O Grito, Edvard Munch
O meu berço foi pobre e com fraldinhas de pano. Não havia água canalizada, pasmem-me, parece que isso já nem existia nos meios civilizados, há quase quarenta anos atrás. Mas existia e por causa disso a minha mãe lavava as fraldas que me acolhiam os sobejos do corpo com a água do poço, num tanque ao lado e com a ajuda do sol, que as corava. Tenho saudades do tempo em que ela aquecia uma panela de água para me dar banho. E de quando me aquecia um saco que me desse conforto aos pés na casa gelada, a energia já era caríssima nessa altura, uma barbaridade. O tempo foi passando e as condições melhoraram, a família fez tanto por isso. Não sei se por sorte ou se por azar, ganhamos alguma vontade de erguer pessoas, em cada ser que veio ao mundo, e quase todos andamos a pulso. Umas vezes de lado, outras a subir, muitas delas a descer, mas vamos normalmente sempre para algum lado. O que resulta disto nem sempre é simpático. Não há na sociedade um papel facilitado para quem escolhe continuar, principalmente se esse alguém for uma mulher. Dói, muitas vezes dói ser mulher e estar à altura da sociedade, da família, dos filhos e da companhia que escolhemos para viver. Dói ser independente quando dá jeito, mas submissa quando a fantasia o quer, dói manter a casa arrumada, arranjada e polida, ao mesmo tempo que nas horas vagas cultivamos a vida cultural e as leituras, a actualidade e o teatro, porque deveremos estar à altura, mesmo quando essas horas vagas, destinadas a mil coisa, já desapareceram há tempo suficiente para nem lhe reconhecermos o cheiro ou o paladar. Isto tudo ao mesmo tempo que a cama deve de ter os lençóis esticados, lavados e perfumados, e nós devemos ter os pés hidratados e os cabelos tratados, os pelos aniquilados e as unhas limpas das peles de frango da receita saborosa, que se comeu ao almoço. Também dói um bocadinho fingir que não temos alterações hormonais. Esquecer que todos os meses nos escorrem pelas pernas quantidades de sangue que nos possibilitam a magia da maternidade, mas que nos tiram a vontade de rir e de estarmos sempre maquilhadas no ponto certo do limite do sensato, a raiar o indecente, claro, mas sempre sem lá chegar. A linha ténue, o equilíbrio, todos sabemos disso, é ao que o mundo nos obriga, é o que esperam de nós, é o que projectaram para as nossas acções, os nossos sonhos e as nossas projecções. Neste mundo trabalhamos com a conta, o peso e a medida que nos permitem não necessitar que nos sustentem, mas sempre sem exageros que nos abalem a disposição. Somos umas mulheres que sabemos cuidar de nós sem descurar os filhos, manter um lar sem sacudir o casamento, a não ser nas noites de prazer, óbvio, quando toda a barraca tem o direito de abanar e a cama de ranger. Vamos ao cabeleireiro as vezes suficientes para estarmos sempre impecáveis, mas sem irmos vezes demais, e compramos roupas que nos realcem a beleza natural (o que é isso?), sem gastar dinheiro em demasia ao orçamento familiar, nunca esquecendo que a feira é um lugar não grato, e que as lojas de marca são demasiado caras para se lá chegar. Somos uma mães atentas, contentoras, protectoras e cuidadoras, sempre equilibradas, não fumadoras nem prevaricadoras, a lavar a tempo o material da piscina e a aconchegar a roupa da cama ao deitar, a ler recados das cadernetas e as últimas da política, tudo ao mesmo tempo, de preferência enquanto fazemos o jantar. Isto na mesma medida com que fornecemos a independência, ensinamos os truques da sobrevivência, detectamos sinais de inadaptação, escolar ou social, mesmo quando os nossos olhos se fecham na penumbra da tarde, quando ainda deveríamos estar prontas para as leituras do fim do dia, a feitura da manicura, a hora da ginástica, a organização da casa e a preparação da pasta para o dia seguinte de amanhã, aquele em que já nem sabemos se conseguiremos continuar a respirar. Também é importante que mantenhamos uma vida social adequada, equilibrada, sem falhas a cambalear para qualquer dos lados, uma coisa que deve situar-se entre uma ida ao café por semana, um jantar social, um passeio de Domingo. No campo profissional, nada de mais, é ser pro-activa, competente, atenta e actualizada, coisa pouca, chego a pensar. Se pudermos manter uma actividade académica tanto melhor, se pudermos trabalhar até que a noite chegue, maravilha, se for necessário dar dias do fim de semana é que era, porque o que importa é estar à altura de uma sociedade que não sabe muito bem qual é o nosso lugar, desde que sejamos equilibradas.
E entre jantares de negócios, vidas familiares, gestões de lares e desempenhos exemplares nos papéis diversos que nos atribuímos a nós próprias, não há lugar para sermos, e eu temo, seriamente, que o caos da existência seja este mesmo: a tremenda exigência que colocamos, mulheres incluídas, a nós próprias, em algum lado havemos de falhar. Eu, pela minha parte, mãe, mulher, profissional e competente, acho que já falho, redondamente, em todo o circuito da minha existência. Se sou eu que valho pouco, ou se é mundo que quer muito de mim, não sei, ainda não descobri ao certo, muito embora me lembre, de memória fresca, que a minha avó dizia que ser mulher é mesmo isto. Os tempos eram outros, de facto, mas ao menos estava explicita a nossa falta de liberdade. Hoje temos uma prisão disfarçada de espaços abertos, habilmente mantida por todos, numa movimentação peada por espartilhos criados à luz do que é esperado. Hoje temos uma eira onde estamos muitas vezes a fingir que brilhamos ao sol, mas na realidade secamos devagarinho. Hoje dançamos da mesma forma que as mulheres sempre dançaram, mas ao som de jazz e blues. Somos muito mais chiques e modernas, com toda a certeza.

