Nas férias há sempre um qualquer tempo em que a análise aparece certeira, entre uma bola de Berlim poderosa quanto à substância, e uma água bem mais fria do que o habitual, perante a qual fraquejo e padeço do terrível terror do salpico, sempre prodigiosamente atento à minha pessoa. Converjo numa mesma tarde e dentro da mesma elipse de pensamento terrores distintos e perversos, e a mixórdia instala-se ao ponto de nem o marasmo do mar me sossegar o espírito. De vez em quando o mais novo aparece com um balde e uma pá, e com um barco que vai a passear numas poças de areia sem um dono à vista, é tão bom o espaço livre. O mais velho apanha umas ondas que ele imagina serem grandes, que o devem levar para mais longe do que as Índias e as Austrálias, que são imensas, tantas quantas uma cabeça de doze anos conseguir imaginar, é tão maravilhosa a ambição da possibilidade. Mas há um País que construiu um muro para barrar a entrada a pessoas, penso para mim. Um murro gigantesco e quilométrico, que serve para afastar quem em desespero foge de uma guerra onde a vida vale menos do que uma grama de armamento. Um mundo onde se barram pessoas com um enorme muro de arame farpado é um mundo de ferro, onde um pico aguçado espicaça pessoas que procuram vida e paz, em vez de morte e guerra. Neste mundo de ferro, por outro lado, desmantelou-se um site onde a fraqueza da carne impera, num contra-senso diabólico que coloca a humanidade no pódio do ranking das espécies estranhas e traiçoeiras, que para sentir o pulsar do sangue nas veias necessita de atraiçoar pessoas como quem espera encapuçado por uma boa dose de animação erótica. Podes sentir, podes fazer, podes imaginar, só não te podes mostrar. Entretanto a senhora do norte atrás de mim, fala mais alto do que os meus ouvidos conseguem suportar. Berra que se era para ficar na praia todo o dia teria de ter sido avisada, necessitava de ter levado o pão, o fiambre, as latas de atum, os pacotes de batatas fritas com sabor a presunto. Não tenho nada a opor, mas não aprecio escutar ementas alheias, dão-me fome, e outras vezes dão-me vómitos, depende da circunstância e do menu. O banho aproxima-se de mim. Antes que me invada até aos ossos mais recônditos do corpo e da garganta, atravessada por um ou outro duro de roer, vêem-me à cabeça mais meia dúzia de invasores. A obstinação, que é sempre um exagero que encontro demais. A inveja, um móbil peçonhento e mortal que mata os peixes, o sal da água, a areia dos meus pés. O oportunismo, outro pecado mortal, desconsiderado pela bíblia e pela religião. Não devia, é um veneno mais venenoso do que um raticida manhoso. Mata a decência dos Homens, a generosidade da espécie, a vocação do jeito, a valorização do saber. A onda chegou depressa e salvou-me, sábia, do fim esperado do meu pensamento. Arremessou-me contra a areia, lavou-me as pernas com a espuma suja, invadiu-me os olhos que turvaram debaixo do sol, e sacudiu-me para fora o desassossego danado.- Mãããeeee, grita o meu filho feliz, vieste ao banho, viva... - Vim amor, vim. A água está fria, não achas? - Não, está óptima. Tu é que estás sempre friorenta, pareces o avô que só vem ao banho quando o rei faz anos. Isso é velhice, mãe...
Decerto que o meu pai não apreciaria ouvir aquilo.
Decerto que o meu pai não apreciaria ouvir aquilo.





