Hoje em dia vende-se felicidade estampada em fotografias, em revistas, em blogs e redes sociais. Procura-se a imagem certa, junta-se a melhor frase, veste-se a melhor roupa, vive-se o melhor amor. A mim, que estou de fora deste rol da perfeição, fica-me sempre a ideia, eventualmente infeliz, de que esta gente não tem tempo para viver o que apregoa. Que deve acordar cedo a pensar no que dizer, que se concentra com afinco nas fotografias a postar, que escolhe a dedo as frases a mencionar, que olha para a câmara vezes sem conta, em poses estudadas e treinadas, como um cão de circo no seu melhor (nunca fui amiga de circos). A alegria espontânea e vivida é bonita de partilhar. A felicidade que vem empacotada de acordo com o socialmente esperado parece-me frágil, fátua, não bastante em si mesma. E sentir bom, que é sentir bom, basta por e para nós. Mesmo que a vizinha, a prima, a amiga, a inimiga, o senhor da mercearia e a dona da loja da esquina, não saibam, não imaginem, não vejam e não invejem.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
caro colega, este blog também alberga público feminino... não podemos esquecê-lo, certo?
(O teatro é, digamos, menos aparatoso. Mas nós dispensamos floreados, é da nossa condição...)
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
um assalto aos patos, que por ora deambulam no universo dos géneros...
- Aquela pata tinha um bico fenomenal...
- Pois...
- E a outra? A outra tinha cá um penacho no rabo, que ficava bem até sem laço, parava os patos e os galos, vê bem...
- Sim...
- Mas nunca te falei da mais bela, pois não?
- Acho que sim...
- Falo outra vez. Era uma pata alta e vistosa. Uma pata cabeluda, de pose. Só de olhar para os olhos dela derretia-me, até sem sol. Namorávamos os dois no lago, meios escondidos, meio à mostra. Uma pata interessante, ainda por cima. Atrevida! Sabias dela?
- Pois, julgo que sim.
- Mas tu também és uma patinha gira. Pareces mesmo mesmo patinha. Dás-me um beijinho?
- Vai à merda...
- ?????????????????????
- Pois...
- E a outra? A outra tinha cá um penacho no rabo, que ficava bem até sem laço, parava os patos e os galos, vê bem...
- Sim...
- Mas nunca te falei da mais bela, pois não?
- Acho que sim...
- Falo outra vez. Era uma pata alta e vistosa. Uma pata cabeluda, de pose. Só de olhar para os olhos dela derretia-me, até sem sol. Namorávamos os dois no lago, meios escondidos, meio à mostra. Uma pata interessante, ainda por cima. Atrevida! Sabias dela?
- Pois, julgo que sim.
- Mas tu também és uma patinha gira. Pareces mesmo mesmo patinha. Dás-me um beijinho?
- Vai à merda...
- ?????????????????????
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
musgo
Venci o medo há 32 anos. Nesta altura do ano, devo dizê-lo, matei o medo no Inverno, na serra onde se amontoava um musgo cheio de bichos medonhos que poderiam alcançar-me os dedos pequenos e pontiagudos. Agarrava os tufos, puxava-os para cima, colocava uma faca por baixo e depositava-os na caixa de madeira que Carmina transportava em braços, um peso que só visto. Lacraus, dizia ela, havia aos montes, e o jogo era de sorte ou azar. Sendo assim, sempre que avistava um aglomerado verde, sorria. Logo que poisávamos a caixa temia, quando enfiava os dedos na terra fria já tremia, e só sossegava quando, sã e salva, arrumava o verde musgo no seu local devido. Depois da empreitada seguíamos para casa, não fosse fazer-se tarde. Forrávamos o chão a jornal, depositávamos o musgo direitinho, desenhávamos um carreiro a areia, um lago a prata de chocolate, elevávamos o anjo ao seu lugar divino e aninhávamos Jesus, quieto e imaculado, na gruta supostamente quente, feita de pedra gelada. Só no final de tudo lavava as mãos. Só no rescaldo da festa sossegava realmente o espírito e acalmava a ânsia do medo, fundida na excitação da construção do presépio. O Natal para mim sempre teve muitas festas. O medo também sempre foi uma parte do caminho, aquela pela qual passamos até chegarmos ao local pretendido. Os medos mudam com o tempo. Hoje não há lacrau que me tire o sono, mas sou bem capaz de me assustar com um devaneio, que pode ser um vazio invisível de coisa nenhuma. De qualquer forma, e verdade seja dita, já não apanho musgo. Isso era na altura em que havia avó e presépio, só os bichos assustavam, e as fantasias eram toda uma realidade.
sábado, 29 de novembro de 2014
sou toda ouvidos
O espaço que ocupamos nos outros nem sempre é equivalente à importância que temos. Não raras vezes reflecte uma extrema ocupação que não deixa margem para mimalhices. Dar ao outro o que ele precisa para consciencializar que a questão não é falta de importância, mas sim excesso de carga, é o cabo dos trabalhos. Desde sempre, desde sempre que medimos melhor o que olhamos de frente, o que se apalpa, o que faz doer. A bem da verdade temos sérias dificuldades em resumir ocasiões sem lhes atribuir o peso, sem numerar limites, sem elaborar escalas. Género, se pensas 10 queres muito, se pensas 5 queres mais ou menos. Esquecendo que quem pensa 10 pode não ter mais nada para querer, e que quem pensa cinco pode, por sorte, azar, casualidade ou circunstância, ter os outros cinco legitimamente distribuídos, sem querer dizer que queira menos. Isto é uma mera teoria explicativa, pessoal, eventualmente transmissível, pouco ou nada útil. A quem quiser deixar estratégias práticas, as válidas e verdadeiramente produtivas, muito além da parca teorização, faça o favor, sou toda ouvidos. Ou cinquenta por cento, vá, o que não quer obviamente dizer que não oiça.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
crime e castigo
Conheço o discurso, sempre parecido, da moralidade. A arrumação das palavras certas, a frequência dos lugares correctos, a compostura que começa desde pequeninos, dizem ser de pequenino que se torce o pepino. Normalmente o porte não deixa lugar a grande reparo. Usualmente o discurso é escorreito e o raciocínio irrepreensível. Muitas vezes são bons alunos, frequentam as aulas de religião e moral, à quarta passam uma hora na catequese, ao sábado de manhã frequentam a equitação, o respeito ao animal é muito urgente de se ver. Sabem de cor e salteado as regras da boa educação, quando se encontram acompanhamos pelos progenitores situam-se ao meio, entre o pai e a mãe, trazem uma mão sobre o ombro, um sorriso discreto, são o orgulho da família. Curiosamente, no dia a dia, têm o poder de transformar num longo inferno o intervalo de quinze minutos, que para a menina da aldeia que não veste Timberland, parece durar uma eternidade. Convenhamos, justifica-se, ela nem sequer traz um tablet, uma camisola da Violeta, um casaco Gap, uns óculos cor de rosa. Porque motivo deveria penetrar a perfeição do grupo?
(Também não percebo, nem me faz sentido. A perfeição da riqueza e dos valores que se dizem altos é uma linha intransponível que não passa da pele para dentro, nem atinge o coração. Soubessem os perfeitos o que lhes falta, e inverteríamos o sentido da violência. Um auto-castigo bem-falante, ignorante e bem vestido, que continua a ser confundido com evolução.)
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
A dor do regime
Compreendo profusamente as reacções de incredulidade de quem confiou o seu voto, comungou dos mesmos ideais políticos, preconizou uma estratégia de desenvolvimento económico expansionista alicerçada em grandes obras públicas como modelo de crescimento, acreditou nos ideais sociais e nos tiques pessoais de bem vestir roupa de marca. Compreendo, ainda, quem não tenha resistido ao sexiest man, ao cute&chic blasé e ao facilitismo e porreirismo nacionais. Afinal estamos a falar de mais de dois milhões e meio de fãs. Impõe respeito, mas podia ser só o maluquinho aqui do bairro, que consideraria de igual forma. Contudo, entendo melhor os amigos, os políticos amigos, os empresários dos amigos e os beneficiários amigos. E com isto nem sequer falo do sofrimento da família de sangue e dos mais chegados, do inner circle afectivo totalmente alheio.
Mas não alcanço quem vê nisto, e nesta série de acontecimentos dos últimos meses, um problema de regime. O que é isso de Regime? A República? O Estado de Direito? Nada disso. O Regime é uma espécie de osmose entre o sistema político e o económico – pela qual se pauta toda uma sociedade – em que, sujeitando-se um ao outro, nunca se devem liquefazer. E quem assegura essa intransponibilidade? A Justiça, essa mesma sempre tão criticada, que nos acautela presentes e futuros actos e tentativas de contaminação. Enquanto assim for, o Regime está de boa saúde e recomenda-se. Doa a quem doer.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Tenho três notícias para as indefectíveis viúvas, órfãos e correlativos de Sócrates
Uma é boa. A presunção de inocência mantém-se intacta, não foi condenado, nem sequer ainda lhe foi deduzida acusação. Formalmente, o vosso homem é mais inocente do que eu, um depravado das ideias.
A outra é mais ou menos. A medida de coacção aplicada foi a piorzinha de todas. Só aplicável se houver fortes possibilidades de fuga (Venezuela, quem sabe), continuação da actividade criminosa indiciada (isso faz mais parte da natureza do escorpião e não de um animal feroz), perturbação do inquérito (sempre pode querer voltar a conversar sobre livros com o ex-PGR) e perturbação da ordem e tranquilidade públicas (hélas!, mantenham-se calmos).
A última é mesmo má. Nos indícios de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais o ónus da prova inverte-se, ou seja, será o vosso senhor que terá de provar a sua imaculada inocência. No indício de corrupção não se inverte, mas, fazendo-se prova, já sois vós, os indefectíveis, as viúvas, órfãos e correlativos, que tendes de provar a vós próprios que não votaram num corrupto.
domingo, 23 de novembro de 2014
dia
Ele aparece e diz que o senhor do primeiro despeja milho aos pombos pela janela. O senhor do primeiro é o senhor que tem gato e cão no mesmo espaço, um feliz contemplado com a crença na partilha dos opostos. Os dois convivem em amena cavaqueira, ouviu dizer que se cultivou com o tempo, o tempo cura até os azeites da bicharada instintiva, deveremos sempre dar-lhe o devido crédito. Ao milho é vê-lo voar enquanto os pássaros poisam, a natureza tem maravilhas que invertem possibilidades, é simplesmente fascinante. Mais ou menos como ele a fascina a ela com a paciência que lhe dá ao ouvido em palavras ditas com os gestos, ainda dizem que os gestos são coisa de mulher. Ela pensa, mais ou menos devagar, agora sim, típica e eternamente feminino. Quando desce olha o local onde os pássaros poisaram a monte, espreita se há milho, mas agora existem uns cães. Continuam os dois de mão dada, com os mesmos passos, os mesmos olhos, a mesma loucura, deixem-se de considerar uma impossibilidade. Ninguém diria que o dia começou devagar e atrasado. Ninguém julga que do alto de um saber soberano nasceu uma mão submissa. Ninguém imagina que num corpo pequeno cresça um propósito tão espesso. Jamais uns pássaros que poisam e um milho que voa adivinhariam um dia sossegado. Nunca a distância suporia uma luz tão premente. Ele sorri e diz-lhe que a queria na palma da mão. Ela imagina-se tão pequena como se lá coubesse, a realidade é um termo tão vago quanto a nossa ideia quiser (a doutrina interna é simplesmente o maior lugar do mundo). Logo depois chove e o ar aquece. É noite. Mas está tão claro que a vista dói.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
50 cêntimos
Somos todos muito parecidos na essência. André, o moço que me venera quase todos os dias, que me olha fixamente como se me adorasse, que me traz o lanche, me pede conversa e desenha para mim, larga-me da mão mal chega a senhora que lhe oferece o chocolate quente, uma vez por semana. Nesse dia respiro aliviada, sem olhos presentes, sem conversas insistentes. Cinquenta cêntimos*, cinquenta cêntimos valem mais do que uma semana de paciência, e são responsáveis pelo meu sentimento de alívio. É muita carga para uma simples moedinha, deveremos considerar.
( *ou de como o mundo também acaba, quando se extinguir o chocolate...)
( *ou de como o mundo também acaba, quando se extinguir o chocolate...)
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
revolta
Não sou nem nunca fui fundamentalista em exagero. Mas a verdade é que quando toda a direitos de pessoas e animais, sinto um revolver nas entranhas incontrolável. Abandonar um animal para morrer à fome é coisa para me deixar com mau estar. Mas mau estar sério, daquele que me nasce no fundo, cá dentro, chego até a agoniar. Procuro, deambulo nos meus pensamentos para tentar encontrar algo a que me agarre que me faça perceber o porquê deste tipo de maldade, mas não consigo. A intenção de infligir sofrimento atroz no que de mais básico existe, neste caso o alimento, é um acto tão cruel que não consigo concebê-lo. Mas o que fará a vida a esta gente, para a deixar capaz de tamanha violência gratuitamente? Hoje sinto revolta. Bem sei, um sentir inútil e profundamente individual, mas o certo é que hoje ele mora em mim.
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