Cá na terra não se fala de outra coisa. Aurora perdeu o braço num acidente de trabalho, a seguradora limpa-se de responsabilidades, não foram cumpridas as normas de segurança. -Lamentável! gritam todos em alta voz. Também acho lamentável, mas vejo um outro lado da questão, certamente porque nunca irei ficar habituada à injustiça insistente da existência terrestre. Que as seguradoras se agarram ao limite da questão a fim de fugirem à responsabilidade, já todos sabemos. Que as entidade patronais muitas vezes não fornecem os equipamentos de segurança adequados também, estarão algures, ninguém sabe onde, se é que estão. Que o trabalhador facilita, também não é novidade nenhuma. É muito mais fácil estar em incumprimento, as botas de biqueira de aço incomodam, os óculos de protecção são um apêndice irritante, desligar máquinas enquanto se procede à limpeza do aparelho atrasa o trabalho e a vida, e o tempo não é complacente com a perfeição. Nada disto é novo, certamente é tudo incontornável, eventualmente são causas impossíveis de atender e resolver, não pela questão, mas pela máquina da sociedade. O problema, para mim, é que existem erros que ninguém deveria pagar, e por conseguinte o que lamento não é a seguradora que não paga, o patrão que não forneceu ou a trabalhadora que não cumpriu. O que eu lamento é o destino de Aurora, sozinha com três filhos e sem braço direito que lhe valha, em sentido literal e figurado. Ninguém deveria pagar por isto, e todos os focos, dela, das pessoas, dos próximos e dos distantes, estão a fugir do essencial. Talvez porque os mecanismos de projecção externa sejam uma estratégia de defesa quase perfeita, quando não existem outras soluções.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Pais incógnitos
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| Postal retirado daqui |
Na década de quarenta do século passado, Viana do Castelo era uma cidade virada para o Atlântico. De lá saíam os mais importantes bacalhoeiros do país rumo ao Mar desejado da Terra Nova. Por incrível que pareça, a indústria da pesca, tal como os famosos estaleiros navais contruídos em 1944, constituía um dos maiores pilares da economia de toda aquela região do Alto Minho. A cidade formigava com o pequeno comércio, com as feiras e praças de rua, os caixeiros-viajantes, os apitos ensurdecedores dos amoladores de facas e, nas alturas festivas, com os circos ambulantes. Pelas ruas empedradas cruzavam-se pequenas carroças de burros com discretas charretes e, de vez em quando, lá surgia um robusto automóvel seguido pelas correrias e gritarias alegres da criançada.
Neste cenário de esperança pós Grande Guerra, seguia pelas ruelas um casal de irmãos sempre de mãos dadas, muito apertadas, de andar curvado mas ágil aos saltinhos. Consta que ele chamava-se Nicolau e ela Adelaide, consta, ainda, que ficaram órfãos de mãe, pois o pai sempre foi incógnito. Eram abordados por muita gente enquanto passavam, uns brincavam com eles, outros troçavam, outros faziam-lhes perguntas para os ouvirem falar, outros, ainda, desviavam a cara curiosa.
Fisionomicamente eram diferentes, assemelhavam-se a antropóides, sim, pareciam símios; os braços mais longos do que as pernas, a pele toda coberta de pelos pretos, as testas recuadas e os narizes achatados não desmentiam: pareciam macacos. Sofriam de uma deficiência nunca cientificamente explicada para além de lendas e boatos, muitos mexericos e contos. O mais conhecido remonta a uma mulher da vida, de vida miserável, que depois de saber-se grávida terá exclamado não querer ter filhos e se acaso os tivesse, então que fossem macacos.
Lalau e Laidinha (foi por estes nomes que ficaram conhecidos) nunca se separavam e quanto mais espicaçados pela turba gingona, mais o irmão se insurgia violento. Eram para os locais uma parelha de aberração circense andante e antes que algum empresário do ramo lhes visse fonte de muitos reis, foram acolhidos pela Congregação da Nossa Senhora da Caridade. Em boa verdade, na época, tudo o que era diferente deveria ser escondido, era uma vergonha impedida de ver o sol do dia. Era uma prática comum em terras do Alto Minho.
Claro que hoje seria abertura de noticiários, fonte de dissecação cientifica ou, não me espantaria nada, a maior macacada na cabeça dos realizadores e no topo das audiências da casa dos segredos.
Lembro-me deste caso desde os meus tempos de infância em que a minha querida Odete, filha da criada da minha avó, que veio com os nubentes, meus pais, para Lisboa, me contava para eu comer quando estava mais enfastiado. Revivi, anos mais tarde, a história dos manos num artigo de fundo numa edição do jornal "A Aurora do Lima". E, ontem, em conversa com o director deste jornal, com cento e sessenta anos de existência, amigo da minha mãe, Bernardo Barbosa, pessoa mui estimada e amável, solicitei o citado artigo do arquivo que lera há mais de vinte e cinco anos. Infelizmente, aquela edição não está digitalizada mas, mal tenha disponibilidade, irei pessoalmente a Viana tentar encontrá-la. Por enquanto, ficou a promessa de uma fotografia e outros detalhes.
Deficientes ou não, foram duas vidas humanas que nasceram, viveram, sentiram, sofreram e morreram.
De resto muito pouco se sabe (se fizerem uma busca por um qualquer motor de pesquisa, não encontrarão nada), é um segredo que Viana não se orgulha nem alimenta, um caso esquecido, como tantos outros, com pais incógnitos.
terça-feira, 17 de março de 2015
A Palavra Cantada (Ler este post apenas se puder ouvir a música)
Se é verdade que há uma diferença abissal entre uma palavra escrita e a mesma falada, esta diferença submete-se ao expoente mais elevado quando cantada. Uma palavra cantada ganha formas de corpo – é corpo – que nos toca de uma feição totalmente distinta à da inscrita num papel branco. Nem todos os estilos literários são cantáveis. A Poesia, talvez pela métrica, cadência, ritmo, é o que mais se adequa e melhor se transforma em música. Já na Grécia Antiga, grandes obras (a Ilíada, por exemplo) eram declamadas ou representadas acompanhadas por instrumentos musicais. Entre eles, a lira (além da flauta) ganhou grande popularidade, emprestando à própria literatura uma nova forma: a poesia lírica. Sobre este tema, a palavra cantada, convido-vos a lerem comigo o seguinte poema de Chico Buarque:
Folhetim
Se acaso me quiseres,
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim.
Por uma coisa à toa,
Uma noitada boa,
Um cinema, um botequim.
E, se tiveres renda,
Aceito uma prenda,
Qualquer coisa assim.
Como uma pedra falsa,
Um sonho de valsa,
Ou um corte de cetim.
E eu te farei as vontades,
Direi meias verdades,
Sempre à meia-luz.
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis.
Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte,
Te afasta de mim.
Pois já não vales nada,
És página virada
Descartada do meu folhetim.
Sem grandes equívocos, ele descreve uma mulher algo interesseira que por uma tuta-e-meia faz o que lhe pedirem por uma única noite (folhetim). Não é muito exigente, mas se ele tiver dinheiro, quer um presente (uma pedra falsa, um sonho, um vestido), qualquer coisa que a satisfaça. Sem grandes aparatos, induz-nos à presença de uma "mulher de vida fácil", mas de poucos luxos.
Convido-vos a ouvirem as mesmas palavras agora musicadas. Ficam com a mesma opinião? Eu não.
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| (F. Ferreira - Modelo profissional) |
domingo, 15 de março de 2015
mentol
Terminei já tarde. Por entre os corredores do hospital encontro o costume, o sofrimento não tem muitas caras. Aparece estampado nos rostos como quem marcou com um ferro em brasa a tranca de um animal, salta do corpo em forma de lágrimas, gritos, gestos, actos de desembaraço, uma panóplia de astúcias que utilizamos como forma de adquirir o equilibro perdido. Lembrei-me dela, fazia anos neste dia. No dia em que perdeu a malinha que a seguia para todo o lado, neste mesmo local, com os óculos, a carteira, o pó de arroz, o pacote dos lenços de papel, a fotografia da Nossa Senhora. Saí para a rua e estava vento. Acendo um cigarro que pedi à colega que tinha deixado de fumar e fomos as duas em silêncio, em consideração, em sintonia. Passamos o portão e seguimos percursos inversos sem grandes despedidas, ela precisava de desfrutar o prazer de aspirar o fumo do pecado passados vinte dias de abstinência, e se há coisa que eu respeito é o gozo sentido, depois de cerrado por tempos demasiados. Desci a calçada devagar. Hesitei entre entrar no carro ou percorrer parte da cidade a pé, escutar as vozes do céu ou arrumar as da terra, e decidi integrar tudo com a mestria própria de quem nunca saberá muita coisa. Não saí para longe. Nunca tive dúvidas de que para ouvirmos o mundo precisamos de percorrê-lo, mas para integrá-lo é preciso senti-lo, e para isso não há melhor do que o conforto de um beijo. Felizmente chegaste logo depois e desconfiaste da minha boca doce. Foi um rebuçado, disse-te eu, com uma manha tipicamente feminina. Não foi, não foi nada disso, o cigarro era de mentol. O teu colo, como sempre, soube-me pela vida.
quinta-feira, 12 de março de 2015
Das Leituras
Estou a ler "Parerga und Paralipomena - Kleine philosophische Schriften" de Arthur Schopenhauer, com tradução para Inglês de E. F. J. Payne. Mais de mil e quinhentas páginas divididas em dois volumes. Assustados? Não estejam, vale a pena. São cerca de trinta ensaios sobre os mais variados temas. Da escrita à leitura, da religião ao suicídio, da teoria das cores à política. Depois de "O mundo como vontade e representação", esta é sem dúvida a obra onde ele melhor expressa o seu pensamento filosófico. No segundo volume, no ensaio "Sobre a leitura e os livros" (Über Lesen und Bücher), Schopenhauer é implacável com aqueles que denomina por leitores compulsivos. De cor e salteado, com tradução minha, escreveu: ler, sem pensar no que se leu, não vale de nada; da mesma forma que o que alimenta o corpo não é o que se come, mas o que se ingere, e nem tudo o que ingerimos é aproveitável, ler sem pensar é reproduzir o que outros pensaram, é ocupar ausente uma arena de pensamentos alheios. Sobre estas palavras podia referir certos ratos de biblioteca que sobre tudo e sobre nada aperaltam as suas rasas ideias com citações e outras referências que mais não são do que um exercício de exibição de basta sabedoria – alheia, lá está – para a plateia. Tudo com a devida gravidade e aplomb. Podia, mas não desenvolvo, todos conhecemos alguns espécimes com denodados fetiches exibicionistas. O que realmente me ocorre é o actual estado da nossa indústria livreira mai-lo poderoso marketing (muitas vezes, estrangeiro) que encaminha leitores ávidos mas passivos para "obras" medíocres, para não dizer lamentáveis; só porque sim, porque estão na moda, 'é bem' falar delas e vendem como pão quente. Gosto de ler um bom livro, sou até capaz de voltar a ele mais do que uma vez, mas o tempo é fraccionável, não é multiplicável, e entre uma boa leitura e uma boa conversa, uma boa viagem, uma boa sessão de fotografia, bem podem os livros esperar apinhados.
terça-feira, 10 de março de 2015
Sol de Março
Não se julgue que quem decide pôr termo a uma relação não sofre. Sofre tanto ou mais do que o outro. Sobre ele pendem as farpas da culpa, enquanto que sobre o outro, o consolo da vitimização.
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Sol
segunda-feira, 9 de março de 2015
E se
Se tudo o que eu sinto fosse uma imagem, seria um mar de algodão-doce onde te escondias e donde surgias aqui e ali sempre corrupiando, como uma bailarina de patins muito brancos que gira, gira e gira e só pára quando me aproximo para a segurar. Se tudo o que sinto fosse um vasto horizonte, serias o fio laranja de cobre que delineia o último vestígio vivo entre o Céu e a Terra depois do sol morrer e ao qual me uniria por todos os breus. Mas se tudo o que sentes fosse uma praia, bastaria que eu fosse um único grão de areia de um castelo já levado pelo mar.
domingo, 8 de março de 2015
(s)implicidade, de mulher
Acho que se fosse homem nos acharia mágicas. Como não sou, como nos farejo as fragilidades à distância de um pensamento, nos miro as vontades a cada piscar de olhos, nos encontro as virtudes em cada palavra e as desvirtudes em cada gesto, acho-nos simplesmente merecedoras de um lugar diferente. E diferente porque somos diferentes, não há feminista obstinada que me convença do contrário. Tirando isso, somos uma parte do processo do universo. O lado de dentro da procriação, a delicadeza da maternidade, a suave dureza do cuidado, a certeza da dedicação. Há as que são muito ambiciosas e querem ir demasiado longe. Pela minha parte prefiro louvar as que ficam pelo caminho de encontrarem a paz, na sua verdadeira essência.
quinta-feira, 5 de março de 2015
vida
A escuta séria da experiência alheia pesa até fazer doer o ego. Com ela percebemos que a vida pode ser mais amarga do que o fel que a minha avó cortava cesso das entranhas dos coelhos, que a nossa mente é mais complexa do que um labirinto sem fim e que a simplicidade, aquela que é precisa para que existam momentos felizes, fica ferida de morte quando crescemos além dos vinte. Depois disso é esperar pela velhice a ver se ela volta consistente. Até lá é julgarmos que a encontramos, vê-la raramente e rezarmos muito para realmente lá chegarmos. Quando por fim acontece, não temos tempo útil para a recebermos.
quarta-feira, 4 de março de 2015
Parafernália
Hoje o seu amor não veio com olhos, boca e curvas que o atentassem. Não o acordou com sussurros de mel e abanões crocantes. Não lambeu o lóbulo esquerdo da orelha nem o apalpou no rabo enquanto fazia a barba. Não lhe deixou a agenda do dia na credência do hall de entrada encostada à esfinge de Rá ao lado do olho de Hórus. Hoje o seu amor ficou-lhe engasgado na garganta quando abriu a janela e sentiu os raios tépidos de sol a ameigarem-lhe a barbela, quando viu cor de laranja raiada ao fechar as pálpebras e pressentiu a brisa lenta do lado de fora. Podia ficar assim pendente por uma eternidade, a vertigem dum parapeito faz toda a diferença, afoita-lhe a avidez por um pequeno suicídio ou reinventa-lhe a passarola de Bartolomeu de Gusmão. Depois, na varanda ao lado, há todo um mundo de possibilidades entre um passo à frente e um outro atrás. Tal como o amor entalado na garganta. Se o regurgitar, morre ou voa dependendo do estado enxuto; se o engolir, mantêm-se diligente, acorda, abocanha, deixa a agenda e apalpa a parafernália do pobre padre voador.
domingo, 1 de março de 2015
jogo de azar
A vizinha de baixo morreu ontem. Hoje o vizinho chorava inconsolável no vão da escada, num desespero que aos oitenta mora perto da solidão. Estendi-lhe uma mão e toquei-lhe o braço, ao mesmo tempo que lhe dei a minha disponibilidade para o escutar e ajudar, coisa quase nenhuma, sei disso. Agradeceu-me e seguiu para a garagem, bambo na nova realidade que não consegue conceber. Teme nunca mais conseguir entrar no carro, pragueja contra Deus que deveria tê-lo levado no exacto momento em que soube da notícias, desdenha os restantes dias que lhe faltam como se fossem uma pena que terá de cumprir, perante um futuro que já não quer. A vida não foi feita para ser branda, e a morte tardia é também ela uma morte estranha. Vem na hora que dizem ser certa, entra pela porta da frente, sai airosa e prossegue para outra casa, o que não morre tem de aceitar: é a lei desta estranha vida. Mas a lei do mundo de quem cá fica, sozinho, no fim do caminho, passados cinquenta e sete anos de vida comum, é sempre uma maldição. A morte raramente acerta para quem cá fica de um enorme percurso a dois. E é por isso que neste jogo, quase todos escolhiam perder.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
ruído
Há determinados aglomerados que me assustam pela sua potência. Um conjunto de mulheres desgovernadas é um deles, e acabo de olhar para um significativo. O perigo centra-se na contenção aparente a que se sujeitam grande parte do ano, por entre filhos, empregos, compras e limpezas ao fim de semana, com pouquíssimo tempo para atrevimentos do ego. O pobre abandonado não morre, insufla despercebido. Sugere-se tímido e sonegado, esconde-se em nome da ordem, obedece ao comando e encolhe até à mais elevada anorexia do eu, uma lástima que só visto. É uma dor de alma, encontro-os todos os dias por onde passo. No supermercado, no talho, na pastelaria, nos passeios da estrada, nos gabinetes dos consultórios. Assim, individuais, não me metem medo. Discretos, mesmo que venham emparelhados, aguentam-se sem agressões de maior que me causem aflição. Só me assustam, confesso, quando o número começa a ser suficiente para a imagem se afigurar aterradora, ou seja, poucas vezes no ano, normalmente quando algum acontecimento importante marca a cidade. Nesses dias, é vê-las nascer. É apreciar as pernas longas, os saltos agulha, as ancas redondas e os cabelos ao vento. É descobrir que lá em casa existe um bâton encarnado, que a voz apareceu, que os passos ainda correm elegantes e erguidos, que os peitos ainda se riem para o céu. É espreitar, olhos nos olhos, que o comedimento é uma regra de oiro para quem não aprecia emergir em debandada, e que o melhor remédio é soltar a franga mais vezes por ano, quando o corpo quer e a vontade surge. Agitações contidas aparecem sempre em formato explosivo e francamente barulhento. Um tremenda violência para quem degusta a noite, no recato de uma varanda batida pelo vento.
Sol de Fevereiro
Experimentar um amor antigo é como sorver um café requentado. Sabe a café, mas perdeu toda a intensidade e aroma.
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