Não se julgue que quem decide pôr termo a uma relação não sofre. Sofre tanto ou mais do que o outro. Sobre ele pendem as farpas da culpa, enquanto que sobre o outro, o consolo da vitimização.
terça-feira, 10 de março de 2015
segunda-feira, 9 de março de 2015
E se
Se tudo o que eu sinto fosse uma imagem, seria um mar de algodão-doce onde te escondias e donde surgias aqui e ali sempre corrupiando, como uma bailarina de patins muito brancos que gira, gira e gira e só pára quando me aproximo para a segurar. Se tudo o que sinto fosse um vasto horizonte, serias o fio laranja de cobre que delineia o último vestígio vivo entre o Céu e a Terra depois do sol morrer e ao qual me uniria por todos os breus. Mas se tudo o que sentes fosse uma praia, bastaria que eu fosse um único grão de areia de um castelo já levado pelo mar.
domingo, 8 de março de 2015
(s)implicidade, de mulher
Acho que se fosse homem nos acharia mágicas. Como não sou, como nos farejo as fragilidades à distância de um pensamento, nos miro as vontades a cada piscar de olhos, nos encontro as virtudes em cada palavra e as desvirtudes em cada gesto, acho-nos simplesmente merecedoras de um lugar diferente. E diferente porque somos diferentes, não há feminista obstinada que me convença do contrário. Tirando isso, somos uma parte do processo do universo. O lado de dentro da procriação, a delicadeza da maternidade, a suave dureza do cuidado, a certeza da dedicação. Há as que são muito ambiciosas e querem ir demasiado longe. Pela minha parte prefiro louvar as que ficam pelo caminho de encontrarem a paz, na sua verdadeira essência.
quinta-feira, 5 de março de 2015
vida
A escuta séria da experiência alheia pesa até fazer doer o ego. Com ela percebemos que a vida pode ser mais amarga do que o fel que a minha avó cortava cesso das entranhas dos coelhos, que a nossa mente é mais complexa do que um labirinto sem fim e que a simplicidade, aquela que é precisa para que existam momentos felizes, fica ferida de morte quando crescemos além dos vinte. Depois disso é esperar pela velhice a ver se ela volta consistente. Até lá é julgarmos que a encontramos, vê-la raramente e rezarmos muito para realmente lá chegarmos. Quando por fim acontece, não temos tempo útil para a recebermos.
quarta-feira, 4 de março de 2015
Parafernália
Hoje o seu amor não veio com olhos, boca e curvas que o atentassem. Não o acordou com sussurros de mel e abanões crocantes. Não lambeu o lóbulo esquerdo da orelha nem o apalpou no rabo enquanto fazia a barba. Não lhe deixou a agenda do dia na credência do hall de entrada encostada à esfinge de Rá ao lado do olho de Hórus. Hoje o seu amor ficou-lhe engasgado na garganta quando abriu a janela e sentiu os raios tépidos de sol a ameigarem-lhe a barbela, quando viu cor de laranja raiada ao fechar as pálpebras e pressentiu a brisa lenta do lado de fora. Podia ficar assim pendente por uma eternidade, a vertigem dum parapeito faz toda a diferença, afoita-lhe a avidez por um pequeno suicídio ou reinventa-lhe a passarola de Bartolomeu de Gusmão. Depois, na varanda ao lado, há todo um mundo de possibilidades entre um passo à frente e um outro atrás. Tal como o amor entalado na garganta. Se o regurgitar, morre ou voa dependendo do estado enxuto; se o engolir, mantêm-se diligente, acorda, abocanha, deixa a agenda e apalpa a parafernália do pobre padre voador.
domingo, 1 de março de 2015
jogo de azar
A vizinha de baixo morreu ontem. Hoje o vizinho chorava inconsolável no vão da escada, num desespero que aos oitenta mora perto da solidão. Estendi-lhe uma mão e toquei-lhe o braço, ao mesmo tempo que lhe dei a minha disponibilidade para o escutar e ajudar, coisa quase nenhuma, sei disso. Agradeceu-me e seguiu para a garagem, bambo na nova realidade que não consegue conceber. Teme nunca mais conseguir entrar no carro, pragueja contra Deus que deveria tê-lo levado no exacto momento em que soube da notícias, desdenha os restantes dias que lhe faltam como se fossem uma pena que terá de cumprir, perante um futuro que já não quer. A vida não foi feita para ser branda, e a morte tardia é também ela uma morte estranha. Vem na hora que dizem ser certa, entra pela porta da frente, sai airosa e prossegue para outra casa, o que não morre tem de aceitar: é a lei desta estranha vida. Mas a lei do mundo de quem cá fica, sozinho, no fim do caminho, passados cinquenta e sete anos de vida comum, é sempre uma maldição. A morte raramente acerta para quem cá fica de um enorme percurso a dois. E é por isso que neste jogo, quase todos escolhiam perder.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
ruído
Há determinados aglomerados que me assustam pela sua potência. Um conjunto de mulheres desgovernadas é um deles, e acabo de olhar para um significativo. O perigo centra-se na contenção aparente a que se sujeitam grande parte do ano, por entre filhos, empregos, compras e limpezas ao fim de semana, com pouquíssimo tempo para atrevimentos do ego. O pobre abandonado não morre, insufla despercebido. Sugere-se tímido e sonegado, esconde-se em nome da ordem, obedece ao comando e encolhe até à mais elevada anorexia do eu, uma lástima que só visto. É uma dor de alma, encontro-os todos os dias por onde passo. No supermercado, no talho, na pastelaria, nos passeios da estrada, nos gabinetes dos consultórios. Assim, individuais, não me metem medo. Discretos, mesmo que venham emparelhados, aguentam-se sem agressões de maior que me causem aflição. Só me assustam, confesso, quando o número começa a ser suficiente para a imagem se afigurar aterradora, ou seja, poucas vezes no ano, normalmente quando algum acontecimento importante marca a cidade. Nesses dias, é vê-las nascer. É apreciar as pernas longas, os saltos agulha, as ancas redondas e os cabelos ao vento. É descobrir que lá em casa existe um bâton encarnado, que a voz apareceu, que os passos ainda correm elegantes e erguidos, que os peitos ainda se riem para o céu. É espreitar, olhos nos olhos, que o comedimento é uma regra de oiro para quem não aprecia emergir em debandada, e que o melhor remédio é soltar a franga mais vezes por ano, quando o corpo quer e a vontade surge. Agitações contidas aparecem sempre em formato explosivo e francamente barulhento. Um tremenda violência para quem degusta a noite, no recato de uma varanda batida pelo vento.
Sol de Fevereiro
Experimentar um amor antigo é como sorver um café requentado. Sabe a café, mas perdeu toda a intensidade e aroma.
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Sol
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Longe da vista, longe do coração
Acho que este provérbio se encaixa na perfeição no meu tónus relacional. Sei-o frio e pouco romântico, mas não deixa de ser uma forma de guarda eficaz e, acima de tudo, pragmática. Mas não tens saudades? Tenho, mas não devo nem posso viver delas. Posso, sim, viver com elas. Nós, portugueses, temos a mania que a palavra saudade só existe na nossa língua. É capaz, só conheço três ou quatro mas, como escreveu Schopenhauer, as línguas não são só palavras que se traduzem umas das outras. Mais do que palavras, são constituídas por conceitos intrínsecos, por consciências muito próprias dos povos e das suas pertenças, e estes não são traduzíveis numa só palavra para outra língua, nem sequer numa frase ou num livro. No caso, falava do alemão, mas principalmente do latim e do grego antigo, línguas mortas. Lá está, longe da vista.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Glamour
Onde quer que surgisse era um semáforo encarnado nas ruas, um criogénico nos bares apinhados, um holofote nos restaurantes mais reservados. O acompanhante imberbe sentia-se constrangido; o experimentado, aturdido. Sabia-se cobiçada pelos homens e invejada pelas mulheres, coisa rala a que pouco se acometia, sabia-se diferente e isso chegava. Não era simplesmente bela, era luz branca que rasgava clareiras, cintilante sem lantejoulas, presença de alma que desintumescia egos inflados de plumas. Fazia dos companheiros uns burlescos pavões com caudas depenadas do lado de fora da porta. Era ridículo, queria outra coisa. Estava farta de intelectuais com piercings na penca, homens de negócios suados com cartões dourados nas pontas da carteira, colegas de profissão com contactos na Lux. Queria a normalidade que lhe tocasse mais fundo, o desassombro dos sonhadores livres, o tu cá eu aí. Pobres homens que se inebriam pela aparência, pela fama e pelo Poder, que não percebem nada de mulheres. Ela queria pouco. Um olhar cúmplice, uma gargalhada inteligente e uma mão bondosa e quente em cima da sua. Sensibilidade e emoção, lágrimas frágeis e alimento maduro. Uma mulher como ela precisava de robe e de pantufas, de uma face encostada e de um silêncio monossilábico. Precisava de viver ao toque da presença de quem lhe exibia a efemeridade da vida.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
viagem
Vejo na televisão uma série sem limite, daquelas onde um vestido de folhos cabe numa mala de mão, os sapatos altos não fazem doer nos pés, e a Torre Eiffel vive-se de muito perto, ao virar de uma esquina. Penso automaticamente no que seria de mim se não a tivesse conhecido, e concluo que há coisas que não poderíamos não conhecer. A série é de amor, não vá a vida afrouxar e o cansaço tolher os passos de quem corre sem direcção. Por causa disso tudo funciona, menos uma ou duas coisas que parecem um pormenor insignificante, e que bem vistas as coisas até são. Descem o Sena num barco que ruma sem destino numas mãos infindáveis que nunca se soltam. Sorriem perto da Catedral que abençoa com uns bichos medonhos, quem por lá passa. As pontes são corridas por um conjunto de pessoas que não se olham nem se escutam, apenas se cruzam, enquanto os dois passeiam de olhos postos numa mesma direcção (quem disse que amar é olhar um para o outro, pode bem estar enganado). É noite escura. A lua morreu no dia em que chegaram, caprichosa como só ela pode ser. O sol apareceu sempre cedo, por uma fresta aberta da madrugada, ainda o bulício da cidade se encontrava adormecido. Partiram sempre como se o dia fosse o primeiro, mesmo quando foi o último. Encontraram-se na porta de um hotel para a despedida, mas nunca se soltaram. Espreitaram para dentro e seguiram, como se nada os pudesse terminar. O táxi esperava-os. Entraram e deixaram-no seguir, percorreram a cidade encostados um no outro, sussurraram muitas coisas nos ouvidos. Nunca mais chegava o local escolhido, nem sequer se lembravam de qual era. O caminho, o caminho é o lugar onde tudo pode acontecer (quem não o valoriza, pode bem estar enganado), e o destino é coisa digna de ser uma impossibilidade. Os poetas, os amantes e as mulheres, sabem bem disso. Os criadores de séries também.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Solidão (ii)
Não há mal que me toque mais do que uma pessoa solitária sem opção. Sou espelho de uma delas e abomino a autocomiseração.
Solidão (i)
Uma alma solitária angaria muita curiosidade alheia. Desde o psicanalista que a estuda e não chega a conclusão alguma até à garotinha que a quer mudar e se altera com coisa nenhuma.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
soluções eficientes
É claro que me incomoda pagar 10 cêntimos por cada saco de plástico. É claro que o meu tempo para pensar no ambiente é diminuto quando tenho mil quatrocentas e noventa e oito questões práticas e pessoais sobre as quais pensar ao longo do dia, antes que a noite chegue e o corpo me ceda ao cansaço. É certo que o governo sairá um grande ganhador disto tudo e poderá aproveitar a medida ambiental sob um prisma lucrativo, não há nada melhor do que boas parcerias. Mas no final de contas, voltas dadas e análises feitas, o busílis que me prende está na atitude do cidadão, minha incluída: a bem da verdade, ou há algum critério de ordem superior que se insurge (euros, neste caso), para que eu passe a guardar os sacos religiosamente num local apropriado ao efeito, ou, de uma outra forma, e se o estado não se tivesse lembrado de os taxar de forma prendada, eu continuaria livre, ligeira e inconsequente, a guardá-los em rolos desordenados para tarefas um pouco menos ambientalistas, como a recolha de dejectos sólidos da minha gata.
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