Se é verdade que há uma diferença abissal entre uma palavra escrita e a mesma falada, esta diferença submete-se ao expoente mais elevado quando cantada. Uma palavra cantada ganha formas de corpo – é corpo – que nos toca de uma feição totalmente distinta à da inscrita num papel branco. Nem todos os estilos literários são cantáveis. A Poesia, talvez pela métrica, cadência, ritmo, é o que mais se adequa e melhor se transforma em música. Já na Grécia Antiga, grandes obras (a Ilíada, por exemplo) eram declamadas ou representadas acompanhadas por instrumentos musicais. Entre eles, a lira (além da flauta) ganhou grande popularidade, emprestando à própria literatura uma nova forma: a poesia lírica. Sobre este tema, a palavra cantada, convido-vos a lerem comigo o seguinte poema de Chico Buarque:
Folhetim
Se acaso me quiseres,
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim.
Por uma coisa à toa,
Uma noitada boa,
Um cinema, um botequim.
E, se tiveres renda,
Aceito uma prenda,
Qualquer coisa assim.
Como uma pedra falsa,
Um sonho de valsa,
Ou um corte de cetim.
E eu te farei as vontades,
Direi meias verdades,
Sempre à meia-luz.
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis.
Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte,
Te afasta de mim.
Pois já não vales nada,
És página virada
Descartada do meu folhetim.
Sem grandes equívocos, ele descreve uma mulher algo interesseira que por uma tuta-e-meia faz o que lhe pedirem por uma única noite (folhetim). Não é muito exigente, mas se ele tiver dinheiro, quer um presente (uma pedra falsa, um sonho, um vestido), qualquer coisa que a satisfaça. Sem grandes aparatos, induz-nos à presença de uma "mulher de vida fácil", mas de poucos luxos.
Convido-vos a ouvirem as mesmas palavras agora musicadas. Ficam com a mesma opinião? Eu não.
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| (F. Ferreira - Modelo profissional) |







