© Paulo Abreu e Lima

domingo, 26 de julho de 2015

o grito


O Grito, Edvard Munch

O meu berço foi pobre e com fraldinhas de pano. Não havia água canalizada, pasmem-me, parece que isso já nem existia nos meios civilizados, há quase quarenta anos atrás. Mas existia e por causa disso a minha mãe lavava as fraldas que me acolhiam os sobejos do corpo com a água do poço, num tanque ao lado e com a ajuda do sol, que as corava. Tenho saudades do tempo em que ela aquecia uma panela de água para me dar banho. E de quando me aquecia um saco que me desse conforto aos pés na casa gelada, a energia já era caríssima nessa altura, uma barbaridade. O tempo foi passando e as condições melhoraram, a família fez tanto por isso. Não sei se por sorte ou se por azar, ganhamos alguma vontade de erguer pessoas, em cada ser que veio ao mundo, e quase todos andamos a pulso. Umas vezes de lado, outras a subir, muitas delas a descer, mas vamos normalmente sempre para algum lado. O que resulta disto nem sempre é simpático. Não há na sociedade um papel facilitado para quem escolhe continuar, principalmente se esse alguém for uma mulher. Dói, muitas vezes dói ser mulher e estar à altura da sociedade, da família, dos filhos e da companhia que escolhemos para viver. Dói ser independente quando dá jeito, mas submissa quando a fantasia o quer, dói manter a casa arrumada, arranjada e polida, ao mesmo tempo que nas horas vagas cultivamos a vida cultural e as leituras, a actualidade e o teatro, porque deveremos estar à altura, mesmo quando essas horas vagas, destinadas a mil coisa, já desapareceram há tempo suficiente para nem lhe reconhecermos o cheiro ou o paladar. Isto tudo ao mesmo tempo que a cama deve de ter os lençóis esticados, lavados e perfumados, e nós devemos ter os pés hidratados e os cabelos tratados, os pelos aniquilados e as unhas limpas das peles de frango da receita saborosa, que se comeu ao almoço. Também dói um bocadinho fingir que não temos alterações hormonais. Esquecer que todos os meses nos escorrem pelas pernas quantidades de sangue que nos possibilitam a magia da maternidade, mas que nos tiram a vontade de rir e de estarmos sempre maquilhadas no ponto certo do limite do sensato, a raiar o indecente, claro, mas sempre sem lá chegar. A linha ténue, o equilíbrio, todos sabemos disso, é ao que o mundo nos obriga, é o que esperam de nós, é o que projectaram para as nossas acções, os nossos sonhos e as nossas projecções. Neste mundo trabalhamos com a conta, o peso e a medida que nos permitem não necessitar que nos sustentem, mas sempre sem exageros que nos abalem a disposição. Somos umas mulheres que sabemos cuidar de nós sem descurar os filhos, manter um lar sem sacudir o casamento, a não ser nas noites de prazer, óbvio, quando toda a barraca tem o direito de abanar e a cama de ranger. Vamos ao cabeleireiro as vezes suficientes para estarmos sempre impecáveis, mas sem irmos vezes demais, e compramos roupas que nos realcem a beleza natural (o que é isso?), sem gastar dinheiro em demasia ao orçamento familiar, nunca esquecendo que a feira é um lugar não grato, e que as lojas de marca são demasiado caras para se lá chegar. Somos uma mães atentas, contentoras, protectoras e cuidadoras, sempre equilibradas, não fumadoras nem prevaricadoras, a lavar a tempo o material da piscina e a aconchegar a roupa da cama ao deitar, a ler recados das cadernetas e as últimas da política, tudo ao mesmo tempo, de preferência enquanto fazemos o jantar. Isto na mesma medida com que fornecemos a independência, ensinamos os truques da sobrevivência, detectamos sinais de inadaptação, escolar ou social, mesmo quando os nossos olhos se fecham na penumbra da tarde, quando ainda deveríamos estar prontas para as leituras do fim do dia, a feitura da manicura, a hora da ginástica, a organização da casa e a preparação da pasta para o dia seguinte de amanhã, aquele em que já nem sabemos se conseguiremos continuar a respirar. Também é importante que mantenhamos uma vida social adequada, equilibrada, sem falhas a cambalear para qualquer dos lados, uma coisa que deve situar-se entre uma ida ao café por semana, um jantar social, um passeio de Domingo. No campo profissional, nada de mais, é ser pro-activa, competente, atenta e actualizada, coisa pouca, chego a pensar. Se pudermos manter uma actividade académica tanto melhor, se pudermos trabalhar até que a noite chegue, maravilha, se for necessário dar dias do fim de semana é que era, porque o que importa é estar à altura de uma sociedade que não sabe muito bem qual é o nosso lugar, desde que sejamos equilibradas. 

E entre jantares de negócios, vidas familiares, gestões de lares e desempenhos exemplares nos papéis diversos que nos atribuímos a nós próprias, não há lugar para sermos, e eu temo, seriamente, que o caos da existência seja este mesmo: a tremenda exigência que colocamos, mulheres incluídas, a nós próprias, em algum lado havemos de falhar. Eu, pela minha parte, mãe, mulher, profissional e competente, acho que já falho, redondamente, em todo o circuito da minha existência. Se sou eu que valho pouco, ou se é mundo que quer muito de mim, não sei, ainda não descobri ao certo, muito embora me lembre, de memória fresca, que a minha avó dizia que ser mulher é mesmo isto. Os tempos eram outros, de facto, mas ao menos estava explicita a nossa falta de liberdade. Hoje temos uma prisão disfarçada de espaços abertos, habilmente mantida por todos, numa movimentação peada por espartilhos criados à luz do que é esperado. Hoje temos uma eira onde estamos muitas vezes a fingir que brilhamos ao sol, mas na realidade secamos devagarinho. Hoje dançamos da mesma forma que as mulheres sempre dançaram, mas ao som de jazz e blues. Somos muito mais chiques e modernas, com toda a certeza.

sábado, 25 de julho de 2015

atum dos Açores

O dia estava muito quente. Uma avó contraria a lógica e engole um café fervente com um pastel de nata, percebo logo o porquê quando uma miúda de uns três anos lhe trepa pelas pernas, enquanto outras duas a assaltam de repente com gritos muito fortes, uma delas está a puxar o cabelo da outra. Situo-me ao lado a comer qualquer coisa rápida, e percebo que a senhora come o pastel com uma rapidez impossível, para quem tenta aproveitar um pequeno prazer de inicio de tarde, que lhe acalme os ânimos apressados . Olha-me entretanto de soslaio e não consegui disfarçar um sorriso. Ela retribui, e parece querer assustar-me, ao dizer, - calma, tenho ainda mais outra neta a dormir a sesta lá em casa. São quatro, todas mulheres! Nisto abandona meia casca de massa folhada, pega na mais pequena, chama as maiores, e sai. Fico a vê-la afastar-se devagarinho e penso no público feminino, mas evitei ir muito longe na ideação, francamente tive medo. Subo ainda a horas, para variar. Do lado de lá da sala de espera aguarda-me um homem, alto, estranho, a cheirar a vinho. Conta-me uma história negra e preciso de auxilio para ela, não basto por mim. A ajuda chega logo depois e o assunto seguiu direitinho para o local devido, é a vida como ela é. Chego a casa tarde. Abro uma lata de atum dos Açores e como-a com umas tostas simples. Soube-me a sossego, mesmo evitando a maionese. Relembrei a mulher das duas e as suas netas. A comida, senhores, tem o poder de um Deus maior. Deito-me e penso sem querer, que mulheres juntas são uma grandeza demasiada para se poder aguentar. Ao mesmo tempo concretizo que há homens sozinhos que não conseguem sequer existir por eles mesmos. O contrário, claro, também deve ser verdade. 

(Ainda bem que encontrei atum dos Açores no continente, pensei já quase no sonho. A comida, senhores, tem o poder de um Deus maior. )

domingo, 19 de julho de 2015

os gatos não têm vertigens



Os gatos não têm vertigens será eventualmente um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos, completamente por acaso. Estou farta, cansadíssima de histórias de amor sem conteúdo, daquelas que se alicerçam na magia de meia dúzia de palavras vãs, de policiais sem sentido, de filmes ocos a vazios. Também estou ligeiramente enfastiada de Hollywood, como se o nacional não prestasse para coisa nenhuma, e a prata da casa fosse de origem menor. O filme aborda a convergência da riqueza e da pobreza, o requinte do você contra o calão mais nojento, a finura dos costumes perante as mais rascas forma de existência humana. Coloca frente a frente o fim assumido com um inicio infortunado, numa partilha nua e crua de que é possível haver vida, mesmo quando se é uma velha viúva e supostamente acabada, ou um jovem perdido nas boémias das ruas. A nossa natureza em estado muito puro, nos medos, nas vontades, nas loucuras, nas violências, nos perdões e nas esperanças, e ainda no fingimento, tratado e polido, de que aquilo não somos nós.  

quinta-feira, 16 de julho de 2015

rainha

Engulo um caldo verde frio que me escorrega depressa pelas goelas com fome. Não há nada para me distrair o espírito sem ser um correio da manhã, que repousa sossegado no banco ao meu lado. Não simpatizo com o dito, mas pego nele como quem pega numa solução de ultima hora para uma necessidade urgente, exactamente a mesma forma como agarro numa bolacha de água e sal em maré de pouca fartura. Vou folheando o jornal e fico ligeiramente inquieta. Uma criança morreu esmagada por uma porta de ferro. Uma outra foi vendida pelos pais, com doze anos, para favores domésticos e sexuais. Não arrisco avançar, as couves começaram a prender-se na minha garganta, a água não resolvia, o pão engrossava-se dentro da minha boca. Não tenho nada contra o jornal mais lido do país. Não é por ele que lhe fujo a ele próprio, não faz mais do que retratar a realidade com palavras pouco cuidadas, num mundo muito pouco delicado, logo, condizente. Fujo dele porque não gosto de ler a loucura e a desgraça do mundo, de forma cruel. Tudo quanto de menos bom existe merece uma elevadíssima dignidade na abordagem. Uma criança que é vendida pelos próprios pais, que é abusada e espancada, merece ser resguardada. E se não for, e se dela quisermos saber notícias, merece ser falada de forma sublime e preocupada. Qualquer coisa que até pode ser simples, como: menina foi uma vítima, e o mundo tem por ora a obrigação de curá-la. Porque o que interessa neste caso não é o bastão que a polícia apreendeu e que durante anos a espancou, e muito menos ainda o casal que a molestou. O que interessa neste caso é a solução para ela, num mundo melhor e muito protector. Ela não é, nunca mais será uma simples menina. Deveria, no mínimo, ser uma rainha.

domingo, 5 de julho de 2015

o encontro

Para vivermos e sermos precisamos de esforço. Não se cresce sem investimento, não se encontra sem se procurar, não se recebe sem se dar. A lógica é de tal forma, que não descubro porque o egocentrismo julga que vinga e julga que sobrevive, para sempre. No amor, por exemplo, nunca sabemos tudo se não nos dermos de mão beijada. Nunca sentimos o que há para sentir se não nos desmarcarmos no campo do jogo, onde não se deve perder nem ganhar. Jamais encontraremos a serenidade se ficarmos tranquilos em nós, vejam o paradoxo que nos diz que para atingirmos a plenitude necessitamos do desconforto do desconhecido, mais ou menos uma bonança, depois da tempestade. Dito assim, tem piada, parece que mais vale ficarmos sós, com o nosso umbigo, o nosso eu, a nossa visão e a nossa ocasião, pura e simplesmente. Mas dito de outra forma ganha outro sentido, ora vejam: não há nada melhor do que o encontro, nem que venha marcado com o ferro e o fogo da diferença prévia.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

amélia decide morrer

Sinto-a muito trémula, oca, vazia, frágil. Escuto-lhe um respirar sustido por uma garganta que fecha como se o ar pudesse ficar cá do lado de fora, sufocando-a devagar. Imagino-a pequena, recém-nascida, enrolada num coeiro e aninhada no colo da mãe, uma senhora já velha e doente. O pai fez o que pôde a trabalhar muitas horas por dia, enquanto a moça cuidava da casa como gente grande. Hoje não sabe sê-lo. Hoje recorda-se antes do natal sem noite, do Domingo sem igreja, da sopa sem conduto, do colo apagado, uma vez por semana, na cama do hospital. Herdou-lhe cedo a personalidade. Bebeu-lha dos peitos, magros, espremidos mas fartos de leite, de ensinamentos, de leis e de mandamentos. Mulher que é mulher é dona de casa, não é dona do seu nariz. Mentalizou-se da regra, sentiu-a várias vezes na vida, conhece-lhe de cor os trejeitos, os passos, os modos com que deve obedecer, mesmo ao marido que a engana sem parar. Gostaria de poder ajudá-la, penso. Apetece-me, sempre que a sento em frente à mesinha que nos separa, erguer os meus punhos em gesto de revolta, sacudir-lhe as vistas e mostrar-lhe que na vida, a única coisa que nos pertence realmente somos nós mesmos, até que a morte nos separe. Não posso. Não ouso transgredir a técnica, preciso de acolher, não direccionar, pedem-me para ouvir e muito menos para falar. No final levanto-me, despeço-me, e sinto que por vezes o meu papel é segurar ao colo quem não consegue ser pessoa, até ao dia em que, por um golpe de luz, o destino possa quebrar. Não ouso fingir que não me atacam os dados da sorte. Não arrisco julgar que os dias nascem iguais para toda gente, nem que as noites servem sempre para dormir. O mundo pela harmonia da sustentabilidade, é um lugar desigual, e por isso não consigo deixar de considerar que a sorte, o azar e a circunstância mandam mais do que vontade, e que há muitas vidas terminadas porque a cultura mata, a mente acolhe e o corpo, submisso, deixa-a acontecer. 

O hábito cultural é a prova provada de que o que nos salva, nos pode aniquilar. O equilíbrio é a utopia que sabemos precisa, sem nunca se lá chegar. 

sábado, 20 de junho de 2015

maria do carmo

Maria do Carmo tem sessenta anos, umas perdas gordas, um cabelo preto, umas saias curtas e uns decotes generosos, que revelam uns seios proeminentes. Sorri-me sempre com o sorriso duvidoso de quem quer parecer afável, quando na verdade eu sei que lá bem no fundo me desdenha. Não me interessam muito os motivos de quem me desdenha. Não me preocupam razões que não existem ou pequenas antipatias, estou-me nas tintas para superioridades, não tenho tempo a perder com supremacias, sejam elas académicas, financeiras, profissionais, sociais. No outro dia fiquei a saber que todas as sextas e sábados à noite dança numa dancetaria da cidade. Diz a maldade de quem me contou que procura um marido rico para a velhice, alguém que lhe sustente a vaidade, lhe pague o verniz encarnado das unhas, as botas altas, as tintas do cabelo, os frascos do perfume de primeiríssima qualidade. Também não me interessam os propósitos de Maria do Carmo. Não me incomoda minimamente a sua vontade de encontrar fortuna sem mérito, de subir na vida tardiamente, de casar por amor ao ouro, e não por um amor de ouro. O que verdadeiramente me encanta nesta história, é a minha pródiga imaginação. Eu esforço-me, eu tento abstrair-me dos meus ímpetos duvidosos, mas a verdade é que quando olho para Maria do Carmo não posso deixar de imaginar a divina dança, num pensamento intrusivo de carácter importante, quase alucinatório. Vejo-a num salão escuro e barulhento, de olhos bem abertos, a abanar-se languidamente para quem quiser agarrá-la. Dá uns saltinhos pequeninos e muito ritmados, exactamente antes de um senhor a levar para a dança. Maria do Carmo encosta-se de mansinho ao pescoço do seu par, abana as coxas devagar, e na primeira oportunidade, entre um Bolero e um Merengue, questiona da família, da profissão, da intenção, da ambição e da posição. Logo depois, numa análise criteriosa, decide se deve avançar na investida ou se é melhor dedicar-se a uma outra tentativa, de carácter melhor. Não faço a mais pequena ideia de qual tem sido a sua sorte nesta procura. Não quero saber se consegue ou se não, se ficará só ou acompanhada, se poderá passar a embrulhar-se em riqueza, ou se continuará a cheirar a Jovan indefinidamente. O que me interessa neste caso é o gozo que me dá imaginá-la, garrida, pomposa, em trajes apertados, com cabelos armados e lábios repenicados, numa ginástica corporal que na minha cabeça segue num compasso repetido, cómico, divertido. Ela não sabe, mas entretém-me completamente no caminho de regresso a casa, o que me possibilita uns momentos assustadoramente libertadores: não há nada que chegue à potência curativa da nossa imaginação mais primária.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

madame

Confesso que foi com inveja que lhe mirei os lenços bafientos estendidos sobre a mesa de madeira velha do quintal. Tinha-os ordenados um a um, pintados à mão, assinados por gurus da moda, pequenos, enormes, floridos, sóbrios, elegantes, garridos. Desdobrei cada um deles e esqueci-me das pulgas dos inúmeros gatos. Fiei-me no sangue ruim e não sei se estive certa, tenho umas manchas na pele nacaradas, inchadas, feias, que ficaram a descoberto mal me desembrulhei das obras de arte. Contou-me demoradamente a história de cada um deles, enquanto os felinos trepavam para cima de nós. Um, pintado à mão e com um galo de Barcelos, tinha o ar impossível do popular e da sofisticação. Os da Índia eram enormes e traziam uma história que não me quis confidenciar. Os do Egipto estavam rasgados, são velhos, mas fazem-na recordar do tempo em que a pele dela era um espelho claro, rasgado por duas bolas azuis que já olharam para todos os mares do mundo. Falou-me por fim de liberdade. Deu-ma de bandeja por palavrinhas doces, entregou-se a ela, foi boémia, foi feliz, foi solta, foi longe. Hoje a solidão da consequência deixa-lhe um amargo de boca difícil de degustar. Uma espécie de peito cheio e de vazio afectivo, uma plenitude nostálgica, uma dor que sabe bem. No final remata-me que foi muito bom ser livre. Nesse exacto instante embrulhou-se num lenço gigantesco, cobriu o cabelo e olhou para o sol.  

terça-feira, 16 de junho de 2015

alegria

Cada vez mais falo da morte com o mesmo amor que tenho à vida. Olho ao redor de mim e encontro olhos incrédulos, capazes de me retalhar de fora para dentro, apostados em catalogar-me de negra, de bruxa, de mórbida, de infeliz. Uso o mesmo truque das criancinhas quando lhe apontam os dedos à irreverência, e aumento o discurso. Sou capaz de detalhar a dita porque já a olhei de frente várias vezes, conheço-lhe a cor, o cheiro, o som, o poder. Hoje dedico-me essencialmente a curar as feridas que por cá deixa. Acolho de braços abertos tristezas, lágrimas, desesperos, desejos indómitos de acabar com tudo e começar de novo, não interessa onde, nada pode ser pior do que o mundo quando se perdeu parte de nós. Ontem, por exemplo, chorei por alguém que nunca vi, ao lado de alguém que não se consegue ver. Há muito tempo que sei que a maldição da morte é tornar pessoas vivas invisíveis para elas próprias. As pessoas que sobrevivem aos outros procuram-se todos os dias por entre os farrapos da perda, mergulham fundo nos territórios não vividos, colam-se às memórias e não sabem onde se reencontrar. Percebo-as na perfeição. Respeito-as até às maiores profundezas do meu ser. Faço o melhor que sei nesse campo e fico aquém, é injusto, existem tarefas no mundo impossíveis de completar. Mas quando fecho a porta respiro fundo e sou eu outra vez, um nada mais crescida, um pouco mais consciente, muito sossegada, por sentir que estive ali. Engraçado como ainda julgam que a psicologia é técnica, quando na verdade é relação. Curioso como se julgam alegres os ignorantes, quando na realidade não sabem se o são. Inacreditável, como se enganam os felizes por catálogo. Formidável, como este contentamento aplaudido me parece tão miserável.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

dona ana

Dona Ana fustigou-me afincadamente horas a fio. Contou-me em detalhe a casa com piscina que tinha à venda, as roupas que não lhe serviam, o filho que não estudava, a sogra que não morria. Levou-me a acreditar que é possível viver no meio de um circo sem perder uma agulha, ensinou-me a conseguir estar cinquenta minutos em escuta sem proferir uma única palavra, mas nisto fartou-se de mim, muito mais tarde do que eu dela, e desertou. Ontem recebi o telefonema de uma empresa de segurança à qual deu o meu contacto, como potencial interessada em adquirir um sistema de alarmes. Já não me lembrava da Dona Ana. Já não me recordava do seu ar pequeno e agitado, tingido a loiro pastel. A vida encarregou-se de me dizer em viva voz que há gente que nunca se esquece, e que mesmo que eu queira fazê-lo há sempre um alarme que toca algures, a ensinar-me que quem manda não sou eu, é a lógica da oportunidade.

sábado, 30 de maio de 2015

ainda a felicidade, agora vista por mim e do lado de dentro da sua construção

A felicidade constitui numa primeira instância, uma aprendizagem. Não nascemos a saber ser felizes, a respirar como quem sorve vida, a comer como quem engole um sustento, a dormir como quem se deita na possibilidade do descanso vital, a amar como quem aprecia o outro muito além do prazer rápido da auto-satisfação. É preciso aprender o caminho como quem começa a andar, como quem se senta num banco da escola para decorar as letras que nos ensinam a conceptualizar graficamente o que pensamos, como quem interioriza que o amigo da carteira do lado é uma pessoa que também existe no universo como entidade de "ser", como quem aprende a nadar no mar, a subir uma árvore de maçãs, a colher uma batata do chão. A dureza do processo é semelhante ao da vida no geral, e a possibilidade de justiça uma impossibilidade semelhante a todas as outras, como a fome perante a fartura, ou a sanidade de uns perante a doença dos outros. Mas a consequência, centra-se aí. Será essa eventualmente a mais valia de quem sofre, de quem perde quem nunca deveria perder, de quem amarga o pão da besta, de quem é amputado da facilidade suportável do trajecto que conhecemos. Quem se verga mais perante o sofrimento deve aprender melhor e mais depressa. Quem por destino ou sorte escutou ao ouvido a fúria do divino aprendeu a custo que respirar sorve vida, que comer nos dá sustento, que dormir nos permite a vida e que o amor, esta coisa indescritível, é uma possibilidade de festejarmos o verdadeiro dom da existência. Quem não escutou, pode ou não ter aprendido. Se aprendeu é um bom aluno, se não, é um aluno que tropeça e faz sangue nos joelhos, coloca um penso e espera que o mundo o pegue ao colo, sopre devagarinho e diga que já passou. Não pega, o mundo não pega ao colo ninguém, o mundo só sabe ensinar por leis impróprias e irrespiráveis. Aquelas onde a não presença, o não acontecimento e a não possibilidade nos abrem o coração, nos desenvolvem o intelecto, nos afrontam a dialéctica de acção e nos permitem, finalmente, sentir o cheiro do que morreu e o sabor do que ficou.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

escrever

Temo nunca mais na minha vida voltar a escrever livremente. Temo ser engolida por relatórios, processos psico-sociais, por lógicas formatadas ao rigor dos inventários que me regulamentam a actividade profissional, e que nas horas vazias o vagar se ocupe de coisinha nenhuma. Escrever livremente é uma organização partilhada. É um enquadramento, uma consciencialização, uma ideia ridícula e eficaz de nos relermos e nos aprendermos. E aos outros. Se num mundo imaginado ninguém escrevesse, se ninguém tivesse inventado a poesia e o conto, se ninguém ousasse expulsar demónios na literatura, não existiria forma de legitimarmos  as nossas culpas, os nossos temores, os nossos vícios e os nossos amores. Estaríamos presos num corpo, sem sabermos o tanto para que nos serve. Escrever deveria ser obrigatório pela vida fora até que a mão permitisse, os olhos deixassem, o cérebro pensasse e o corpo pecasse.

terça-feira, 19 de maio de 2015

o homem do futuro

Quando eu era pequena os polícias existiam para prender os ladrões, e por sinal ainda acredito que para todas as crianças o polícia é o bom. Sendo assim, papéis invertidos dão origem a estados confusionais de consciência, daqueles que equivocam modelos, paradigmas, princípios de execução. Um polícia que ataca os bons é o equivalente a um médico que renega os medicamentos, a um professor que maldiz os alunos, a um padeiro que desmazela o forno de cozer o pão. A verdade é que o mundo parece percorrer um caminho contrário ao caminho certo, e por isso mesmo permite que uma criança perceba desde cedo que há polícias que atacam sem regra, médicos rendidos aos patrocínios, professores vendidos a preferências, e padeiros que não respeitam a riqueza que lhe nasce das mãos. Não há como controlar até ao limite do rigor, não há norma que nos proteja, nem ISO que nos regulamente a acção, há simplesmente uma consciência precoce da realidade construída pelo homem e um desmantelamento prévio de um estado protegido de existência, que cada vez termina mais cedo. Qualquer dia não há colo que valha à humanidade. Nesse tal dia, quando nas experiências do afecto a mãe de pêlo tiver morrido seca e a mãe de espinhos sobreviva à necessidade primária da subsistência, caminharemos para o futuro, que dantes, quando eu era pequena, consistia nuns homens de cabeça gigantesca e olhos vazados. Assusta-me tanto essa gente, que fujo deles como um diabo da cruz.

sábado, 16 de maio de 2015

aldeia

Perdera-se mais depressa do que um baldinho de areia na fúria do mar. Varreu-se por entre uma chuva de espadas que lhe retalharam os pés, as mãos, os sulcos da pele e as reentrâncias das veias que lhe cortam o alimento vivo do local onde se pode morrer devagar. Houve um dia destes um bando de bactérias que se espalharam nos arredores de si. Mergulharam e procriaram, nasceram e multiplicaram-se, rodearam a vizinhança e engoliram o trigo que doirava ao sol. Ninguém lhe chegou a tempo do salvamento, nem foices, nem enxadas, nem mulheres, nem homens, nem cães, nem gatos. A aldeia toda junta uniu-se na eira e ficou a olhar. Nunca mais ninguém se esqueceu daquele dia, quando as saias dela se mirraram à luz da claridade e o lenço da cabeça se reduziu a um pó. A pouco e pouco a rua desertou. As almas recolheram às casas, as carroças encolheram e partiram os paus, os baldes da água pejados de girinos secaram de dó, as vacas murcharam e o pão endureceu. Quem se resguardou sobreviveu ao bafo quente do ar, dentro de casa, de cabeça baixa e de reza na boca. Logo nessa noite viveu um desejo numa cama de um quarto, num crescente fértil que vingou depressa, e passado um tempo havia nova gente que se via, que se ouvia, que se apalpava e se escutava. Quanto a ela deve ter ido para muito longe, dele não se conhece o poiso, mas desconfia-se muito que a matou. Ninguém sabe ao certo o que acontece quando acaba uma história de amor. Fica o cheiro fétido no ar, vê-se o peso dos corpos que se afastam, calcam-se as palavras turvas, afasta-se com os braços o grosso travo da dor. Uma história de amor nunca termina sem dor, o que termina sem dor é a paixão que se apaga numa gota morna de saliva. Não percebo, nunca percebi a passividade do mundo perante o amor, a história daquela aldeia estava acabada. Só quem lá morava não sabia disso, respirou fundo e continuou.