© Paulo Abreu e Lima

terça-feira, 7 de abril de 2015

a vida, como ela é

Cada vez percebo melhor a extraordinária venda dos romances negros e desafortunados. Estou farta, completamente enfastiada de histórias coloridas, de finais felizes, de contos de fadas e de amor aos molhos a saltar por todos os poros da pele. Já não aguento a perfeição excessiva das toilettes das festas, dos penteados armados e arrumados, das férias deliciosas e das refeições apetitosas. Não há dia em que não encontre nos mais fantásticos lugares o esparguete al dente, o passeio au point, a sobremesa délicieux, a família perfetta, a sintonia mais do que plena entre todas as constelações do universo que se uniram em debandada, tudo a convergir no local exacto onde algumas, poucas pessoas, devem viver rodeadas da sorte. Não tenho nada contra momentos felizes. Sou uma acérrima defensora da felicidade. Pratico diariamente as estratégias apregoadas pelas teorias da educação para o optimismo, e acredito, profunda e piamente, nas energias positivas e na boa onda. Mas por vezes, com relativa frequência, preciso de cheirar realidade. Preciso de encontrar pessoas que espirram, choram e cospem, e mulheres desmaquilhadas, com pêlos nas pernas e calosidades nos pés. Preciso de olhar com os meus olhos para gente que se assoa, que tem preso num dente um enorme pedaço de alface, gente que cai e se levanta, com o joelho esfolado e o nariz arranhado. Preciso de sentir a rudeza da dor, a crueldade da vida, a fome da doença e o devaneio da loucura. Preciso de olhar para pessoas com vísceras e com sistema circulatório, respiratório, endócrino, urinário e digestivo. Preciso de ver velhos que perdem dentes ao sorrir e miúdas que se afligem com a vinda da mocidade. Não aprecio, cada vez aprecio menos a perfeição do linho onde não cai uma nódoa, como se a vida, a verdadeira vida, a vida real, fosse limpa e cândida como uma fotografia seppia. Como se nascêssemos, vivêssemos e acabássemos, sem a sujidade do sexo, o sangue do parto ou o cheiro da morte.

No fundo, mesmo que em doses moderadas, todos precisamos dela. E nas histórias, dói sempre um bocadinho menos. 

Seres peregrinos

 
Por estas terras permaneço tranquilo, compenetrado, como a cegonha lenta no alto do choupo morto a tecer o ninho, oiço os líquenes a verter pelas pedras e a poeira assente pelos reguengos. Acordo às quatro da madrugada quase todos os dias, arranjo-me, sorvo uma malga de café indiano e saio porta fora pela estrada. Persigo o Sol que ainda não acordou, os pássaros que ainda repousam em manchas escuras nas azinheiras e as salamandras húmidas e solitárias que voltam às luras dos pequenos carreiros. Por vezes a calma é um bem escasso, muito valioso numa cabeça amotinada, varrida por demónios que me escaldam as veias. E, contudo, por onde quer que vá, do lado oposto ao Sol, sei-os comigo esfregando as mãozinhas cadavéricas danados por uma cólera, por uma espera desavisada ou uma retumbante contenda. Às corjas não se diz não, não se fitam os olhos; não lhes encostamos a ponta do florete alardeados em espadachins. Porriginosas, aperaltam-se pelo valor facial, lustram os seus galhardetes e, lestas, confundem e cegam. Aos nossos demónios devemos dizer sempre sim, que os compreendemos, que são robustos e grandiloquentes. É desígnio de pouca dura, aos primeiros raios solares mingam, encarquilham-se de vergonha e surtem em pó. E por vezes não voltam.

sábado, 4 de abril de 2015

inventários

Descubro sempre factos sobre o realizador de um filme quando lhe escrutino a história do inicio até ao fim, tal e qual como sei sempre coisas da vida um escritor de um livro, quando o leio. Engane-se quem julga que quem sabe muito da humanidade se aninha em bibliotecas como ratinho dias e dias a fio, estuda compêndios inteiros e decora enciclopédias, trauteia teorias e declama versos, epopeias, contos e obras inteiras. Quem sabe muito da humanidade, vê-se a léguas de distância, já a viveu. Percebe-se pela forma como fala, pela propriedade com que narra os episódios, pelo desconforto com que que disseca o cérebro de uma senhora, pelo à vontade com que veste a pele de um playboy. Lê-se na intensidade das frases com que define o amor, na raiva com que renega a humanidade, na fome com que escrevinha a vontade, na calma com relata uma noite de sono, ininterrupta, de dormir a acordar. Gosto muito quando por uma coincidência encontro num filme uma leitura quase perfeita do que uma mulher pode ser, aos olhos de um homem comum. Significa que o homem soube ler sem medo o que encontrou, não foi além do que viu, escutou horas a fio e não fugiu com medo. Um bárbaro, sem dúvida. Um Senhor, por outro lado. Um perfeito crente, nestas coisas da sapiência encontrada directamente na fonte, sem interlúdios menores de apropriação inventariada. 

(Não abusem, não desincentivo a leitura. Só aprecio, e muito, quem consegue ver para além dela.)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A fisionomia da peta

 
Sem juízos de valor, quem se socorre da mentira, da mentirazinha caridosa ou da grande mentira, vê em cada uma delas uma fuga célere ou uma promessa de resolução. Infelizmente mente-se muito pouco por graça e se o fizermos deixa de ser mentira e passa a ironia. Uma subtileza que faz de mim um delinquente sarcástico, e uma pena tão leve quanto as maiores patranhas com que entremeio frases mais sérias sob o mesmo tom.
 
Brincadeiras à parte, o indivíduo que mente escolhe deliberadamente um escape, uma fuga célere. Ao mendigo que lhe pede esmola – não tenho trocos, só Visa –, ao conhecido que lhe pede um favor – não posso, estou no Vanuatu –, ao amigo que lhe pede dinheiro – vê lá tu que tenho todas as minhas poupanças no Banco Mau. Uma fuga que não compromete nem dá azo a grandes questiúnculas de consciência, pensa o autor. Apenas remete à sua total incapacidade de saber dizer não, não quero, não me apetece.
 
Já resolver problemas recorrendo à inverdade é muito mais ardiloso, requer uma teia articulada e encadeada de pequenas mentiras muito próximas dos factos e das circunstâncias, impregnando-as da consistência das meias-verdades. Requisita associações, quanto mais livres melhores, e colagens à realidade por forma a alcançar uma credibilidade à prova de flagrante intrujice. Há quem o faça amiúde, bem mais do que uma forma de vida, acabando mesmo num estado alternativo de consciência. Como um narcótico ora administrado esporadicamente, ora continuadamente, depende, mas sem marcha atrás. E, volto a repetir, sem juízos de valor.

terça-feira, 31 de março de 2015

o pretexto

Desabafa-me que tem um marido ligeiramente intempestivo. Não trabalha, passa muito tempo desocupado, e por isso tem todas as horas do dia para a esperar na porta do trabalho, para se encostar na taberna e beber muito, para se esquecer dos filhos na escola e para desaparecer noites inteiras, com os amigos e algumas amigas. Não se importa com esta última. A única coisa que precisa é do sossego da noite, do silêncio dos móveis, da cama vazia. Houve um tempo em que sonhava com a mudança dele. Imaginava que com a idade talvez o génio acalmasse, talvez a desconfiança serenasse, podia ser que os quilos a mais e as rugas de expressão o deixassem sossegado quanto aos homens que toda a vida a olharam de soslaio, de frente, discreta ou directamente. Sonhava ainda em tê-lo só para ela, em encontrar-se com ele todas as noites na cama, em contarem as mesmas horas, os mesmos segundos, em escutarem os mesmos ruídos, em ficarem em silêncio, à espera que o corpo sossegasse do encontro. Hoje, descobriu, já não quer nada disso, hoje o que precisa é da continuidade da solidão. Não me consegue explicar bem o porquê, mas sabe de fonte segura que já não precisa de amor, e portanto diz-me, olhos nos olhos, que a única coisa que queria era que ele arranjasse um trabalho. Não por ela, habituada que está aos olhos da vigilância, mas pelos filhos. Não suporta a ideia deles serem esquecidos por um pai distraído, é muito mais fácil explicar a teoria de um pai ocupado. Percebo-a, percebo-a na perfeição. A ocupação atenua todas as culpas, todas as distracções, todos os esquecimentos e todos os desvios. Precisamos dela, em nós e nos outros, para que o mundo gire na perfeição do pretexto. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

quem sabe e queira viver

O mundo parou incrédulo a olhar para quem, com um golpe de egoísmo inacreditável, arrasta cento e quarenta e nove vidas com ele. Os actos insanos atingem nos dias de hoje uma dimensão catastrófica, e a sanidade mental nunca esteve tão em causa. O que leva alguém a assassinar deliberadamente tanta gente, não sabemos. Desde um acto terrorista a um acto de triunfo próprio, tudo pode ser, e nada faz sentido. O que assusta é a impotência em controlar a mente humana. O que é necessário é encará-la, cada vez mais, como facilmente adultera, rapidamente modificável, naturalmente circunscrita a estados de alma danosos. Soluções não sei se encontro, mas fingir que nada se passa também me parece arriscado. Quem tem a seu cargo centenas de vidas de uma só vez, precisa de ser atendido e acompanhado. Quem se entrega às mãos de um piloto precisa que do lado de quem sabe esteja quem sabe e queira viver, não quem sabe e queira morrer. 

terça-feira, 24 de março de 2015

quem não passa, não sabe

Quem não passa por elas, não sabe a realidade que escondem as estradas internas do País. Quem faz Lisboa ao Porto numa auto-estrada ou num Intercidades, não conhece o que são ramos de flores colocados diariamente num local criterioso da berma de uma estrada, com rosas frescas e muito coloridas. Quem atravessa o País por vias rápidas não encontra as pequenas capelas erguidas, em locais onde alguém um dia perdeu a vida. Também não vê os restaurantes onde se apregoam bifanas, sopas, sandes e pão com chouriço, nem se depara com sofás, cadeiras e outras mais discretas sinaléticas, que denunciam que naquela estrada de terra há uma mulher que espera quem dela precisar. Quem não atravessa o País devagar, com olhos de ver, não percebe que a cada curva da estrada convergem um conjunto de grandezas que nos definem na nossa natureza mais animalesca, sofredora, perdedora, ganhadora e ávida. Quem não atravessa o País de uma ponta à outra talvez esqueça que a perfeição da evolução é totalmente inversa, ao que somos na realidade.

domingo, 22 de março de 2015

vazio

Li um artigo sobre meditação séria e fiquei encantada. Um semana inteira em silêncio, a focar o corpo e a libertar a mente, sentir cada cabelo, cada naco de pele, cada dedo e cada órgão, deve sem dúvida ser avassalador. Lembrei-me de um retiro efectuado numa igreja de Óbidos, no meio da adolescência, rodeada de gente igual a mim. O cozinheiro de vocação conseguiu cozinhar esparguete com atum sem proferir uma palavra, a arrumadora de espaços conseguiu alinhar sacos camas, aquecedores, mantas e cadernos, sem vociferar o que quer que fosse, o padre, sempre atento, rezou para dentro durante toda a estadia, dois dias e uma noite, em que só no segundo era possível partilhar a experiência da purga pelo silêncio. Eu, responsável pela escolha dos temas de pensamento, escrevia-os um por um no quadro de giz. Lembro-me de colocar a fome, o corpo, a guerra, os velhos, e já mais para o fim este mesmo, o silêncio. Sobre todos os outros não emergiu nenhuma verdade improvável. Em nenhum deles surgiu um rasgo de inteligência suprema, uma ideia inédita, um caminho mais fácil para atingir a plenitude do que quer que fosse. Quanto ao silêncio ninguém quis pegar-lhe e fui eu que o agarrei já no final da jornada, também sem ideias brilhantes. Dissequei-o hora por hora, minuto por minuto, segundo por segundo, e fui percebendo, abrangendo e integrando, que o dito alberga um papel preponderante da nossa existência, mas de maneira nenhuma o tinha encontrado. O silêncio, o vazio da voz e do eco, é um lugar longínquo da minha existência, até porque é com palavras que concebo o pensamento. Para um silêncio completo é preciso um não pensar e uma extrema dedicação ao sentir. A hipótese de tentar conseguir este lugar durante uma semana inteira, sem proferir palavras externas e internas, deixa-me curiosa e ao mesmo tempo assustada. Sem o crivo do saber resta-me pouco mais do que o corpo, incursão para a qual não sei se estarei preparada. Posso bem morrer de susto antes de encontrar o que procuro. 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Mitos urbanos (III)

Imagem retirada algures da net

Hoje, dia de eclipse solar total dentro do Círculo Polar Ártico (paralelo da latitude 66º33'44''N) e parcial em Portugal, uma jornalista da TSF perguntava ao seu correspondente, pousado no norte da Noruega, se o Sol já estava completamente tapado pela Lua e, desta forma, voltava a ser noite. O colega, a tiritar de frio (estavam 24º negativos), disse que ainda não, que o Sol ainda não tinha desaparecido, porquanto ainda não ficara noite.

Meus caros, ainda não ficara, nem nunca irá ficar noite. Acaso quando o sol está completamente coberto por nuvens escuras fica noite? Não só não fica como posso assegurar que a visibilidade é menor do que num eclipse total do Sol. Quando este ocorre são visíveis duas porções: a umbra e a penumbra. A umbra é a parte do Sol completamente sombreada pela Lua; a penumbra, ou fímbria, é aquela luz em forma de auréola que denuncia a presença do Sol atrás da Lua. Esta luz faz mais claridade que qualquer dia intensamente nublado.
Estes mitos, muito enfatizados pela comunicação social, fazem-me lembrar aquela parte de "As minas do Rei Salomão", traduzido por Eça de Queiroz, em que o herói é salvo por um eclipse que diz ao chefe da tribo dos indígenas ter profetizado, fazendo dele uma espécie de deus. Aqui, os indígenas e os papalvos somos nós.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Aurora

Cá na terra não se fala de outra coisa. Aurora perdeu o braço num acidente de trabalho, a seguradora limpa-se de responsabilidades, não foram cumpridas as normas de segurança. -Lamentável! gritam todos em alta voz. Também acho lamentável, mas vejo um outro lado da questão, certamente porque nunca irei ficar habituada à injustiça insistente da existência terrestre. Que as seguradoras se agarram ao limite da questão a fim de fugirem à responsabilidade, já todos sabemos. Que as entidade patronais muitas vezes não fornecem os equipamentos de segurança adequados também, estarão algures, ninguém sabe onde, se é que estão. Que o trabalhador facilita, também não é novidade nenhuma. É muito mais fácil estar em incumprimento, as botas de biqueira de aço incomodam, os óculos de protecção são um apêndice irritante, desligar máquinas enquanto se procede à limpeza do aparelho atrasa o trabalho e a vida, e o tempo não é complacente com a perfeição. Nada disto é novo, certamente é tudo incontornável, eventualmente são causas impossíveis de atender e resolver, não pela questão, mas pela máquina da sociedade. O problema, para mim, é que existem erros que ninguém deveria pagar, e por conseguinte o que lamento não é a seguradora que não paga, o patrão que não forneceu ou a trabalhadora que não cumpriu. O que eu lamento é o destino de Aurora, sozinha com três filhos e sem braço direito que lhe valha, em sentido literal e figurado. Ninguém deveria pagar por isto, e todos os focos, dela, das pessoas, dos próximos e dos distantes, estão a fugir do essencial. Talvez porque os mecanismos de projecção externa sejam uma estratégia de defesa quase perfeita, quando não existem outras soluções.

Pais incógnitos

Postal retirado daqui

Na década de quarenta do século passado, Viana do Castelo era uma cidade virada para o Atlântico. De lá saíam os mais importantes bacalhoeiros do país rumo ao Mar desejado da Terra Nova. Por incrível que pareça, a indústria da pesca, tal como os famosos estaleiros navais contruídos em 1944, constituía um dos maiores pilares da economia de toda aquela região do Alto Minho. A cidade formigava com o pequeno comércio, com as feiras e praças de rua, os caixeiros-viajantes, os apitos ensurdecedores dos amoladores de facas e, nas alturas festivas, com os circos ambulantes. Pelas ruas empedradas cruzavam-se pequenas carroças de burros com discretas charretes e, de vez em quando, lá surgia um robusto automóvel seguido pelas correrias e gritarias alegres da criançada.
 
Neste cenário de esperança pós Grande Guerra, seguia pelas ruelas um casal de irmãos sempre de mãos dadas, muito apertadas, de andar curvado mas ágil aos saltinhos. Consta que ele chamava-se Nicolau e ela Adelaide, consta, ainda, que ficaram órfãos de mãe, pois o pai sempre foi incógnito. Eram abordados por muita gente enquanto passavam, uns brincavam com eles, outros troçavam, outros faziam-lhes perguntas para os ouvirem falar, outros, ainda, desviavam a cara curiosa.
 
Fisionomicamente eram diferentes, assemelhavam-se a antropóides, sim, pareciam símios; os braços mais longos do que as pernas, a pele toda coberta de pelos pretos, as testas recuadas e os narizes achatados não desmentiam: pareciam macacos. Sofriam de uma deficiência nunca cientificamente explicada para além de lendas e boatos, muitos mexericos e contos. O mais conhecido remonta a uma mulher da vida, de vida miserável, que depois de saber-se grávida terá exclamado não querer ter filhos e se acaso os tivesse, então que fossem macacos.
 
Lalau e Laidinha (foi por estes nomes que ficaram conhecidos) nunca se separavam e quanto mais espicaçados pela turba gingona, mais o irmão se insurgia violento. Eram para os locais uma parelha de aberração circense andante e antes que algum empresário do ramo lhes visse fonte de muitos reis, foram acolhidos pela Congregação da Nossa Senhora da Caridade. Em boa verdade, na época, tudo o que era diferente deveria ser escondido, era uma vergonha impedida de ver o sol do dia. Era uma prática comum em terras do Alto Minho.
 
Claro que hoje seria abertura de noticiários, fonte de dissecação cientifica ou, não me espantaria nada, a maior macacada na cabeça dos realizadores e no topo das audiências da casa dos segredos.
 
Lembro-me deste caso desde os meus tempos de infância em que a minha querida Odete, filha da criada da minha avó, que veio com os nubentes, meus pais, para Lisboa, me contava para eu comer quando estava mais enfastiado. Revivi, anos mais tarde, a história dos manos num artigo de fundo numa edição do jornal "A Aurora do Lima". E, ontem, em conversa com o director deste jornal, com cento e sessenta anos de existência, amigo da minha mãe, Bernardo Barbosa, pessoa mui estimada e amável, solicitei o citado artigo do arquivo que lera há mais de vinte e cinco anos. Infelizmente, aquela edição não está digitalizada mas, mal tenha disponibilidade, irei pessoalmente a Viana tentar encontrá-la. Por enquanto, ficou a promessa de uma fotografia e outros detalhes. Deficientes ou não, foram duas vidas humanas que nasceram, viveram, sentiram, sofreram e morreram.
 
De resto muito pouco se sabe (se fizerem uma busca por um qualquer motor de pesquisa, não encontrarão nada), é um segredo que Viana não se orgulha nem alimenta, um caso esquecido, como tantos outros, com pais incógnitos.

terça-feira, 17 de março de 2015

A Palavra Cantada (Ler este post apenas se puder ouvir a música)

Se é verdade que há uma diferença abissal entre uma palavra escrita e a mesma falada, esta diferença submete-se ao expoente mais elevado quando cantada. Uma palavra cantada ganha formas de corpo – é corpo – que nos toca de uma feição totalmente distinta à da inscrita num papel branco. Nem todos os estilos literários são cantáveis. A Poesia, talvez pela métrica, cadência, ritmo, é o que mais se adequa e melhor se transforma em música. Já na Grécia Antiga, grandes obras (a Ilíada, por exemplo) eram declamadas ou representadas acompanhadas por instrumentos musicais. Entre eles, a lira (além da flauta) ganhou grande popularidade, emprestando à própria literatura uma nova forma: a poesia lírica. Sobre este tema, a palavra cantada, convido-vos a lerem comigo o seguinte poema de Chico Buarque:

Folhetim
 
Se acaso me quiseres,
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim.
Por uma coisa à toa,
Uma noitada boa,
Um cinema, um botequim.

E, se tiveres renda,
Aceito uma prenda,
Qualquer coisa assim.
Como uma pedra falsa,
Um sonho de valsa,
Ou um corte de cetim.

E eu te farei as vontades,
Direi meias verdades,
Sempre à meia-luz.
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis.

Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte,
Te afasta de mim.
Pois já não vales nada,
És página virada
Descartada do meu folhetim.
 
Sem grandes equívocos, ele descreve uma mulher algo interesseira que por uma tuta-e-meia faz o que lhe pedirem por uma única noite (folhetim). Não é muito exigente, mas se ele tiver dinheiro, quer um presente (uma pedra falsa, um sonho, um vestido), qualquer coisa que a satisfaça. Sem grandes aparatos, induz-nos à presença de uma "mulher de vida fácil", mas de poucos luxos.
Convido-vos a ouvirem as mesmas palavras agora musicadas. Ficam com a mesma opinião? Eu não.


(F. Ferreira - Modelo profissional)
 

domingo, 15 de março de 2015

mentol

Terminei já tarde. Por entre os corredores do hospital encontro o costume, o sofrimento não tem muitas caras. Aparece estampado nos rostos como quem marcou com um ferro em brasa a tranca de um animal, salta do corpo em forma de lágrimas, gritos, gestos, actos de desembaraço, uma panóplia de astúcias que utilizamos como forma de adquirir o equilibro perdido. Lembrei-me dela, fazia anos neste dia. No dia em que perdeu a malinha que a seguia para todo o lado, neste mesmo local, com os óculos, a carteira, o pó de arroz, o pacote dos lenços de papel, a fotografia da Nossa Senhora. Saí para a rua e estava vento. Acendo um cigarro que pedi à colega que tinha deixado de fumar e fomos as duas em silêncio, em consideração, em sintonia. Passamos o portão e seguimos percursos inversos sem grandes despedidas, ela precisava de desfrutar o prazer de aspirar o fumo do pecado passados vinte dias de abstinência, e se há coisa que eu respeito é o gozo sentido, depois de cerrado por tempos demasiados. Desci a calçada devagar. Hesitei entre entrar no carro ou percorrer parte da cidade a pé, escutar as vozes do céu ou arrumar as da terra, e decidi integrar tudo com a mestria própria de quem nunca saberá muita coisa. Não saí para longe. Nunca tive dúvidas de que para ouvirmos o mundo precisamos de percorrê-lo, mas para integrá-lo é preciso senti-lo, e para isso não há melhor do que o conforto de um beijo. Felizmente chegaste logo depois e desconfiaste da minha boca doce. Foi um rebuçado, disse-te eu, com uma manha tipicamente feminina. Não foi, não foi nada disso, o cigarro era de mentol. O teu colo, como sempre, soube-me pela vida. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Das Leituras

Estou a ler "Parerga und Paralipomena - Kleine philosophische Schriften" de Arthur Schopenhauer, com tradução para Inglês de E. F. J. Payne. Mais de mil e quinhentas páginas divididas em dois volumes. Assustados? Não estejam, vale a pena. São cerca de trinta ensaios sobre os mais variados temas. Da escrita à leitura, da religião ao suicídio, da teoria das cores à política. Depois de "O mundo como vontade e representação", esta é sem dúvida a obra onde ele melhor expressa o seu pensamento filosófico. No segundo volume, no ensaio "Sobre a leitura e os livros" (Über Lesen und Bücher), Schopenhauer é implacável com aqueles que denomina por leitores compulsivos. De cor e salteado, com tradução minha, escreveu: ler, sem pensar no que se leu, não vale de nada; da mesma forma que o que alimenta o corpo não é o que se come, mas o que se ingere, e nem tudo o que ingerimos é aproveitável, ler sem pensar é reproduzir o que outros pensaram, é ocupar ausente uma arena de pensamentos alheios. Sobre estas palavras podia referir certos ratos de biblioteca que sobre tudo e sobre nada aperaltam as suas rasas ideias com citações e outras referências que mais não são do que um exercício de exibição de basta sabedoria – alheia, lá está – para a plateia. Tudo com a devida gravidade e aplomb. Podia, mas não desenvolvo, todos conhecemos alguns espécimes com denodados fetiches exibicionistas. O que realmente me ocorre é o actual estado da nossa indústria livreira mai-lo poderoso marketing (muitas vezes, estrangeiro) que encaminha leitores ávidos mas passivos para "obras" medíocres, para não dizer lamentáveis; só porque sim, porque estão na moda, 'é bem' falar delas e vendem como pão quente. Gosto de ler um bom livro, sou até capaz de voltar a ele mais do que uma vez, mas o tempo é fraccionável, não é multiplicável, e entre uma boa leitura e uma boa conversa, uma boa viagem, uma boa sessão de fotografia, bem podem os livros esperar apinhados.