© Paulo Abreu e Lima

sábado, 17 de janeiro de 2015

As desculpas


Por norma, não me custa nada pedir desculpas. Se sou incorrecto, se ajo de forma negligente, se melindro, magoo e firo alguém. Qualquer dos exemplos, per se, é condição necessária para um meu pedido formal ou informal de desculpas. Ou é ditado pela minha consciência sem mais, ou os factos são evidentes, ou, se não o são, alguém me chama atenção. Mas não é suficiente. Falta a convicção. Até porque o discernimento da consciência nem sempre é destro, o que nos vislumbra agora claro por vezes opaca, e quantas vezes ninguém está por perto para nos desofuscar. Assim, não é a consciência da hipotética "infracção" cometida, mas a convicção íntima e intransmissível que enforma a condição suficiente. Sucintamente, será necessário uma má consciência, mas só se suficiente e segura. Óbvio que o bom senso e uma desenvolvida capacidade de compreensão compõem o ramalhete. Contudo há tanta imoralidade em não pedir desculpas como em pedi-las sistematicamente. O hábito do constante pedido indicia, entre outras, duas coisas: ou cometemos por sistema os mesmos erros, ou, inseguros (cá está a falta de convicção) pretendemos não desagradar alguém. Ora, aos convictos nunca se solicita pedidos de remição.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Viagem às urgências

 
 
Tive a oportunidade de conhecer muitos países ao longo da vida, vivi mesmo em alguns por uns anos, conheci novas culturas, gentes, paisagens urbanas e naturais. Estive em locais que não trocava por nenhuma boa estante de livros, mas percorri outros onde corri riscos de vida, fui sequestrado e passei por momentos complicados – presentemente, alguns destes lugares abrem os noticiários e fazem-me lembrar uma frase que dizia a quem me esperava: nós, portugueses, ainda vivemos num jardim esquecido muitas vezes abandonado e descuidado, mas que nunca deixou de ser uma representação, mesmo que ínfima, do paraíso. Falo precisamente dos mesmos itens: cultura, gentes e paisagem. E só acrescento a segurança.

Há um bom punhado de anos, provavelmente desde sempre, tenho por ambição conhecer dois países. Um é o mais afastado da Europa; o outro, do mundo. Um é o mais parecido com os primórdios do planeta, onde o fogo e o gelo mediam forças e se transformavam em água e energia. O outro, o mais próximo do Éden, onde há um pouco de tudo mais uma beleza infinda. Ambos são constituídos por fiordes de cortar a respiração, uma palete de brancos, azuis e verdes ainda por catalogar, vulcões e géiseres com direito a duendes, elfos e trolls e, imaginem, climas relativamente amenos. Islândia e Nova Zelândia são países civilizados, muito desenvolvidos, onde Reykjavík e Auckland (as cidades mais populosas de cada um deles) fazem as delícias de qualquer cosmopolita. Claro que para mim tanto faz, são as paisagens que me magnetizam. As montanhas, os lagos, os glaciares, os mares, a flora e a fauna. Adivinharam, as fotografias.

Há uns dias estava a informar-me melhor sobre um destes destinos (viagem, circuitos, locais de interesse) quando, umas horas mais tarde, me vi imerso numa madrugada húmida nas urgências de um hospital e pensei: viajar e explorar não é para todos, as mazelas do corpo concorrem com as caminhadas longas pelas escarpas íngremes. Viajar primeiro, ler mais tarde - cogitei. Andar primeiro com as próprias pernas pelo mundo e, só depois, voar mais alto nos arroubos da imaginação pelos bancos do nosso jardim. Ou então barricamo-nos num resort de luxo. Claro que esta última opção, sem julgamentos maiores, depende unicamente do que já lemos.

domingo, 11 de janeiro de 2015

peste negra?


(imagem retirada do google)

As questões da doença mental têm muito para nos dizer. Até que ponto o conceito de normalidade se impõe como regulamento suficiente para aceitar, validar e admitir comportamentos, que por se inserirem no âmbito de um cultura, se tornam prática comum e tolerada? Será a linha dos cinquenta por cento capaz de nos indiciar o que é normal e patológico, o que é válido ou condenável, o que é saúde e o que é doença? Mistura-se por consequência o conceito de liberdade, outra linha suficientemente ténue para dar azo a manifestações diversas de índole distinta, com fundamentos válidos, com certeza, mas muitas vezes longe de serem absolutos e lineares. A forma de encarar o fundamentalismo e as convicções cegas não pode, quanto a mim, desligar-se por completo dos conceitos de doença social e individual, numa evolução clandestina subjugada a uma educação duvidosa e a valores totalmente opostos à manutenção sadia dos laços comuns. Parece-me fácil de considerar esta hipótese, mais ainda se tivermos em linha de conta que consideramos patológico o excesso de actividade, por exemplo, que pode mais não ser do que um desconforto emocional e relacional ligeiro, que acende a necessidade de movimentação extrema, por vontade de compensação. Por conseguinte, no seguimento, pode ser prudente e pertinente analisarmos a rigidez e alienação da doutrina como uma séria doença, que merece ser encarada como tal. Ouvir discursos dominados por graves limitações de inteligência, que colocam a existência humana como uma austeridade absoluta e determina por uma doutrina absoluta não é religião, é um sinal claro de uma falta de saúde mental preocupante. É claro que não poderemos isentar a sociedade mundial de uma certa culpa, pela necessidade constante e importante de alienação superior, própria da nossa condição. É clara uma dependência de justificação sagrada, que nos coloca como uns Deuses detentores de um lugar governado por uma entidade suprema que por ser uma crença tão íntima, se pode tornar uma imposição social. Essa necessidade poderá até ser minimamente salutar se a estrutura global do ser humano não se encontrar comprometida. Caso contrário, o sentir de reposição da ordem pode prevalecer, numa motivação psicopática dramática, capaz de matar em prol de um bem que não é mais do que um equívoco e uma necessidade suprema de controlar o mundo. Parece-me realmente muito dizer que a há uma peste negra a turvar os espíritos da terra. Mas por outro lado, chamar-lhe somente terrorismo, a mim, parece-me francamente muito pouco. É na doença que me cabe a maldade. Tudo o resto são terminologias confusas.  

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

forças

Tenho muito medo de ficar velha, mas não é de mim é dos outros. Assusta-me a incapacidade de cuidar do meu corpo, mas não é por mim, é por quem cuidará (se for preciso cuidar). Receio a fragilidade física e mental porque em ambas surge a dependência, e eu resido num mundo onde a necessidade é um lugar comum mas doloroso, não sei se existe sujeição subordinada a uma outra forma de estar (eu pelo menos desconheço). Viver por dentro do sistema é terrível em termos de consciência. Olhar para o velho que toca cem vezes na campainha antes que o atendam, sentir o desespero do doente que precisa da muda que nunca mais chega, perceber a impotência da senhora que tirita de frio, sem conseguir que a agasalhem, é assustador. Não me apraz de forma alguma suplicar pela ignorância protectora. Não me cabe a mim reorganizar o mundo e as suas precisões, diagnosticar-lhe as urgências e remendar os furos, encher as pessoas de zelo por que carece e de cuidado por quem necessita, mas julgo que caberá a quem povoa os meandros utilizar os meio que possui por forma a sensibilizar quem pode, sobre o lugar de quem não pode. Porém cada vez mais sinto que o poder está sempre muito mal entregue, já nem sei se por azar, se por reflexo de abrangente incompetência. E por isso permanece-me o medo, um agente supostamente potenciador de mudança, eventualmente mais fraco do que a violência da realidade. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Sol de Janeiro

 
O fim do amor é como o pôr-do-sol. Pensamos que ainda o vemos quando já se foi.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

tanto por dizer

As necessidades relacionais surgem-nos como nos surge a fome, a sede, o frio, o calor. Sabemos delas quando a carência se assume uma realidade, e não seria demais perdermos tempo a pensar no que nos faz falta. Faço isso vezes sem conta, e descubro quase sempre acesa a necessidade de ser ouvida. Essa necessidade reflecte-se quando escrevo, quando falo, quando partilho o que quer que seja, seja com quem for. Por vezes não são os nossos que melhor nos escutam. Os nossos têm uma ideia concebida, por vezes enganada, sobre nós. Fácil perceber porquê, há sempre uma certa resistência em encarar a mudança, e eu não estou eternamente igual ao que já fui. Para a minha irmã serei sempre a irmã mais velha, mesmo quando, muitas vezes, eu me sinto a mais nova. Para o meu avô serei sempre a neta, ainda que dele cuide, se precisar de ser. Para a minha amiga de sempre eu sou a Carlota Joaquina, aquela que está pronta para o que der e vier, mesmo quando eu, Carlota Joaquina, estou mais do que pronta para lhe cair no colo. O juízo de valor é outro exemplo frequentemente executado por quem nos quer bem. Escutar de uma filha que o que mais lhe apetece é mandar uns berros à senhora a quem não deve gritar nunca, é um desencadeador importante de substâncias de apaziguamento e de fazer ver. O que é correcto, o que é educado, o que é pertinente, o que é impertinente, entre um conjunto infindável de melhoramentos com vista à intervenção prévia e cessação de estado alternativo de consciência (dizem as mães, claro, que não há lucidez maior do que a ira). Tudo correcto, mas e onde fica a aceitação e o crédito do que sentimos? Não fica, claro, os bons costumes e as boas relações querem o nosso bem, o grave é que nem sempre o nosso bem é o que nos liberta na hora H, no minuto M, no instante I, alturas em que o que precisávamos era que alguém nos escutasse, coisa que não tem de implicar grandes palavras ou intervenções. Adoptar um estranho como escuta é, como o nome indica, de uma estranheza tamanha. Há um desenquadramento, uma ausência de contexto, duas pessoas que são ouvidos e bocas libertas de construções. Aflitivo? Julgo que sim. Que fará o transeunte do banco do jardim com a minha história? Que farei eu com a vida da pessoa que me expõe o tutano do espírito numa tarde chuvosa, na mesa do lado do café? A verdade, pura e dura, é que ninguém faz nada a não ser escutar e aceitar, o que deixa o cenário envolto numa espécie de melodia isenta de obrigação. Eu sei, entra no âmbito da liberdade excessiva, talvez por isso eu me perca a pensar como conseguirei escutar tudo o que as minhas pessoas tiverem para me contar. Tenho tanto para dizer e tanto para aprender.  

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

quem vê caras não vê corações

Quem vê caras não vê corações, dizem os antigos, dizem as pessoas que sabem, dizemos nós no dia a dia, quando encontramos um engano envolvido por uma expressão branda. Não sei se concordo. Cada vez mais consigo ler a ternura residente nos gestos que me cercam, a astúcia manifesta nos olhos que me rodeiam, o carinho nos sorrisos ternos, e a velhacaria, a maldita, nas palavras que gritam mais alto do que eu consigo decifrar. Também me engano, é um facto. Ainda me iludo, por vezes ainda adormeço, mas a verdade é que a cada dia confio mais nos meus sentidos, com provas dadas e revalidadas de que os equívocos são em dose menor. O senhor do jardim, por exemplo, nunca me enganou. Desde cedo que a rudeza que emana não me cabe perto da resistência, mas encaixa-se perfeitamente ao lado da má educação. A irmã Rosa, a professora que gritava nas aulas de religião e moral, um outro exemplo, acabou por confessar-me ter ido para freira por instabilidade emocional, e nunca por vocação. E eu sabia, eu juro que já sabia. Depois surge-me a moça que passeia demoradamente o pai nas estradas da rua, velho e debilitado. É uma delicadeza que ampara tudo quanto a solicita, há muito que lhe li esse traço na simplicidade do rosto e na maciez da expressão. Mas foi o tempo, admiro-o, pois foi com ele que aprimorei toda esta minha confiança. Antes, tinha medo, assustava-me acreditar na minha percepção, quando o mundo em redor insistia em retumbar contrários. Hoje sinto-me muito, e raramente me arrependo disso. Aí residirá eventualmente uma arte, ou um trabalho árduo de desobrigação ética. Seja que nome for aprecio, e pretendo expandir ao longo do próximo ano e ao longo de toda a minha vida. É mais ou menos uma lógica sujeita à mãe natureza, um instinto, um respeito a mim. E ao outro, em consequência.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Deus, sai da minha vida!


Tínhamos catorze, quinze anos. De uma certa forma já estávamos habituados ao registo fleumático e imprevisível do professor Queda. Tanto nas aulas de matemática, como nas de religião e moral. Um dia, numa destas últimas, entrou de mansinho na aula e escreveu fulminante em giz branco no quadro a frase supra. Fila a fila, um a um, fitou fundo os olhos e, cáustico, perguntou: és capaz de gritar e assumir bem alto aquela frase? Era uma manhã escura de Dezembro e, se estava frio, a sala congelou. Ninguém a proferiu: "não, setôr", "posso não acreditar totalmente em Deus, mas não sou capaz de gritar isso", "eu amo Deus, setôr…". Chegou a minha vez. Era muito bom aluno, sem a menor modéstia, mas essa realidade nunca constituiu um fim em si mesmo, era puramente instrumental. Posso explicar. O meu desempenho exemplar permitia "certas liberdades". A de confrontar aberta e consubstancialmente as matérias estudadas, a de pedir vinte valores cada vez que me perguntavam a nota que deveria ter, a de contrariar o professor de filosofia à frente da sua aluna-xodó. Claro que atirar o apagador de madeira uns vinte metros pelo corredor, durante o recreio apinhado de alunos, e acertar em cheio na careca do professor Queda não cabia exactamente no conceito das "certas liberdades", mas soube muito bem e ele nunca acreditou na minha canalhice. Mesmo no dia seguinte em que estava ali, especado à minha frente, com um inflado galo no cocuruto, esperando a minha resposta:
 
– Senhor professor doutor – ele adorava ser tratado assim, até um dia, muitos anos mais tarde, em que soube que lhe retiraram os títulos na sequência de um processo judicial dos pais dum aluno agredido brutalmente por ele (ao que parece, nunca deveria ter podido leccionar por, entre outros itens, falta de habilitações) –, posso aqui nesta sala proferir em plenos pulmões "Deus, sai da minha vida", mas é mais difícil gritar o seu contrário. Pedir que saia é desafiar um acto de temor, rogar que entre, entre sempre, é não temer a graça do Senhor.
 
Voltou-me as costas, coçou a protuberância encarniçada, apagou a frase do quadro e foi para a secretária falar mal dos fariseus. No final do ano baixou-me um valor a matemática.
 
Nos meus quinze anos era bem mais católico, sensato e destemido. Já hoje, receio muito mais os outros.

sábado, 27 de dezembro de 2014

afectos

Hesito entre falar do trivial ou do excepcional, do banal ou do importante, das coisas pequenas ou das coisas grandes. Há quem diga que a época pede grandes balanços, eu, pela minha parte, contento-me com pequenas conquistas, quotidianos, rotinas que me marcam com um ferro quente. Os sabonetes e as meias que me ofereceram no Natal, por exemplo, são motivo de análise profunda, de deambulação interna intensiva, de afeição e gratidão. Não preciso que o sapato do pai Natal traga o que não me faz falta, e um sinal de ternura cabe perfeitamente no conforto de uma peúga, no odor floral de um sabonete, na simplicidade de um sorriso por si só, desprovido de bens ou adornos à superfície. Também tenho estado especialmente atenta aos sinas de contentamento. A felicidade afigura-se como uma grandeza um tanto ou quanto paradoxal, contrária ao sentido de evolução da humanidade. Tendemos a progredir em diversos sentidos e a apreciar cada vez menos o que nos faz realmente bem, chamaria a este fenómeno qualquer coisa como ignorância erudita, mas não sei se será verdadeiramente adequado. O Papa Francisco, esse sim, parece-me um verdadeiro erudito, e não posso deixar de falar nele neste final de ano. A igreja carecia de uma revolução, e sinto cada vez mais que está no caminho de a alcançar. Nunca nenhum outro me apelou tanto ao amor como este, e o mundo, este lugar empedernido, carece estupidamente de amor. Felizmente consigo vê-lo. Consigo cheirá-lo nas minhas mãos quando agarro no meu filho, consigo olhá-lo no júbilo do meu sobrinho quando encontra o colo da mãe, consigo apalpá-lo quando fecho os olhos e o construo internamente numa dimensão alternativa, ainda ontem, por exemplo, na adega morta da minha casa. E sossego, fico muito sossegada quando falo assim e tudo me parece mais fácil do que é na realidade. Acabo por aninhar-me no encosto desta visão nublada, por enrolar-me como um animal adormecido, por beber com avidez uma água benta que não me abençoa, não consigo proteger-me por muito tempo com esta ilusão fantasiosa. A verdade é que não há nada mais fácil de desencadear no mundo do que o ódio, nem há tiro mais certeiro do que o do rancor. É fácil de perceber, parece-me, para amar é preciso trabalhar e ir em direcção, tarefa penosa, árdua, difícil. Tudo o resto é no mínimo mais ligeiro, mais individual, eventualmente muito mais satisfatório. Não me espanta, nem sequer me decepciona. A preocupação que me deixa é também uma caso secundário. O que me inquieta, o que verdadeiramente me incomoda, é o futuro do mundo entregue à natureza humana, pouco hábil nos afectos. Deixaremos à geração dos nossos filhos um osso duríssimo de roer, não esquecendo que os cientistas dizem que daqui a nada teremos menos um dente.    

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Vicente

(Foto retirada do google)

O baloiço está no exacto local onde Vicente, o corvo, fez das suas em cima da minha cabeça. Perseguia-me e falava para além de me utilizar como sanitário, e portanto lembro-me dele com frequência. Victor, o tio residente em França que entretanto regressou casado com uma francesa sempre florida, matou-o numa véspera de Natal. Passou-lhe com as rodas por cima na chegada, e veio com a piadita do costume, como se tivesse sempre graça - Matei uma galinha preta ainda agora. Amaldiçoei-o mas de nada me valeu, Vicente estava morto, e Victor ainda hoje é vivo. O baloiço está no exacto local onde sempre esteve, penso que já disse. O poço repousa sem horta para regar, o canil descansa sem cães para aninhar, a adega não tem vinho e o lagar já não guarda azeite. As coelheiras estão vazias de coelhos, mas dizem que os ratos se albergam por lá, não sei, não me pus a isso, não por medo mas por respeito à bicharada, que devia estar em descanso. Augusta ainda mora lá perto. Meio sozinha, protegida por um tronco de madeira quente que arde noite e dia sem parar, quem disse que a companhia tem de falar? A solidão é um monstro que me assusta sempre e também no Natal. Há muito que perdi a crença no dito que a elogia em detrimento da má companhia, vejo isso com estes olhos todos os dias. Quando me concentro na vida, quando deambulo entre as escrituras divinas e perscruto as mentes perversas percebo sempre, rigorosamente sempre, a mesmíssima coisa. A solidão mata mais do que o desejável, e a má companhia é um alento que espicaça a existência infeliz. Nenhuma será preferível, mas suponho que a segunda seja bem mais fácil de atravessar. O baloiço está lá, já disse, certo? Hoje, só hoje, fiz-lhe companhia, quase tanta quanta a que ele em tempos me fez a mim. No silêncio da tarde, um e outro. O Vicente, juraria, olhava por nós.  

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

passadiço

Houve um dia em pensou poder vir a morar no Alentejo. O alpendre era o lugar do inicio do dia, a seara o do almoço, a lareira o do fim da tarde, e a cama, alta, servia de colo para o serão. Não se imaginava no Verão, era sempre no Inverno. O Inverno é aquela altura do ano em que o conforto de um café quente se senta ao lado do frito açucarado, é demasiada gula num corpo só, a única capaz de acalmar com um calor que se precisa muito. O cão andava à solta e o gato aninhava-se sempre aos pés dela. Os tapetes tinham sido bordados noite dentro com fios de lã forte, afinal de contas estaremos no Inverno. O passadiço era frio, só assim se sente o calor interno dos quartos. Era atravessado por um tapete comprido e florido, sempre estendido a preceito. O quarto era um lugar onde a cama ocupava o espaço de uma vida. Nela estendia-se sozinha enquanto no sonho acordava ele. Ele enchia-a de si e jamais permitia que o frio entrasse. Para isso cobri-a com o corpo e uma manta, enquanto os braços se sentiam insuficientes para a  abraçar com tudo o que sentia. Faltava mais braço, faltava mais perna, faltava mais homem. Ela não sonhava nada disso. Sonhava dentro dela uma realidade muito maior. Não lhe faltava coisa nenhuma, nem vontade, nem regaço. A meio da noite levantava-se sempre para espreitar a lua. A lua alumiava-lhe os olhos e fazia-os brilhar de espanto, mas logo depois nascia o sol, ainda mal ela tinha adormecido, entrava sem bater e trazia-a de volta. O regresso era sempre conturbado, mas ainda assim saía e apanhava o ar fresco da manhã. Nunca deixou que o dia lhe matasse a noite, mesmo quando o sol, insistente e omnipresente, lhe arrefecia o entusiasmo. Afinal de contas, mais logo, há café quente outra vez. E frito, e manta, e sonho, e ele. O corredor frio é um pormenor insistente, uma vez que o monte, perdido, continua a palpitar.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ser pessoa

A vida é feita de lugares fora e lugares dentro. Seremos eventualmente o cômputo de todos eles, mas a oposição dos ditos pode constituir controvérsia, quanto mais não seja em nós. Vejamos, sem exageros ou demasias, centrando-me apenas em mim; num pequeno raio consigo encontrar nos olhos dos outros a minha luta e a minha obsessão, a minha paciência e a minha impertinência, a minha alegria e a minha reserva, a minha ambição e a minha insanidade. Nuns mesmos olhos sou capaz de me deparar com perfeição e incorrecção, com primor e com desrespeito, com prazer e com horror. Indo mais longe, intrinsecamente, e dependendo dos dias e certamente do que encontro no olhar alheio, consigo ser persistente ou obstinada, compreensiva ou desrespeitadora, parceira ou coisa nenhuma. No meio disto tudo, automaticamente, reencontro-me, mas não sem esforço, jamais sem algum custo, nunca sem implicação. Bem sei, é transversal à espécie como seres sociais e individuais, mas não deixa por isso de ser um trabalho árduo de permanente construção. Processo que finda apenas e só na hora da morte, a única altura em que somos completos até ao limite do que nos foi possível avançar. Essa hora não deveria, por isso, ser tão assustadora. 

domingo, 14 de dezembro de 2014

placebo

A verdade é que ao longo da vida vamos encontrando respostas cada vez mais claras. A bem ser, claro, precisamos de procurá-las e perceber exactamente em que minuto nasceu a nossa necessidade de atenção. Por exemplo. Minuto talvez seja exagero, mas dia, eventualmente hora, noutros casos só altura. Não é natural que apareça sem busca intensiva e direccionada, não é como descobrir uma comichão na pele que facilmente percebemos vir das laranjas que comemos ao almoço. É outra coisa, o local onde se encontra é interno e passado, é preciso querer olhá-lo, saber percebê-lo, ousar dissecá-lo, uma perfeita conjugação, um enorme desafio, às vezes uma surpresa desregrada, só na instância inicial. Logo depois é cheirar. É trazer à tona e tocar, é olhar de frente e deixar que o sentido se assome logo ali ao lado da fragilidade sentida quando o que urge é transparecer o contrário. A auto-suficiência é cá uma coisa impossível... Não cremos nisso, desafiamos o mundo, o nosso intelecto, quase nos convencemos a nós mesmos que bastamos para prosseguir, é a assumpção da carência em forma de sistema defensivo. Assumir o engano tem os dois lados de uma mesma moeda, de um a porta que se abre, do outro a porta que se fecha: percebemos claramente a importância de parecermos fortes, consciencializamos de imediato o quão pouco a estratégia nos vale. Em termos práticos, claro, que em termos de regulação emocional é um comprimido e pêras. Placebo, mero pormenor, eventualmente consequente. Várias vezes por dia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

alucinações

Às vezes fico um bocado farta das idades e situações estipuladas para fazer coisas. Nunca simpatizei com Jean Piaget, aproveitei-lhe o essencial, deitei um olho aos estadios do desenvolvimento, decorei uma ou outra coisa básica, normativa, mas depois quase esqueci. Não aprecio a marcha que tem de começar ao ano, o diálogo que tem de surgir aos dois, a socialização que deve prosseguir logo depois, após as fases de egocentrismo declarado. Acho um exagero que só as crianças possam fazer birra, que só os velhos tenham o direito a caminhar devagar, que só os adolescentes possam sonhar, que só as mulheres novas possam ser umas atrevidas. Não aprecio a ideia de que só aos quarenta se cortem cabelos para cortar em idade, que só se possam pintar brancos e que esses tenham mesmo de se pintar, que as rugas sejam impreterivelmente para disfarçar,  as gorduras para ocultar, as gulas para matar. Estou farta, fartinha dos ditames que insistem na compartimentação da vida, que apregoam a inquietação como um sintoma a abater, a tranquilidade como uma preguiça impossível, a velhice como um fim de vida, e a juventude como um lugar onde ninguém sabe morar. Cansam-me, cansam-me as necessidades de perfeição indexada à norma, os armários insistentemente arrumados por ordem de possibilidade, as combinações feitas à partida por quem não vive do corpo para dentro, mas opina sempre e muito do corpo para fora. A necessidade de ordem é um dos problemas do mundo. Enquanto não misturarmos o todo, estilos, raças, cores e possibilidades, agora, antes e no fim da idade, jamais viveremos num mundo livre. A presunção dessa existência é um sinal de insanidade, parca visão, ou elevada capacidade de alucinação. Qual delas a mais assustadora.