( Fotografia daqui)
O projecto Pinta-amores traz-nos uma parede amarela e uma frase excelente (entre outras). Melhor som só no morno da Primavera e escutada ao vivo, na hora exacta em que o sol capta a melhor fotografia.
Era um homem empático, de sorriso fácil, de muitos conhecidos e poucos amigos - assumia-o com orgulho na entrega que lhes dedicava. Sempre trabalhou mais de catorze horas por dia e nunca ninguém lhe conheceu patrão - manias do empreendedorismo como se diz agora; necessidade de liberdade e de condução do seu próprio destino, digo eu. Enfatizava a vida difícil que enfrentou entre os estudos e o trabalho no pós grande guerra, A dele e a da sua mãe que deu à luz mais sete irmãos e os criou praticamente sozinha pois enviuvara cedo numa remota terra beirã. Depois de um ano inteiro acamado a drenar uma pleurisia tirou a carta aos dezasseis e rumou para Vila Real onde se fez sócio dos irmãos mais velhos. Poucos anos depois estabeleceu negócio próprio na capital. Casou-se tarde para a época, pelos vinte e sete anos, com a mais bela minhota do eixo Ponte de Lima - Viana do Castelo e rapidamente constituiu família. O sucesso profissional não o deixou, abdicara das heranças de família, poucas vezes aceitara participar nas comitivas presidenciais ao estrangeiro e outras benesses advenientes do seu percurso profissional. Era, na essência, um homem realizado nos múltiplos sentidos da palavra. Um homem feliz.
O meu pai teve sempre um aspecto jovial, uma saúde de ferro, uma cabeça brilhante. Fez sessenta anos mas aparentava quarenta, fez setenta com a jovialidade dos cinquenta e fez oitenta o ano passado com a lepidez dos sessenta. Contudo, tudo mudou a partir desse preciso dia. Os filhos obrigaram-no, contrariado, a fazer um check-up rigoroso que nada revelou: umas análises de fazer inveja a qualquer teenager, um coração bem musculado de atleta, uns ossos bem nutridos, enfim, uma máquina bem oleada, datada mas com as peças todas. Contudo, repito, desde esse preciso dia tudo nele mudou.
Um homem de negócios ainda no activo liga tanto a algarismos como um filólogo a letras e, aquele oito, aquele único dígito à esquerda era-lhe insuportável de digerir. Oitenta, octogenário, octogonal, octodecimal, tudo fora do normal. Tudo lhe soava mal. Por vezes, mesmo nos espíritos mais lúcidos, o clique da idade não advém da doença ou do cansaço, nem da demência que não avisa ao chegar. O estalido paralisante do tempo que passa provém da plena consciência dos cálculos ensurdecedores que com um só número se podem fazer. Nada mais natural.
Com o passar dos anos vamos sentindo em paralelo duas certezas que se acentuam no seu antagonismo. Uma é a convicção de que já aprendemos umas coisas; outra, a de que afinal não aprendemos nada. Não estou a falar da velha máxima em que se fundeia a dialéctica socrática: quanto mais conheces, mais questões ficam por deslindar. Ironia e maiêutica à parte. Nem sequer partilho com Jacques Lacan a ideia de que aquele (Sócrates) foi o verdadeiro percursor da psicanálise, note-se – o solilóquio não substitui o diálogo, nem os mecanismos de formação de conhecimento estão libertos de associações livres. Falo de algo bem mais simples. Experiências passadas ou a aprendizagem com erros repetidos não são garantes suficientes para se alcançar imunidade aos enganos. Muitas vezes somos atraídos pela estética do abismo. E se, por exemplo, a lógica do amor não se discute, o ardil do desejo trai-nos reiteradamente. Com a agravante que pode e deve, sim, ser minuciosamente dissecado. Todo aquele que, ao longo da vida, diz saber umas coisas deseja conhecê-las melhor, e a ética do pequeno conhecimento, como a do grande desejo, instiga à assunção do desconhecimento. O tempo oferece tantas oportunidades de saber como de ignorar. E a consciência plena de ambas as realidades não faz de nós mais ou menos sábios, apenas mais ou menos tolerantes. Sem ornatos, melhores ou piores pessoas. Eis o mistério da bondade.
Por vezes somos muito mais intimidantes, agressivos e soberbos do que haveríamos outrora pensado. Reacções desproporcionadas que aterrorizam e afastam os outros. Muitas vezes, a maior parte delas, não damos sequer conta; os decibéis das palavras que proferimos não aumentam, não entoamos de forma enfatizada nenhuma em particular, os vocábulos não são hostis, o olhar não se enche de fereza. Mas aos olhos e ouvidos dos outros somos intimidantes, agressivos e soberbos. Acontece-me amiúde e só acabo por percebê-lo na reacção desprevenida do outro. Depois, tentamos arranjar mil e uma justificações, fundamentações e desculpas, mas o mal já fora feito. A comunicação entre duas pessoas é algo muito delicado que merece meticulosa atenção; não se cinge às palavras, nem aos gestos ou olhares. O tom, como o registo, adquire uma importância infinda. Um dos meus poetas preferidos, Eugénio de Andrade, desfere: «São como um cristal,/ as palavras./ Algumas, um punhal,/ um incêndio./ Outras/ orvalho apenas». Verdade. Mas há todo um mundo entre duas palavras, um tempo interminável num piscar de olhos e um slow motion em qualquer gesto de mãos e braços que altera tudo. Estes espaços, que alguns chamam de silêncio, pausas esquecidas entre uma vírgula, é que moldam o tom e, este, mal afinado, pode amedrontar o mais destemido. Mais importante do que as palavras é o compasso da melodia com que nos são anunciadas.
Por norma, não me custa nada pedir desculpas. Se sou incorrecto, se ajo de forma negligente, se melindro, magoo e firo alguém. Qualquer dos exemplos, per se, é condição necessária para um meu pedido formal ou informal de desculpas. Ou é ditado pela minha consciência sem mais, ou os factos são evidentes, ou, se não o são, alguém me chama atenção. Mas não é suficiente. Falta a convicção. Até porque o discernimento da consciência nem sempre é destro, o que nos vislumbra agora claro por vezes opaca, e quantas vezes ninguém está por perto para nos desofuscar. Assim, não é a consciência da hipotética "infracção" cometida, mas a convicção íntima e intransmissível que enforma a condição suficiente. Sucintamente, será necessário uma má consciência, mas só se suficiente e segura. Óbvio que o bom senso e uma desenvolvida capacidade de compreensão compõem o ramalhete. Contudo há tanta imoralidade em não pedir desculpas como em pedi-las sistematicamente. O hábito do constante pedido indicia, entre outras, duas coisas: ou cometemos por sistema os mesmos erros, ou, inseguros (cá está a falta de convicção) pretendemos não desagradar alguém. Ora, aos convictos nunca se solicita pedidos de remição.
Tive a oportunidade de conhecer muitos países ao longo da vida, vivi mesmo em alguns por uns anos, conheci novas culturas, gentes, paisagens urbanas e naturais. Estive em locais que não trocava por nenhuma boa estante de livros, mas percorri outros onde corri riscos de vida, fui sequestrado e passei por momentos complicados – presentemente, alguns destes lugares abrem os noticiários e fazem-me lembrar uma frase que dizia a quem me esperava: nós, portugueses, ainda vivemos num jardim esquecido muitas vezes abandonado e descuidado, mas que nunca deixou de ser uma representação, mesmo que ínfima, do paraíso. Falo precisamente dos mesmos itens: cultura, gentes e paisagem. E só acrescento a segurança.
Há um bom punhado de anos, provavelmente desde sempre, tenho por ambição conhecer dois países. Um é o mais afastado da Europa; o outro, do mundo. Um é o mais parecido com os primórdios do planeta, onde o fogo e o gelo mediam forças e se transformavam em água e energia. O outro, o mais próximo do Éden, onde há um pouco de tudo mais uma beleza infinda. Ambos são constituídos por fiordes de cortar a respiração, uma palete de brancos, azuis e verdes ainda por catalogar, vulcões e géiseres com direito a duendes, elfos e trolls e, imaginem, climas relativamente amenos. Islândia e Nova Zelândia são países civilizados, muito desenvolvidos, onde Reykjavík e Auckland (as cidades mais populosas de cada um deles) fazem as delícias de qualquer cosmopolita. Claro que para mim tanto faz, são as paisagens que me magnetizam. As montanhas, os lagos, os glaciares, os mares, a flora e a fauna. Adivinharam, as fotografias.
Há uns dias estava a informar-me melhor sobre um destes destinos (viagem, circuitos, locais de interesse) quando, umas horas mais tarde, me vi imerso numa madrugada húmida nas urgências de um hospital e pensei: viajar e explorar não é para todos, as mazelas do corpo concorrem com as caminhadas longas pelas escarpas íngremes. Viajar primeiro, ler mais tarde - cogitei. Andar primeiro com as próprias pernas pelo mundo e, só depois, voar mais alto nos arroubos da imaginação pelos bancos do nosso jardim. Ou então barricamo-nos num resort de luxo. Claro que esta última opção, sem julgamentos maiores, depende unicamente do que já lemos.