Zézinho tem treze anos e um ar pousado entre o reguila e o muito grande. Quer lá saber da escola, da mãe que se preocupa com o percurso, do pai que está longe a arranjar cabos de electricidade, do irmão gémeo que é o melhor dos bons alunos. Um dia, quando a franja deixar de lhe cair para os olhos insistentemente, quando o telemóvel deixar de dar apitos contínuos, e quando o bigode crescer o suficiente para ser cortado, talvez se debruce sobre esses assuntos. Das poucas questões, deixo escapar se ele gostaria de ter a profissão da mãe ou do pai. Erro crasso, não estou ali para perguntar coisas, saiu-me entre um raciocínio e o outro, um deslize imperdoável. E depois disso foi assim:
- Acha mesmo que as crianças sonham ser profissões normais?
- Hum, tens razão. O que sonhas então, não me digas que gostavas de ser jogador de futebol ( outro pontapé ao lado, segunda vez, dois-zero...)
- Acha mesmo?! Já ninguém quer jogar futebol...
- Então?
- Sei lá. Coisas como escritor, poeta, músico ou psicólogo...
- Certo. De todas as outras, já falaremos, mas em que é que psicólogo não é normal?( Aqui, confesso, comecei a ficar aflita...)
- Acha mesmo?! Não é, mas eu gosto porque olho para os outros e tento percebê-los. Gosto ainda de imaginar o que os outros pensam que eu estarei a pensar. Já viu coisa mais estranha e difícil do que esta? Mas gostava muito. Ou então poeta. Também posso ser poeta...
- Pois... Os poetas vivem e escrevem com o coração...
- Hum... Isso não sei fazer. O meu coração não sabe viver nem escrever...
Em dois minutos levei uma lição que me ensinou que os meninos querem sempre ir mais longe do que a normalidade, que compreender os outros é um sonho desses, e, por último e sem mais nada, descobri que o mundo do Zézinho o ensinou muito bem a raciocinar. O mundo dos adultos, quando chega cedo demais, mata sonhos e profissões. Um dia destes não vai haver poesia, contos, música e psicologia.



