como um bicho que se aloja e nos invade sem cura que valha, porque a dimensão é de carácter maior, o que também funciona. Consigo distinguir facilmente estas pessoas, todos conseguimos. Sabemos claramente qual o médico que cura para além do dever, o professor que tem fé nos alunos e nas palavras fora do manual escolar, o actor de teatro que expele quem vive por todos os poros, o enfermeiro que toca antes de cuidar. Na psique humana, por exemplo, jamais chegaremos ao local procurado se não bebermos o caminho que necessitamos de percorrer. Jamais encontraremos a raiz da emoção se não a procurarmos com presença, jamais conseguiremos validar um sentir se não o sentirmos, nunca indagaremos adequadamente se não estivermos atentos, uma impossibilidade se não habitarmos ali, aquele exacto momento. Hoje em dia e em tempos de crise, afiguram-se dificuldades sérias neste campo. Há uma necessidade de subsistência que supera, naturalmente, a questão da entrega, e o dever nasce como um fim em si mesmo, afastando quase por completo a vocação, a vontade, o nosso Eu. O custo deste abandono é significativo para quem pratica e para quem recebe, e temo que em termos de evolução social possa deixar determinações importantes. A quebra da confiança, por exemplo, é só uma delas, e coloco aqui a experiência da culinária, como mera ilustração: quem cozinhe com paixão jamais me colocará propositadamente um mau elemento no prato. Quem o faça por obrigação poderá colocar ou não, depende dos recursos disponíveis na hora do empratamento.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
saber fazer, continuação...
Quase todas sabem fazer isso. Ondulam mais ou menos devagar, sem meneios bruscos, jamais devem perder o ar de delicadeza. O sorriso é um expediente secreto que vai daqui até ao fim do mundo, não há quem lhe consiga resistir. Lápis na boca é outro ardil antigo, movem-se os lábios de uma forma quase casual, no mínimo faz-se com que a sugestão permaneça, o processamento aconteça, a ideia se projecte no pensamento exacto onde deve suceder. Não sabem, não há homem sábio o bastante para se deitar na mesma cama com uma mulher suficientemente inteligente. Ou melhor, calma, vamos por partes. Haver, há, e saber, sabe. Apaixona-se por ela, pode ter uma certa graça. A desgraça sequente vem mansa, ainda que muito mais hábil do que a destreza pura. No tecto já se lê pouco mais do branco dos olhos dela a alumiar-lhe a vida de cores fortes, outra antítese interessante, vai-se a ver e nasce medo. Convenhamos, bem vistas as coisas ela sabe demais, e uma mulher que sabe demais é sempre um perigo curioso. Mesmo que, contas feitas, nem consiga fazer bem várias coisas ao mesmo tempo.
(Caro colega, peço desculpa pelo abuso. Estou aqui, ansiosa, à espera do julgamento. Ia jurar que o Código de Processo Penal ainda habita por aí...)
Saber fazer
Sentava-me na cama apenas com o olhar enquanto mordiscava o lábio inferior. Não era uma trinca casual, era ao meio, um pouco mais ao canto, lembro-a melhor em ralenti: deslizava os dentes desde o recorte externo do lábio até dentro da boca, arrastando com eles algum bâton que limpava com a língua. Depois ria-se, ria-se muito, até àquelas pérfidas gargalhadas de quem prevê o momento seguinte. Deitada de barriga para baixo, anotava e sublinhava com a ponta de um lápis já roído o calhamaço do Processo Penal, anotava e sublinhava vozeando para si e para trás, para mim. Sabia exactamente quanto o perfil do seu queixo atrevido e bem delineado instigava a minha concentração. Depois virava-se para cima, fazia do Código travesseiro, fixava o tecto e repetia todo o artigo, número por número, alínea a alínea, chamando por mim. Virava-se de novo para baixo, folheava mais rápido para trás e para a frente, decorava, esquissava, sussurrava, lamentava, cantarolava e voltava a olhar para trás. No fundo, sabia o que mais me açulava na cama. Uma mulher que sabe fazer bem, mais do que uma coisa ao mesmo tempo.
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