Para vivermos e sermos precisamos de esforço. Não se cresce sem investimento, não se encontra sem se procurar, não se recebe sem se dar. A lógica é de tal forma, que não descubro porque o egocentrismo julga que vinga e julga que sobrevive, para sempre. No amor, por exemplo, nunca sabemos tudo se não nos dermos de mão beijada. Nunca sentimos o que há para sentir se não nos desmarcarmos no campo do jogo, onde não se deve perder nem ganhar. Jamais encontraremos a serenidade se ficarmos tranquilos em nós, vejam o paradoxo que nos diz que para atingirmos a plenitude necessitamos do desconforto do desconhecido, mais ou menos uma bonança, depois da tempestade. Dito assim, tem piada, parece que mais vale ficarmos sós, com o nosso umbigo, o nosso eu, a nossa visão e a nossa ocasião, pura e simplesmente. Mas dito de outra forma ganha outro sentido, ora vejam: não há nada melhor do que o encontro, nem que venha marcado com o ferro e o fogo da diferença prévia.
domingo, 5 de julho de 2015
segunda-feira, 29 de junho de 2015
amélia decide morrer
Sinto-a muito trémula, oca, vazia, frágil. Escuto-lhe um respirar sustido por uma garganta que fecha como se o ar pudesse ficar cá do lado de fora, sufocando-a devagar. Imagino-a pequena, recém-nascida, enrolada num coeiro e aninhada no colo da mãe, uma senhora já velha e doente. O pai fez o que pôde a trabalhar muitas horas por dia, enquanto a moça cuidava da casa como gente grande. Hoje não sabe sê-lo. Hoje recorda-se antes do natal sem noite, do Domingo sem igreja, da sopa sem conduto, do colo apagado, uma vez por semana, na cama do hospital. Herdou-lhe cedo a personalidade. Bebeu-lha dos peitos, magros, espremidos mas fartos de leite, de ensinamentos, de leis e de mandamentos. Mulher que é mulher é dona de casa, não é dona do seu nariz. Mentalizou-se da regra, sentiu-a várias vezes na vida, conhece-lhe de cor os trejeitos, os passos, os modos com que deve obedecer, mesmo ao marido que a engana sem parar. Gostaria de poder ajudá-la, penso. Apetece-me, sempre que a sento em frente à mesinha que nos separa, erguer os meus punhos em gesto de revolta, sacudir-lhe as vistas e mostrar-lhe que na vida, a única coisa que nos pertence realmente somos nós mesmos, até que a morte nos separe. Não posso. Não ouso transgredir a técnica, preciso de acolher, não direccionar, pedem-me para ouvir e muito menos para falar. No final levanto-me, despeço-me, e sinto que por vezes o meu papel é segurar ao colo quem não consegue ser pessoa, até ao dia em que, por um golpe de luz, o destino possa quebrar. Não ouso fingir que não me atacam os dados da sorte. Não arrisco julgar que os dias nascem iguais para toda gente, nem que as noites servem sempre para dormir. O mundo pela harmonia da sustentabilidade, é um lugar desigual, e por isso não consigo deixar de considerar que a sorte, o azar e a circunstância mandam mais do que vontade, e que há muitas vidas terminadas porque a cultura mata, a mente acolhe e o corpo, submisso, deixa-a acontecer.
O hábito cultural é a prova provada de que o que nos salva, nos pode aniquilar. O equilíbrio é a utopia que sabemos precisa, sem nunca se lá chegar.
sábado, 20 de junho de 2015
maria do carmo
Maria do Carmo tem sessenta anos, umas perdas gordas, um cabelo preto, umas saias curtas e uns decotes generosos, que revelam uns seios proeminentes. Sorri-me sempre com o sorriso duvidoso de quem quer parecer afável, quando na verdade eu sei que lá bem no fundo me desdenha. Não me interessam muito os motivos de quem me desdenha. Não me preocupam razões que não existem ou pequenas antipatias, estou-me nas tintas para superioridades, não tenho tempo a perder com supremacias, sejam elas académicas, financeiras, profissionais, sociais. No outro dia fiquei a saber que todas as sextas e sábados à noite dança numa dancetaria da cidade. Diz a maldade de quem me contou que procura um marido rico para a velhice, alguém que lhe sustente a vaidade, lhe pague o verniz encarnado das unhas, as botas altas, as tintas do cabelo, os frascos do perfume de primeiríssima qualidade. Também não me interessam os propósitos de Maria do Carmo. Não me incomoda minimamente a sua vontade de encontrar fortuna sem mérito, de subir na vida tardiamente, de casar por amor ao ouro, e não por um amor de ouro. O que verdadeiramente me encanta nesta história, é a minha pródiga imaginação. Eu esforço-me, eu tento abstrair-me dos meus ímpetos duvidosos, mas a verdade é que quando olho para Maria do Carmo não posso deixar de imaginar a divina dança, num pensamento intrusivo de carácter importante, quase alucinatório. Vejo-a num salão escuro e barulhento, de olhos bem abertos, a abanar-se languidamente para quem quiser agarrá-la. Dá uns saltinhos pequeninos e muito ritmados, exactamente antes de um senhor a levar para a dança. Maria do Carmo encosta-se de mansinho ao pescoço do seu par, abana as coxas devagar, e na primeira oportunidade, entre um Bolero e um Merengue, questiona da família, da profissão, da intenção, da ambição e da posição. Logo depois, numa análise criteriosa, decide se deve avançar na investida ou se é melhor dedicar-se a uma outra tentativa, de carácter melhor. Não faço a mais pequena ideia de qual tem sido a sua sorte nesta procura. Não quero saber se consegue ou se não, se ficará só ou acompanhada, se poderá passar a embrulhar-se em riqueza, ou se continuará a cheirar a Jovan indefinidamente. O que me interessa neste caso é o gozo que me dá imaginá-la, garrida, pomposa, em trajes apertados, com cabelos armados e lábios repenicados, numa ginástica corporal que na minha cabeça segue num compasso repetido, cómico, divertido. Ela não sabe, mas entretém-me completamente no caminho de regresso a casa, o que me possibilita uns momentos assustadoramente libertadores: não há nada que chegue à potência curativa da nossa imaginação mais primária.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
madame
Confesso que foi com inveja que lhe mirei os lenços bafientos estendidos sobre a mesa de madeira velha do quintal. Tinha-os ordenados um a um, pintados à mão, assinados por gurus da moda, pequenos, enormes, floridos, sóbrios, elegantes, garridos. Desdobrei cada um deles e esqueci-me das pulgas dos inúmeros gatos. Fiei-me no sangue ruim e não sei se estive certa, tenho umas manchas na pele nacaradas, inchadas, feias, que ficaram a descoberto mal me desembrulhei das obras de arte. Contou-me demoradamente a história de cada um deles, enquanto os felinos trepavam para cima de nós. Um, pintado à mão e com um galo de Barcelos, tinha o ar impossível do popular e da sofisticação. Os da Índia eram enormes e traziam uma história que não me quis confidenciar. Os do Egipto estavam rasgados, são velhos, mas fazem-na recordar do tempo em que a pele dela era um espelho claro, rasgado por duas bolas azuis que já olharam para todos os mares do mundo. Falou-me por fim de liberdade. Deu-ma de bandeja por palavrinhas doces, entregou-se a ela, foi boémia, foi feliz, foi solta, foi longe. Hoje a solidão da consequência deixa-lhe um amargo de boca difícil de degustar. Uma espécie de peito cheio e de vazio afectivo, uma plenitude nostálgica, uma dor que sabe bem. No final remata-me que foi muito bom ser livre. Nesse exacto instante embrulhou-se num lenço gigantesco, cobriu o cabelo e olhou para o sol.
terça-feira, 16 de junho de 2015
alegria
Cada vez mais falo da morte com o mesmo amor que tenho à vida. Olho ao redor de mim e encontro olhos incrédulos, capazes de me retalhar de fora para dentro, apostados em catalogar-me de negra, de bruxa, de mórbida, de infeliz. Uso o mesmo truque das criancinhas quando lhe apontam os dedos à irreverência, e aumento o discurso. Sou capaz de detalhar a dita porque já a olhei de frente várias vezes, conheço-lhe a cor, o cheiro, o som, o poder. Hoje dedico-me essencialmente a curar as feridas que por cá deixa. Acolho de braços abertos tristezas, lágrimas, desesperos, desejos indómitos de acabar com tudo e começar de novo, não interessa onde, nada pode ser pior do que o mundo quando se perdeu parte de nós. Ontem, por exemplo, chorei por alguém que nunca vi, ao lado de alguém que não se consegue ver. Há muito tempo que sei que a maldição da morte é tornar pessoas vivas invisíveis para elas próprias. As pessoas que sobrevivem aos outros procuram-se todos os dias por entre os farrapos da perda, mergulham fundo nos territórios não vividos, colam-se às memórias e não sabem onde se reencontrar. Percebo-as na perfeição. Respeito-as até às maiores profundezas do meu ser. Faço o melhor que sei nesse campo e fico aquém, é injusto, existem tarefas no mundo impossíveis de completar. Mas quando fecho a porta respiro fundo e sou eu outra vez, um nada mais crescida, um pouco mais consciente, muito sossegada, por sentir que estive ali. Engraçado como ainda julgam que a psicologia é técnica, quando na verdade é relação. Curioso como se julgam alegres os ignorantes, quando na realidade não sabem se o são. Inacreditável, como se enganam os felizes por catálogo. Formidável, como este contentamento aplaudido me parece tão miserável.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
quinta-feira, 4 de junho de 2015
dona ana
Dona Ana fustigou-me afincadamente horas a fio. Contou-me em detalhe a casa com piscina que tinha à venda, as roupas que não lhe serviam, o filho que não estudava, a sogra que não morria. Levou-me a acreditar que é possível viver no meio de um circo sem perder uma agulha, ensinou-me a conseguir estar cinquenta minutos em escuta sem proferir uma única palavra, mas nisto fartou-se de mim, muito mais tarde do que eu dela, e desertou. Ontem recebi o telefonema de uma empresa de segurança à qual deu o meu contacto, como potencial interessada em adquirir um sistema de alarmes. Já não me lembrava da Dona Ana. Já não me recordava do seu ar pequeno e agitado, tingido a loiro pastel. A vida encarregou-se de me dizer em viva voz que há gente que nunca se esquece, e que mesmo que eu queira fazê-lo há sempre um alarme que toca algures, a ensinar-me que quem manda não sou eu, é a lógica da oportunidade.
sábado, 30 de maio de 2015
ainda a felicidade, agora vista por mim e do lado de dentro da sua construção
A felicidade constitui numa primeira instância, uma aprendizagem. Não nascemos a saber ser felizes, a respirar como quem sorve vida, a comer como quem engole um sustento, a dormir como quem se deita na possibilidade do descanso vital, a amar como quem aprecia o outro muito além do prazer rápido da auto-satisfação. É preciso aprender o caminho como quem começa a andar, como quem se senta num banco da escola para decorar as letras que nos ensinam a conceptualizar graficamente o que pensamos, como quem interioriza que o amigo da carteira do lado é uma pessoa que também existe no universo como entidade de "ser", como quem aprende a nadar no mar, a subir uma árvore de maçãs, a colher uma batata do chão. A dureza do processo é semelhante ao da vida no geral, e a possibilidade de justiça uma impossibilidade semelhante a todas as outras, como a fome perante a fartura, ou a sanidade de uns perante a doença dos outros. Mas a consequência, centra-se aí. Será essa eventualmente a mais valia de quem sofre, de quem perde quem nunca deveria perder, de quem amarga o pão da besta, de quem é amputado da facilidade suportável do trajecto que conhecemos. Quem se verga mais perante o sofrimento deve aprender melhor e mais depressa. Quem por destino ou sorte escutou ao ouvido a fúria do divino aprendeu a custo que respirar sorve vida, que comer nos dá sustento, que dormir nos permite a vida e que o amor, esta coisa indescritível, é uma possibilidade de festejarmos o verdadeiro dom da existência. Quem não escutou, pode ou não ter aprendido. Se aprendeu é um bom aluno, se não, é um aluno que tropeça e faz sangue nos joelhos, coloca um penso e espera que o mundo o pegue ao colo, sopre devagarinho e diga que já passou. Não pega, o mundo não pega ao colo ninguém, o mundo só sabe ensinar por leis impróprias e irrespiráveis. Aquelas onde a não presença, o não acontecimento e a não possibilidade nos abrem o coração, nos desenvolvem o intelecto, nos afrontam a dialéctica de acção e nos permitem, finalmente, sentir o cheiro do que morreu e o sabor do que ficou.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
escrever
Temo nunca mais na minha vida voltar a escrever livremente. Temo ser engolida por relatórios, processos psico-sociais, por lógicas formatadas ao rigor dos inventários que me regulamentam a actividade profissional, e que nas horas vazias o vagar se ocupe de coisinha nenhuma. Escrever livremente é uma organização partilhada. É um enquadramento, uma consciencialização, uma ideia ridícula e eficaz de nos relermos e nos aprendermos. E aos outros. Se num mundo imaginado ninguém escrevesse, se ninguém tivesse inventado a poesia e o conto, se ninguém ousasse expulsar demónios na literatura, não existiria forma de legitimarmos as nossas culpas, os nossos temores, os nossos vícios e os nossos amores. Estaríamos presos num corpo, sem sabermos o tanto para que nos serve. Escrever deveria ser obrigatório pela vida fora até que a mão permitisse, os olhos deixassem, o cérebro pensasse e o corpo pecasse.
terça-feira, 19 de maio de 2015
o homem do futuro
Quando eu era pequena os polícias existiam para prender os ladrões, e por sinal ainda acredito que para todas as crianças o polícia é o bom. Sendo assim, papéis invertidos dão origem a estados confusionais de consciência, daqueles que equivocam modelos, paradigmas, princípios de execução. Um polícia que ataca os bons é o equivalente a um médico que renega os medicamentos, a um professor que maldiz os alunos, a um padeiro que desmazela o forno de cozer o pão. A verdade é que o mundo parece percorrer um caminho contrário ao caminho certo, e por isso mesmo permite que uma criança perceba desde cedo que há polícias que atacam sem regra, médicos rendidos aos patrocínios, professores vendidos a preferências, e padeiros que não respeitam a riqueza que lhe nasce das mãos. Não há como controlar até ao limite do rigor, não há norma que nos proteja, nem ISO que nos regulamente a acção, há simplesmente uma consciência precoce da realidade construída pelo homem e um desmantelamento prévio de um estado protegido de existência, que cada vez termina mais cedo. Qualquer dia não há colo que valha à humanidade. Nesse tal dia, quando nas experiências do afecto a mãe de pêlo tiver morrido seca e a mãe de espinhos sobreviva à necessidade primária da subsistência, caminharemos para o futuro, que dantes, quando eu era pequena, consistia nuns homens de cabeça gigantesca e olhos vazados. Assusta-me tanto essa gente, que fujo deles como um diabo da cruz.
sábado, 16 de maio de 2015
aldeia
Perdera-se mais depressa do que um baldinho de areia na fúria do mar. Varreu-se por entre uma chuva de espadas que lhe retalharam os pés, as mãos, os sulcos da pele e as reentrâncias das veias que lhe cortam o alimento vivo do local onde se pode morrer devagar. Houve um dia destes um bando de bactérias que se espalharam nos arredores de si. Mergulharam e procriaram, nasceram e multiplicaram-se, rodearam a vizinhança e engoliram o trigo que doirava ao sol. Ninguém lhe chegou a tempo do salvamento, nem foices, nem enxadas, nem mulheres, nem homens, nem cães, nem gatos. A aldeia toda junta uniu-se na eira e ficou a olhar. Nunca mais ninguém se esqueceu daquele dia, quando as saias dela se mirraram à luz da claridade e o lenço da cabeça se reduziu a um pó. A pouco e pouco a rua desertou. As almas recolheram às casas, as carroças encolheram e partiram os paus, os baldes da água pejados de girinos secaram de dó, as vacas murcharam e o pão endureceu. Quem se resguardou sobreviveu ao bafo quente do ar, dentro de casa, de cabeça baixa e de reza na boca. Logo nessa noite viveu um desejo numa cama de um quarto, num crescente fértil que vingou depressa, e passado um tempo havia nova gente que se via, que se ouvia, que se apalpava e se escutava. Quanto a ela deve ter ido para muito longe, dele não se conhece o poiso, mas desconfia-se muito que a matou. Ninguém sabe ao certo o que acontece quando acaba uma história de amor. Fica o cheiro fétido no ar, vê-se o peso dos corpos que se afastam, calcam-se as palavras turvas, afasta-se com os braços o grosso travo da dor. Uma história de amor nunca termina sem dor, o que termina sem dor é a paixão que se apaga numa gota morna de saliva. Não percebo, nunca percebi a passividade do mundo perante o amor, a história daquela aldeia estava acabada. Só quem lá morava não sabia disso, respirou fundo e continuou.
quarta-feira, 13 de maio de 2015
quando for grande
Zézinho tem treze anos e um ar pousado entre o reguila e o muito grande. Quer lá saber da escola, da mãe que se preocupa com o percurso, do pai que está longe a arranjar cabos de electricidade, do irmão gémeo que é o melhor dos bons alunos. Um dia, quando a franja deixar de lhe cair para os olhos insistentemente, quando o telemóvel deixar de dar apitos contínuos, e quando o bigode crescer o suficiente para ser cortado, talvez se debruce sobre esses assuntos. Das poucas questões, deixo escapar se ele gostaria de ter a profissão da mãe ou do pai. Erro crasso, não estou ali para perguntar coisas, saiu-me entre um raciocínio e o outro, um deslize imperdoável. E depois disso foi assim:
- Acha mesmo que as crianças sonham ser profissões normais?
- Hum, tens razão. O que sonhas então, não me digas que gostavas de ser jogador de futebol ( outro pontapé ao lado, segunda vez, dois-zero...)
- Acha mesmo?! Já ninguém quer jogar futebol...
- Então?
- Sei lá. Coisas como escritor, poeta, músico ou psicólogo...
- Certo. De todas as outras, já falaremos, mas em que é que psicólogo não é normal?( Aqui, confesso, comecei a ficar aflita...)
- Acha mesmo?! Não é, mas eu gosto porque olho para os outros e tento percebê-los. Gosto ainda de imaginar o que os outros pensam que eu estarei a pensar. Já viu coisa mais estranha e difícil do que esta? Mas gostava muito. Ou então poeta. Também posso ser poeta...
- Pois... Os poetas vivem e escrevem com o coração...
- Hum... Isso não sei fazer. O meu coração não sabe viver nem escrever...
Em dois minutos levei uma lição que me ensinou que os meninos querem sempre ir mais longe do que a normalidade, que compreender os outros é um sonho desses, e, por último e sem mais nada, descobri que o mundo do Zézinho o ensinou muito bem a raciocinar. O mundo dos adultos, quando chega cedo demais, mata sonhos e profissões. Um dia destes não vai haver poesia, contos, música e psicologia.
sábado, 9 de maio de 2015
regra de três simples
O entendimento nasce-nos quando queremos entender. Quando o alinhamento A se cruza com o alinhamento B, quando a linha recta se aninha ao formato, quando a esquina se atenua e a distância diminui. Para entendermos é necessário desmancharmos o todo em partes, desfazermos o nosso eu e sorver as chuvas que correm, em torrente e de enxurrada, num baldio qualquer. É preciso escutar sem encaixar no nosso mundo, soltar as amarras do próprio, sentir e acreditar. Acreditar, é muito por aí. Crer que o outro não é nossa imagem e semelhança, esquecer o espelho dos livros, os gomos das laranjas, as folhas da oliveira e as cores foscas do pó. A confiança é um lugar perdido entre o que queremos e o que ansiamos, e nela reside a possibilidade de alguma coisa vir a ser. Não confio, dizem-me amiúde, entre uma lágrima, um ruído, um desespero, um grito enraivecido ou um sussurro quase morto. Ensino sempre o mesmo, não me custa, está escrito em todo o lado, mas às vezes canso-me de regras e perco-me também. Quando me encontro outra vez, chego sempre ao mesmo local de inicio. O entendimento nasce-nos quando queremos entender. Quando o alinhamento A se cruza com o alinhamento B, quando a linha recta se aninha ao formato, quando a esquina se atenua e a distância diminui. É uma regra de três simples, onde a incógnita pode ser um resultado perfeito, em vez de uma ignorância solitária.
( Há quem busque aceitar, eu preciso de entender. Aceitar pode ser egoísta, entender é sempre dual.)
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Sol de Maio
Calcorreei a costa vicentina impiedoso, deixando pelas infindas praias alvas promessas impossíveis de realizar, como um carteiro de sacola cheia de cartas de poesia sem destino mas ávido por as entregar, como um mensageiro almocreve que solta solene a voz ao mar e segue sem esperar. Peregrinei pelas suculentas camarinhas pérola, pelos chorões gordos rastejantes, pelas perpétuas das dunas, pelas escarpas e falésias de basalto, calcário e saibro. Andei sem me fartar pela serpenteante estradinha junto ao Oceano bravio, cor de prata cristofle manchada de verdes e azuis cinza, até Vila do Bispo, de sua graça D. Fernando Coutinho.
Desci o monte e cheguei ao restaurante da praia na hora exacta. Pedi uma sandwich de atum com cebola roxa, uma cerveja e um café. Já levo, onde estão? – pergunta o empregado. A máquina e o tabaco estão na mesa lá fora – respondi. Depois do repasto e do cigarro baixei ao areal, montei o tripé e comecei a disparar. Não precisava sentir aquele expressivo sossego, fotografar traz-me paz suficiente, uma espécie de concentração que me eleva os pés descalços do chão. Se algum dia me virem a levitar, estou de máquina em riste apontando na vossa direcção. Passados uns minutos oiço uma voz ao longe: "sorri, sorri".
Era uma mulher de silhueta esguia de telemóvel na mão caminhando até mim. Não dizia "sorri", mas "sorry" enquanto me fotografava. Falava um Inglês incaracterístico, às vezes parecia gaélico, não teria trinta anos, muito ruiva e sardenta. Hi, no problem, where are you from? – perguntei. I'm originally from Auckland, New Zealand, but I live in Edinburgh – respondeu com um sorriso enquanto afastava o cabelo dos olhos.
Disse-me que visitava os avós reformados com residência permanente perto de Sagres, era órfã de mãe e pai e adorava Portugal – This is gorgeous, an amazing country!
Carol manifestamente exagerava para quem nascera na Nova Zelândia, ou mesmo vivia na Escócia, mas continuava frenética: You’re a lucky guy. Pediu-me para ver as fotos e tirar uma com a minha máquina. Geóloga de formação, integrava uma equipa internacional de observação e estudo das placas tectónicas. Voltamos para a esplanada do restaurante, fui lá dentro pedir outro café para mim e uma cerveja para ela. O empregado voltou a perguntar: já levo, onde estão? Respondi: estamos ali.
Etiquetas:
Sol
domingo, 3 de maio de 2015
mães
Se tudo correr bem, as nossas pessoas são sempre as maiores do mundo. A minha vida teve três mulheres, uma mãe e duas avós. A primeira a partir deixou-me um rolo da massa, um anjo da guarda e o gosto pela culinária. A segunda deixou-me um tapete de Arraiolos, a delicadeza das mãos e alguma vaidade. Sempre me perguntaram qual dessas duas era a minha preferida, mas eu nunca respondi, porque na realidade não sabia. Eram minhas e eu amava as duas, nos defeitos e nas virtudes. Agora, muito mais tarde, depois de as perder, julgo poder dizer que as adoro mais do que nunca. A vida sempre nos ensina o que realmente importa, e que usualmente só vemos melhor quando nos desaparece. Hoje senti a falta delas, na mesa do almoço. A verdadeira, a única que ainda me resta em carne e em osso, levou a flor que lhe dei à fotografia da dela. O mais novo da família bateu palmas e deu um beijo à avó. Gostava, gostava muito que os dias lhe ensinassem atempadamente que o amor mais próspero é o que ele pode viver na presença. O outro, o que sobra, é detentor de uma unilateralidade que intensifica e endeusa o sentimento, mas que não é mais do que uma memória que procuramos e encontramos em tantos lugares vazios. A nossa memória faz parte do nosso mundo, dirão vocês certamente. É correcto, direi eu, mas o que ainda tenho para elas morre dentro do meu corpo, num amor que só a mim pertence. Não é pleno, não é certo, falta qualquer coisas a um amor sem corpo físico. Falta calor, falta um sorriso, faltam uns olhos, faltam umas mãos.
Eu e o meu filho comemos bolo de bolacha ao jantar, duas fatias cada um. No final sorrimos um para o outro, enjoados e enfartados. Amar todos os dias cansa, pensei eu. Só quem não ama, não sabe disso.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
