O dia estava muito quente. Uma avó contraria a lógica e engole um café fervente com um pastel de nata, percebo logo o porquê quando uma miúda de uns três anos lhe trepa pelas pernas, enquanto outras duas a assaltam de repente com gritos muito fortes, uma delas está a puxar o cabelo da outra. Situo-me ao lado a comer qualquer coisa rápida, e percebo que a senhora come o pastel com uma rapidez impossível, para quem tenta aproveitar um pequeno prazer de inicio de tarde, que lhe acalme os ânimos apressados . Olha-me entretanto de soslaio e não consegui disfarçar um sorriso. Ela retribui, e parece querer assustar-me, ao dizer, - calma, tenho ainda mais outra neta a dormir a sesta lá em casa. São quatro, todas mulheres! Nisto abandona meia casca de massa folhada, pega na mais pequena, chama as maiores, e sai. Fico a vê-la afastar-se devagarinho e penso no público feminino, mas evitei ir muito longe na ideação, francamente tive medo. Subo ainda a horas, para variar. Do lado de lá da sala de espera aguarda-me um homem, alto, estranho, a cheirar a vinho. Conta-me uma história negra e preciso de auxilio para ela, não basto por mim. A ajuda chega logo depois e o assunto seguiu direitinho para o local devido, é a vida como ela é. Chego a casa tarde. Abro uma lata de atum dos Açores e como-a com umas tostas simples. Soube-me a sossego, mesmo evitando a maionese. Relembrei a mulher das duas e as suas netas. A comida, senhores, tem o poder de um Deus maior. Deito-me e penso sem querer, que mulheres juntas são uma grandeza demasiada para se poder aguentar. Ao mesmo tempo concretizo que há homens sozinhos que não conseguem sequer existir por eles mesmos. O contrário, claro, também deve ser verdade.
(Ainda bem que encontrei atum dos Açores no continente, pensei já quase no sonho. A comida, senhores, tem o poder de um Deus maior. )
