Cada vez percebo melhor a extraordinária venda dos romances negros e desafortunados. Estou farta, completamente enfastiada de histórias coloridas, de finais felizes, de contos de fadas e de amor aos molhos a saltar por todos os poros da pele. Já não aguento a perfeição excessiva das toilettes das festas, dos penteados armados e arrumados, das férias deliciosas e das refeições apetitosas. Não há dia em que não encontre nos mais fantásticos lugares o esparguete al dente, o passeio au point, a sobremesa délicieux, a família perfetta, a sintonia mais do que plena entre todas as constelações do universo que se uniram em debandada, tudo a convergir no local exacto onde algumas, poucas pessoas, devem viver rodeadas da sorte. Não tenho nada contra momentos felizes. Sou uma acérrima defensora da felicidade. Pratico diariamente as estratégias apregoadas pelas teorias da educação para o optimismo, e acredito, profunda e piamente, nas energias positivas e na boa onda. Mas por vezes, com relativa frequência, preciso de cheirar realidade. Preciso de encontrar pessoas que espirram, choram e cospem, e mulheres desmaquilhadas, com pêlos nas pernas e calosidades nos pés. Preciso de olhar com os meus olhos para gente que se assoa, que tem preso num dente um enorme pedaço de alface, gente que cai e se levanta, com o joelho esfolado e o nariz arranhado. Preciso de sentir a rudeza da dor, a crueldade da vida, a fome da doença e o devaneio da loucura. Preciso de olhar para pessoas com vísceras e com sistema circulatório, respiratório, endócrino, urinário e digestivo. Preciso de ver velhos que perdem dentes ao sorrir e miúdas que se afligem com a vinda da mocidade. Não aprecio, cada vez aprecio menos a perfeição do linho onde não cai uma nódoa, como se a vida, a verdadeira vida, a vida real, fosse limpa e cândida como uma fotografia seppia. Como se nascêssemos, vivêssemos e acabássemos, sem a sujidade do sexo, o sangue do parto ou o cheiro da morte.
No fundo, mesmo que em doses moderadas, todos precisamos dela. E nas histórias, dói sempre um bocadinho menos.



