© Paulo Abreu e Lima

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

maravilhas do aperfeiçoamento

Vou começar a coser à máquina. Vi esta semana na folha do Lidl uma máquina de costura daquelas modernas, pequenas, bonitas e muito prendadas. A minha vontade foi sair de casa, adquirir o bem e voltar com ele, colocá-lo na mesa da cozinha e começar a remendar cortinados, mantas, almofadas, tudo o que uma casa com muitos anos possuí por remendar. Depois parei um bocadinho e lembrei-me que no escritório da minha mãe repousa a Bernina velhinha da minha avó. Uma máquina espaçosa e incorporada num móvel próprio para o efeito, com compartimentos para dedais, linhas, tesouras, com várias cabeças de ponto e um enorme pedal debaixo da mesa, que deverá ser impulsionado por forma a dar conta do serviço. Necessita de ser oleada, já apurei. Precisa de ser afinada, oiço dizer, pela boca de quem sabe do oficio, muito mais do que uma mera curiosa em pré-serviço. Será uma complicação tremenda a recuperação dizem, o transporte até à nova casa, o pedalar sempre que eu quiser bordar um ponto. Fico a pensar no assunto e concluo que nos dias de hoje o mundo é vendido feito. A culinária é pré-cozinhada, os legumes são pré-seleccionados, os doces são instantâneos. A sabedoria é distribuída já feita, os livros são sabidos em resumos pré-concebidos, até alguns alunos da escola são pré-escolhidos, encaixados nas turmas mais, não vá a naturalidade da escolha casual permitir contaminações impróprias de quem decide à partida o destino da evolução. Não vai haver tempo a desperdiçar com processos, tudo já se encontra estudado e devidamente processado, continuado, um dia destes mastigado. A máquina do Lidl segue a tendência da facilidade, muito embora seja necessário o assento para a confecção. Fiquei a pensar se me hei-de colocar no lado da Olívia patroa, e ver crescer obra de rompante e sem esforço, ou se me hei-de contentar com a Olívia empregada, levando o tempo necessário ao primor do ajuste, ao toque da linha, à dobra no sítio certo, com o som do pedal, o pano a ranger, as minhas mãos a puxarem em coordenação com as pernas, o gato a rondar o quintal. Só fico com um ligeiro medo da velha bruxa que vivia na casa ao lado, as memórias são indissolúveis e inerentes, e não há bela sem senão. Os anos que me separam deste tempo não chegaram para que eu tenha deixado de acreditar em bruxas malvadas vestidas de preto. Sei apenas que se vestem também de muitas outras cores, mais uma das maravilhas do aperfeiçoamento.

sábado, 26 de setembro de 2015

perdão

Sempre que me desiludo com alguém desisto de compreender as pessoas. Disse desisto? Mentira, faço um pequeno interregno, tento incluir na lógica do mundo as reacções ilógicas, disseco os absurdos, engreno a máquina e toca a andar. Depois de vez em quanto perco o sono com isso. Nas noites em que perco o sono encontro invariavelmente o meu pensamento mais privado, aquele que à luz do dia se esconde dos meus olhos como se na verdade nem existisse. Chego a pensar se o guardo na almofada e o ressuscito de vez em quando, só mesmo quando faz falta. Normalmente nunca concluo coisa nenhuma, a noite nunca me ajudou. Transforma-me todas estas intimidades num conjunto de factos sem sentido, adensa-me as loucuras, agiganta-me as dores, mata-me os sonhos e os projectos, esfria-me o calor do conforto que o dia me volta a trazer. O que me vale são as manhãs, de preferência de Inverno, preciso das cores amareladas para sentir a lucidez completa do pulsar do meu sangue. Depois existem determinadas alturas da minha vida em que fico realmente assustada. Disse assustada? Não será bem isso, será eventualmente ocupada e pensativa na busca de uma solução onde se encaixe o que descubro que não me faz sentido. Concluí hoje que necessito de adquirir com urgência um móvel de arrumações gigante, mandado fazer pela medida do infinito, nada que Ikeas do mundo consigam edificar. Milhões de prateleiras, gavetas sem fim, um saco sem fundo onde caberiam todos os factos dignos de esquecimento, mas passíveis de valer para relembrar experiências a não repetir. Disse não repetir? Errado, completamente errado, repetimos sempre os erros até à exaustão do cansaço. Executamos os mesmos passos, proferimos as mesmas palavras, magoamos com os mesmos actos, batemos com a mesma mão. Talvez por isso o mundo não tenha caminho e se salve todos os dias, ao mesmo tempo, numa mesma e única medida. No fundo sabemos perdoar, dizem que foi Deus que nos ensinou. Eu disse Deus? Disse. Disse Deus em nome de uma entidade divina que descobriu a génese da forma da vida. Sem ela, tudo morria demasiado cedo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

maria, natália, eduarda...

Na mais pura das incompetências, julgo que entendo sempre quem me procura. Foi exactamente o que aconteceu com Maria, quando há bem pouco tempo se sentou à minha frente. Chorava baba e ranho, esfregava o nariz encarnado com as mãos, soluçava ininterruptamente, engolia as palavras que tanto me queria dizer, entre um choro e o outro, enquanto mastigava saliva em excesso azedada de vergonha, de zanga e de medo. Entrei mais ou menos onde devia, abri as portas emocionais, escutei-lhe o tremor do corpo, a voz das lágrimas, as frases inteiras que lhe saiam do abanar dos pés. A pouco e pouco, depois de quase uma hora de despejo, saiu mais calma. Pelo meio deixou-me a história de uma "infidelidade perdoada", como ela lhe chama. Feita debaixo das suas barbas, ou melhor, dos seus olhos, que barba foi o que ele esfregou na outra, não queremos saber onde. Antes de sair colocou-me a derradeira questão, estava mesmo à espera dela. Se viver com ele no risco da recaída, se seria mais prudente sair, levar os três filhos, procurar outra forma de vida, outra casa, um emprego, quem sabe até um marido fiel. Deixei-a sem resposta, claro, não há resposta pronta para estas questões que insistem em colocar-me. Tem voltado, regularmente, insistindo na dita pergunta, no perdão e na solidão. Normalmente esqueço-a rápido com a pessoa seguinte, quando outra história, semelhante ou totalmente distinta, aparece pela porta adentro, e venho quase sempre com a sensação de dever cumprido: não arrisco no conselho, tenho parcimónia na emoção, absorvo e devolvo o que me parece sensato, dou abraços, estendo mãos, agarro numa almofada que precise de ser esbofeteada, ou melhor, que acolha uma raiva contida em contra-mão. Esforço-me sempre por incorporar tudo, mas a verdade é que se pensar bem, ou melhor, se a vida me colocar na frente da guerra, sinto que não sei nada do que digo, quando julgo que alcanço tanto. Isto traz-me uma sensação de mediania que me assusta, e uma certeza de que na realidade, quando julgo alcançar a dor de Maria, estou ligada ao meu mundo, sabido e conhecido. Não ambiciono entendê-la, tenho medo de a descortinar totalmente, espero nunca sentir a tentação da partilha, que encontro tantas vezes num trâmite conhecido. E quem diz Maria, diz Natália, diz Nélia, diz Eduarda, todas com a sua história. Mas hoje, sem saber bem o porquê, simplesmente lembrei Maria.

sábado, 12 de setembro de 2015

sinal da cruz

Uma avó minha dizia-me que existia uma cruz que me protegeria para sempre. Ofereceu-ma em oiro amarelo, pendurada num fio comprido que os nós tornavam um pouco mais curto, não fosse ficar escondido no meio das camisolas e perder a função. Mesmo ao lado dela estavam as figas, podia o diabo tecê-las, e a cruz não bastar para dar conta do recado. A minha mãe ainda ensaiou pendurar-lhe mais um dente, caído da minha boca. Dizia ela que me daria mais sorte, mas pareceu-me demais tanto amuleto a acrescentar ao anjo da pulseirinha do baptismo tardio, e declinei a oferta sem idade para tal. Felizmente o meu pai ouviu-me e salvou-me ao exagero, concordando com as minha fracas palavras de menina. Tenho tudo guardado a sete chaves, num cofre sem combinação, oferecido num Natal de um inverno frio e muito chuvoso. É de um vermelho ardente exageradamente bonito, feito de veludo e doirados, dividido em compartimentos acessíveis e outros mais recatados. O fio, a cruz e os amuletos estão na porta do fundo, nunca se sabe. A outra avó fazia-me crer na vida da terra e nos caminhos do Homem. Andou descalça tempo demais, e talvez por isso construiu uma couraça rugosa nos pés, que ela arrancava fatia a fatia, com uma faca de mato. Não podia cortar em demasia, poderia ferir o pé, e poderia ainda ser picada por um tojo pontiagudo e aguçado. Era necessária para o facalhão a precisão cirúrgica do bisturi, a fim de executar a tarefa na perfeição, nem muito corte, nem pouco desbaste. Nunca entendi a falta de fé desta segunda avó. Apregoava a terra e a dureza da vida enquanto dizia não crer na virgem, ao mesmo tempo que acartava garrafões de azeite para oferecer à Santa do monte que se via da estrada, e que nunca lhe fez nenhum milagre. Era de doidos ouvir isto, tal como era estranho vê-la caminhar com uma devoção escondida para rezar a nossa Senhora de Fátima, quando calhava, mesmo quando não era preciso. Nunca me deu uma cruz, mas ofereceu-me quase todos os lençóis da minha cama, e ensinou-me como ninguém a cortar as peles dos pés. Noutro dia exagerei e cortei-as demais. Calçar uns sapatos deveria ser o melhor remédio, mas ninguém me tira da ideia que deveria ter comprado mais uma cruz. Será porventura a incongruência da crença, ou eventualmente uma súbita precisão de fé? Não fica a questão, fica uma certeza: há casos, em que nem uma nem outra me bastam. Nem as duas juntas, quanto mais.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

isso é velhice, mãe

Nas férias há sempre um qualquer tempo em que a análise aparece certeira, entre uma bola de Berlim poderosa quanto à substância, e uma água bem mais fria do que o habitual, perante a qual fraquejo e padeço do terrível terror do salpico, sempre prodigiosamente atento à minha pessoa. Converjo numa mesma tarde e dentro da mesma elipse de pensamento terrores distintos e perversos, e a mixórdia instala-se ao ponto de nem o marasmo do mar me sossegar o espírito. De vez em quando o mais novo aparece com um balde e uma pá, e com um barco que vai a passear numas poças de areia sem um dono à vista, é tão bom o espaço livre. O mais velho apanha umas ondas que ele imagina serem grandes, que o devem levar para mais longe do que as Índias e as Austrálias, que são imensas, tantas quantas uma cabeça de doze anos conseguir imaginar, é tão maravilhosa a ambição da possibilidade. Mas há um País que construiu um muro para barrar a entrada a pessoas, penso para mim. Um murro gigantesco e quilométrico, que serve para afastar quem em desespero foge de uma guerra onde a vida vale menos do que uma grama de armamento. Um mundo onde se barram pessoas com um enorme muro de arame farpado é um mundo de ferro, onde um pico aguçado espicaça pessoas que procuram vida e paz, em vez de morte e guerra. Neste mundo de ferro, por outro lado, desmantelou-se um site onde a fraqueza da carne impera, num contra-senso diabólico que coloca a humanidade no pódio do ranking das espécies estranhas e traiçoeiras, que para sentir o pulsar do sangue nas veias necessita de atraiçoar pessoas como quem espera encapuçado por uma boa dose de animação erótica. Podes sentir, podes fazer, podes imaginar, só não te podes mostrar. Entretanto a senhora do norte atrás de mim, fala mais alto do que os meus ouvidos conseguem suportar. Berra que se era para ficar na praia todo o dia teria de ter sido avisada, necessitava de ter levado o pão, o fiambre, as latas de atum, os pacotes de batatas fritas com sabor a presunto. Não tenho nada a opor, mas não aprecio escutar ementas alheias, dão-me fome, e outras vezes dão-me vómitos, depende da circunstância e do menu. O banho aproxima-se de mim. Antes que me invada até aos ossos mais recônditos do corpo e da garganta, atravessada por um ou outro duro de roer, vêem-me à cabeça mais meia dúzia de invasores. A obstinação, que é sempre um exagero que encontro demais. A inveja, um móbil peçonhento e mortal que mata os peixes, o sal da água, a areia dos meus pés. O oportunismo, outro pecado mortal, desconsiderado pela bíblia e pela religião. Não devia, é um veneno mais venenoso do que um raticida manhoso. Mata a decência dos Homens, a generosidade da espécie, a vocação do jeito, a valorização do saber. A onda chegou depressa e salvou-me, sábia, do fim esperado do meu pensamento. Arremessou-me contra a areia, lavou-me as pernas com a espuma suja, invadiu-me os olhos que turvaram debaixo do sol, e sacudiu-me para fora o desassossego danado.-  Mãããeeee, grita o meu filho feliz, vieste ao banho, viva... - Vim amor, vim. A água está fria, não achas? - Não, está óptima. Tu é que estás sempre friorenta, pareces o avô que só vem ao banho quando o rei faz anos. Isso é velhice, mãe...

Decerto que o meu pai não apreciaria ouvir aquilo.

sábado, 15 de agosto de 2015

croché

Os meus passos são lentos, respiro o vento fresco da tarde a lembrar-me o inverno que me demora sempre mais do que o Agosto. Olho para um lado e para o outro e encontro pouca gente, meia dúzia de pessoas, mais coisa menos coisa, a cidade ausentou-se para férias e certamente estará a sul, de armas, bagagens, corpos e descansos. De repente, como que num milagre, a cidade adormecida acordou para a vida. Uma mulher alta e vistosa enverga uma blusa decotada, uns calções floridos e uns saltos agulha, bem altos. Apresenta-se sabedora da arte, abana-se no sítio certo, sacode o cabelo na perfeição, mexe os braços com graça, olha de lado para a pequena multidão que entretanto se reuniu, estou para saber de onde surgiu. O senhor da mota levantou-se do banco e ajeitou as calças. O que se encontrava em frente a este, na conversa, deve ter sido avisado, só pode, vira-se e enrola o bigode. As obras da pastelaria param uns bons segundos, pás em riste, massa a secar ao vento e ao sol, tijolos na mão quase a cair, olhos postos numa outra obra, neste caso de Deus, o mais divino e perfeito de todos os criadores. Ao lado dela estava outra moça, discreta, pequena, a lembrar a normalidade. Entraram as duas na loja chinesa que vende todas as peças que possamos idealizar, à excepção do que eu preciso, claro, não me lembro de uma vez em que me tenha salvo a vida. Ainda outro dia, por exemplo, necessitei de um difusor de caracóis. Corri uma de fio a pavio, palmilhei filas inteiras de artefactos de beleza, sombras, lápis, vernizes, alisadores, secadores, escovas de enrolar, rolos e ganchos diversos, máquinas de depilação e bandinhas de cera perfumada, recipientes de tinta, lacas, pincéis e outros aplicadores, espumas de pentear. Mas de difusor, nada, artigo desconhecido do mestre da loja, nunca ouviu falar, não sabe para que serve, não está interessado em saber.
Prossegui viagem e espreitei pela montra. Lá dentro a jovem beldade munia-se de produtos diversos para se mimar, para por sua vez mimar o mundo com a sua real beleza, enquanto a normalidade a olhava e auxiliava. Não consegui deixar de a imaginar na saída, alta, esbelta, ainda mais bela com o sorriso de satisfação pelas aquisições. As mulheres bonitas distribuem felicidade, o mundo deveria ser obrigado a agradecer-lhe por isso. E as lojas dos chineses ajudam quem pode, a quem basta um simples batom para que o rosto se ilumine e o mundo pare. Difusores de caracóis são para gente trivial, pequena, corriqueira e despenteada, que pode sempre animar-se com umas boas agulhas de croché. Havia às dúzias, num cestinho de verga, aninhadas entre novelos coloridos e muito arrumados. 

sábado, 8 de agosto de 2015

prioridades

As senhora têm a mania das prioridades. Esfolam-se por catalogar as acções quotidianas com o rigor de um pódio olímpico, no topo surge o que realmente importa, daí em diante a medalha de prata, de bronze, de pau ou de coisa nenhuma, no limite da indiferença. É nas filas do supermercado que me deparo com estas análises frequentes, entre uma alface e uma garrafa de água, enquanto o tapete rolante acelera, com pressa, ao mesmo tempo que ensaco rápido de mais tudo o que preciso. Nestes momentos os meus ouvidos poderiam alhear-se do mundo, e por vezes conseguem. Escutam Jorge Palma, com todo o respeito, ao mesmo tempo que na minha cabeça se forma uma realidade paralela aquele  sítio povoado de donas de casa preocupadas em dar aos seus filhos o que a natureza tem de melhor. A certa altura começam a gritar muito alto, e a minha concentração interna é abalada por duas senhoras que olham com pena para as unhas compridas de uma delas. É necessário cortá-las, ir à manicura ainda hoje, na próxima segunda-feira inicia a apanha da pêra, e o capataz não autoriza comprimentos excessivos que possam danificar a mercadoria delicada. A que escuta acena com a cabeça enquanto mira as próprias mãos com uma admiração de quem contempla um monumento audaz e grandioso, qualquer coisa entre o laranja e o rosa, com uns brilhantes a cintilar, unha sim, unha não. - Nem sei o que faria se tivesse de cortar as minhas, vocifera, perante o olhar deprimido da outra, que olha com uma tristeza profunda para as suas pequenas obras de arte. Não resisti, se calhar faltou-me tema, mas a realidade é que no caminho do regresso fiquei a pensar no que aconteceria à pobre criatura de Deus, se tal cataclismo lhe sucedesse. Se as cortaria, apesar da dimensão da desgraça, se as ocultaria discretamente dentro de umas luvas de borracha, ou se passaria uma noite em claro a procurar uma outra alternativa que lhe permitisse pagar as contas, incluindo, obviamente, a manutenção do gel. É tudo uma questão de prioridades.

Quem não tem unhas, não toca guitarra, dizia-se. Hoje, e numa moderna variação, quem quer ter unhas, não apanha pêras.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Esperança (ii)

 
 
 
 
 
Não é novidade, o ocidente é cruel com os seus velhos. Desacredita-os, são estorvos para as famílias, fontes de problemas incompatíveis com a vida dita "moderna", esquissos de um passado distante. Mas não vou por aí, a incompreensão e a intolerância obnubilam-me a razão, recrudescem-me iras que prefiro não avivar.

Parafraseando Alexander von Humboldt, o grau de civilização de um povo mede-se pela forma como este trata os seus velhos – claro que ele se referia aos animais, mas se por uma causa maior tivesse de escolher, tratava melhor o idoso do que o animal, e me desculpem, vou mais longe: cuidava um nadinha melhor daquele do que dum jovem. Claro que a hierarquização não faz sentido, ninguém diz que gosta mais de um filho do que de outro, embora aqui entremos numa outra falácia. Temos tendência a proteger o mais fraco e ponto. Podemos alegar que o velho já teve uma vida, um passado, que "já viveu o que tinha e pôde viver", enquanto um jovem "tem uma vida pela frente". Verdade, mas quem disse que um idoso já perdeu a esperança? Não perdeu. É alguém que luta sozinho e secretamente pela felicidade, socialmente camuflada pelo pequeno prazer, como os demais, mas exactamente com os mesmos direitos.

Em São Tomé e Príncipe cruzei-me com muitos idosos com aquele sorriso e aquela condescendência de quem "a sabe toda", todos eles merecedores do maior respeito e ajuda da comunidade, credores da sapiência de um povo que os mima e agradece – é da Cultura Africana, dizem.

Pelo ocidente surgem sós, vilipendiados pelas vicissitudes da má-fortuna, da família que lhes foge e da comunidade que lhes fecha os olhos. Curioso, achamo-nos uns sortudos por nascer na Europa, mas morrer por aqui, não será igualmente um risco?

 
 
 

sábado, 1 de agosto de 2015

Esperança (i)

 
 
 





«Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças.»    Fernando Pessoa

A esperança não mora apenas no ocidente, surgiu no primeiro homem peludo e curvado, atravessou civilizações milenares, religiões e crenças e persiste hoje por todo o mundo. Suprimi-la é matar crianças e velhos e menos velhos e menos crianças. Nenhum homem sobrevive à sua ausência, sem a sua força e o seu caminho. É isso, caminho. Imaginado, ansiado, sempre por percorrer. "A esperança é a última a morrer" – diz o provérbio. Não é. Muitos vão-se apinhados dela, e nem sempre resta a consolação que alguém a pegue.

(A esperança média de vida em São Tomé e Príncipe é de 66 anos, a taxa formal de desemprego é de 76%, mas as pessoas são felizes, ninguém passa fome e todos têm casa e o seu "projecto" – como chamam ao seu negócio próprio ou comunitário. As crianças têm ensino obrigatório. Lápis, borracha e caderno. E uma mão-cheia de sonhos)

domingo, 26 de julho de 2015

o grito


O Grito, Edvard Munch

O meu berço foi pobre e com fraldinhas de pano. Não havia água canalizada, pasmem-me, parece que isso já nem existia nos meios civilizados, há quase quarenta anos atrás. Mas existia e por causa disso a minha mãe lavava as fraldas que me acolhiam os sobejos do corpo com a água do poço, num tanque ao lado e com a ajuda do sol, que as corava. Tenho saudades do tempo em que ela aquecia uma panela de água para me dar banho. E de quando me aquecia um saco que me desse conforto aos pés na casa gelada, a energia já era caríssima nessa altura, uma barbaridade. O tempo foi passando e as condições melhoraram, a família fez tanto por isso. Não sei se por sorte ou se por azar, ganhamos alguma vontade de erguer pessoas, em cada ser que veio ao mundo, e quase todos andamos a pulso. Umas vezes de lado, outras a subir, muitas delas a descer, mas vamos normalmente sempre para algum lado. O que resulta disto nem sempre é simpático. Não há na sociedade um papel facilitado para quem escolhe continuar, principalmente se esse alguém for uma mulher. Dói, muitas vezes dói ser mulher e estar à altura da sociedade, da família, dos filhos e da companhia que escolhemos para viver. Dói ser independente quando dá jeito, mas submissa quando a fantasia o quer, dói manter a casa arrumada, arranjada e polida, ao mesmo tempo que nas horas vagas cultivamos a vida cultural e as leituras, a actualidade e o teatro, porque deveremos estar à altura, mesmo quando essas horas vagas, destinadas a mil coisa, já desapareceram há tempo suficiente para nem lhe reconhecermos o cheiro ou o paladar. Isto tudo ao mesmo tempo que a cama deve de ter os lençóis esticados, lavados e perfumados, e nós devemos ter os pés hidratados e os cabelos tratados, os pelos aniquilados e as unhas limpas das peles de frango da receita saborosa, que se comeu ao almoço. Também dói um bocadinho fingir que não temos alterações hormonais. Esquecer que todos os meses nos escorrem pelas pernas quantidades de sangue que nos possibilitam a magia da maternidade, mas que nos tiram a vontade de rir e de estarmos sempre maquilhadas no ponto certo do limite do sensato, a raiar o indecente, claro, mas sempre sem lá chegar. A linha ténue, o equilíbrio, todos sabemos disso, é ao que o mundo nos obriga, é o que esperam de nós, é o que projectaram para as nossas acções, os nossos sonhos e as nossas projecções. Neste mundo trabalhamos com a conta, o peso e a medida que nos permitem não necessitar que nos sustentem, mas sempre sem exageros que nos abalem a disposição. Somos umas mulheres que sabemos cuidar de nós sem descurar os filhos, manter um lar sem sacudir o casamento, a não ser nas noites de prazer, óbvio, quando toda a barraca tem o direito de abanar e a cama de ranger. Vamos ao cabeleireiro as vezes suficientes para estarmos sempre impecáveis, mas sem irmos vezes demais, e compramos roupas que nos realcem a beleza natural (o que é isso?), sem gastar dinheiro em demasia ao orçamento familiar, nunca esquecendo que a feira é um lugar não grato, e que as lojas de marca são demasiado caras para se lá chegar. Somos uma mães atentas, contentoras, protectoras e cuidadoras, sempre equilibradas, não fumadoras nem prevaricadoras, a lavar a tempo o material da piscina e a aconchegar a roupa da cama ao deitar, a ler recados das cadernetas e as últimas da política, tudo ao mesmo tempo, de preferência enquanto fazemos o jantar. Isto na mesma medida com que fornecemos a independência, ensinamos os truques da sobrevivência, detectamos sinais de inadaptação, escolar ou social, mesmo quando os nossos olhos se fecham na penumbra da tarde, quando ainda deveríamos estar prontas para as leituras do fim do dia, a feitura da manicura, a hora da ginástica, a organização da casa e a preparação da pasta para o dia seguinte de amanhã, aquele em que já nem sabemos se conseguiremos continuar a respirar. Também é importante que mantenhamos uma vida social adequada, equilibrada, sem falhas a cambalear para qualquer dos lados, uma coisa que deve situar-se entre uma ida ao café por semana, um jantar social, um passeio de Domingo. No campo profissional, nada de mais, é ser pro-activa, competente, atenta e actualizada, coisa pouca, chego a pensar. Se pudermos manter uma actividade académica tanto melhor, se pudermos trabalhar até que a noite chegue, maravilha, se for necessário dar dias do fim de semana é que era, porque o que importa é estar à altura de uma sociedade que não sabe muito bem qual é o nosso lugar, desde que sejamos equilibradas. 

E entre jantares de negócios, vidas familiares, gestões de lares e desempenhos exemplares nos papéis diversos que nos atribuímos a nós próprias, não há lugar para sermos, e eu temo, seriamente, que o caos da existência seja este mesmo: a tremenda exigência que colocamos, mulheres incluídas, a nós próprias, em algum lado havemos de falhar. Eu, pela minha parte, mãe, mulher, profissional e competente, acho que já falho, redondamente, em todo o circuito da minha existência. Se sou eu que valho pouco, ou se é mundo que quer muito de mim, não sei, ainda não descobri ao certo, muito embora me lembre, de memória fresca, que a minha avó dizia que ser mulher é mesmo isto. Os tempos eram outros, de facto, mas ao menos estava explicita a nossa falta de liberdade. Hoje temos uma prisão disfarçada de espaços abertos, habilmente mantida por todos, numa movimentação peada por espartilhos criados à luz do que é esperado. Hoje temos uma eira onde estamos muitas vezes a fingir que brilhamos ao sol, mas na realidade secamos devagarinho. Hoje dançamos da mesma forma que as mulheres sempre dançaram, mas ao som de jazz e blues. Somos muito mais chiques e modernas, com toda a certeza.

sábado, 25 de julho de 2015

atum dos Açores

O dia estava muito quente. Uma avó contraria a lógica e engole um café fervente com um pastel de nata, percebo logo o porquê quando uma miúda de uns três anos lhe trepa pelas pernas, enquanto outras duas a assaltam de repente com gritos muito fortes, uma delas está a puxar o cabelo da outra. Situo-me ao lado a comer qualquer coisa rápida, e percebo que a senhora come o pastel com uma rapidez impossível, para quem tenta aproveitar um pequeno prazer de inicio de tarde, que lhe acalme os ânimos apressados . Olha-me entretanto de soslaio e não consegui disfarçar um sorriso. Ela retribui, e parece querer assustar-me, ao dizer, - calma, tenho ainda mais outra neta a dormir a sesta lá em casa. São quatro, todas mulheres! Nisto abandona meia casca de massa folhada, pega na mais pequena, chama as maiores, e sai. Fico a vê-la afastar-se devagarinho e penso no público feminino, mas evitei ir muito longe na ideação, francamente tive medo. Subo ainda a horas, para variar. Do lado de lá da sala de espera aguarda-me um homem, alto, estranho, a cheirar a vinho. Conta-me uma história negra e preciso de auxilio para ela, não basto por mim. A ajuda chega logo depois e o assunto seguiu direitinho para o local devido, é a vida como ela é. Chego a casa tarde. Abro uma lata de atum dos Açores e como-a com umas tostas simples. Soube-me a sossego, mesmo evitando a maionese. Relembrei a mulher das duas e as suas netas. A comida, senhores, tem o poder de um Deus maior. Deito-me e penso sem querer, que mulheres juntas são uma grandeza demasiada para se poder aguentar. Ao mesmo tempo concretizo que há homens sozinhos que não conseguem sequer existir por eles mesmos. O contrário, claro, também deve ser verdade. 

(Ainda bem que encontrei atum dos Açores no continente, pensei já quase no sonho. A comida, senhores, tem o poder de um Deus maior. )

domingo, 19 de julho de 2015

os gatos não têm vertigens



Os gatos não têm vertigens será eventualmente um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos, completamente por acaso. Estou farta, cansadíssima de histórias de amor sem conteúdo, daquelas que se alicerçam na magia de meia dúzia de palavras vãs, de policiais sem sentido, de filmes ocos a vazios. Também estou ligeiramente enfastiada de Hollywood, como se o nacional não prestasse para coisa nenhuma, e a prata da casa fosse de origem menor. O filme aborda a convergência da riqueza e da pobreza, o requinte do você contra o calão mais nojento, a finura dos costumes perante as mais rascas forma de existência humana. Coloca frente a frente o fim assumido com um inicio infortunado, numa partilha nua e crua de que é possível haver vida, mesmo quando se é uma velha viúva e supostamente acabada, ou um jovem perdido nas boémias das ruas. A nossa natureza em estado muito puro, nos medos, nas vontades, nas loucuras, nas violências, nos perdões e nas esperanças, e ainda no fingimento, tratado e polido, de que aquilo não somos nós.  

quinta-feira, 16 de julho de 2015

rainha

Engulo um caldo verde frio que me escorrega depressa pelas goelas com fome. Não há nada para me distrair o espírito sem ser um correio da manhã, que repousa sossegado no banco ao meu lado. Não simpatizo com o dito, mas pego nele como quem pega numa solução de ultima hora para uma necessidade urgente, exactamente a mesma forma como agarro numa bolacha de água e sal em maré de pouca fartura. Vou folheando o jornal e fico ligeiramente inquieta. Uma criança morreu esmagada por uma porta de ferro. Uma outra foi vendida pelos pais, com doze anos, para favores domésticos e sexuais. Não arrisco avançar, as couves começaram a prender-se na minha garganta, a água não resolvia, o pão engrossava-se dentro da minha boca. Não tenho nada contra o jornal mais lido do país. Não é por ele que lhe fujo a ele próprio, não faz mais do que retratar a realidade com palavras pouco cuidadas, num mundo muito pouco delicado, logo, condizente. Fujo dele porque não gosto de ler a loucura e a desgraça do mundo, de forma cruel. Tudo quanto de menos bom existe merece uma elevadíssima dignidade na abordagem. Uma criança que é vendida pelos próprios pais, que é abusada e espancada, merece ser resguardada. E se não for, e se dela quisermos saber notícias, merece ser falada de forma sublime e preocupada. Qualquer coisa que até pode ser simples, como: menina foi uma vítima, e o mundo tem por ora a obrigação de curá-la. Porque o que interessa neste caso não é o bastão que a polícia apreendeu e que durante anos a espancou, e muito menos ainda o casal que a molestou. O que interessa neste caso é a solução para ela, num mundo melhor e muito protector. Ela não é, nunca mais será uma simples menina. Deveria, no mínimo, ser uma rainha.

domingo, 5 de julho de 2015

o encontro

Para vivermos e sermos precisamos de esforço. Não se cresce sem investimento, não se encontra sem se procurar, não se recebe sem se dar. A lógica é de tal forma, que não descubro porque o egocentrismo julga que vinga e julga que sobrevive, para sempre. No amor, por exemplo, nunca sabemos tudo se não nos dermos de mão beijada. Nunca sentimos o que há para sentir se não nos desmarcarmos no campo do jogo, onde não se deve perder nem ganhar. Jamais encontraremos a serenidade se ficarmos tranquilos em nós, vejam o paradoxo que nos diz que para atingirmos a plenitude necessitamos do desconforto do desconhecido, mais ou menos uma bonança, depois da tempestade. Dito assim, tem piada, parece que mais vale ficarmos sós, com o nosso umbigo, o nosso eu, a nossa visão e a nossa ocasião, pura e simplesmente. Mas dito de outra forma ganha outro sentido, ora vejam: não há nada melhor do que o encontro, nem que venha marcado com o ferro e o fogo da diferença prévia.