A discussão filosófica parece não lhe fazer sentido. Não abre a linha do horizonte para a realidade partilhada, centra-se na que julga ser a certa, a sua, e inicio a escorrência de palavras que me pareceu precisa ao entendimento, gosto mesmo disto. Sempre apreciei a questão, confesso, sou uma inveterada pensadora inconsequente, muito melhor do que uma sonhadora. O que é a realidade? A realidade não é a minha nem a tua, nem sequer a nossa, a realidade será sempre, talvez, mais do que uma. O dado em si, por um lado, simples e sem ser percepcionado, o que faz com que no limite nem exista realmente para a humanidade, dado que só o facto sentido lhe dará a consistência. Nesta linha eu sinto um, tu sentes outro e ela, por seu lado, sentirá ainda outro, o que me leva a considerar que teremos uma infinidade de realidades percepcionadas em cada acto, coisa ou acontecimento isolado. Não me assusta nadinha, a mim que sou das subjectividades, esta ausência de rigor matemático que nos impede de digerir um acontecimento até ao limite da análise interna, externa e circundante, pelo contrário, anima-me. Só isso me pode fazer acreditar na individualidade e aceitar a teimosia. Que não haja dúvidas, é um facto. Gosto mesmo muito disto.
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
mau trato
Ontem descobriram um idoso vítima de maus tratos, escondido por um filho que o "cuidava" secretamente há um ano. Se calhar muitos não sabem, mas idosos vítimas de maus tratos são uma realidade mais presente do que a crise política, o desemprego, a migração. Há dias em que se descobre um caso mais sério e a imprensa vive dessa sensação imediata, onde uma cama suja de desperdícios faz o serviço, ao mesmo tempo que as palavras apontam o desleixo, defendem o idoso que se encontra no hospital, incriminam o cuidador. Enquanto isso, nas barbas do país, centenas de idosos definham sozinhos sem dinheiro para comer. Milhares de homens e mulheres contam meia dúzia de euros que distribuem por medicamentos, água, luz e alimentos. As instituições solidárias são muitas vezes dotadas de interesses maiores do que a vida de quem precisa, tiro o chapéu às que ousam não ser, bravo, é uma vitória. Os vizinhos fecham os olhos porque é a vida e o problema não é deles, louvo os que se apoiam mutuamente, fazem-me crer que ainda existe a verdadeira solidariedade. Os familiares giram depressa, não há vagar que os guarde nem recompensa que valha a pena por cuidar, admiro os que conseguem, apesar de todas as dificuldades. Portugal está velho e cada vez mais mal tratado. E a consciência de pessoa por inteiro teima em ficar cada vez mais reduzida, à medida que o tempo avança e a capacidade cultural abrange mais sectores da população. Não quero concluir, de forma nenhuma, que maior conhecimento é desleixo e egoísmo. Mas por vezes não consigo deixar de pensar, que esta "grande evolução" pode matar o amor.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Uma honra
Nunca tinha entrado em círculos fechados de fotografia via internet. Há três meses decidi entrar e participar num com muitos milhares de participantes – uns amadores como eu e outros autênticos profissionais com provas dadas e fazendo desta arte a sua profissão. Publiquei ao longo destes poucos meses umas sete fotos no máximo (pode-se publicar uma por dia). Qual prova cega de vinhos, não conhecia nenhum deles, nem algum deles me conhecia, logo, o cenário perfeito para uma avaliação isenta de lobbies ou grupos de amigos e conhecidos. Há dias soube, ganhei o Troféu 2015. Uma honra.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Falhar a Vida
Por vezes, às vezes muitas vezes, receio ter passado ao lado. Ao lado dos meus filhos, da minha carreira profissional, dos meus amigos, do amor eros. Escrevo receio e não medo. Este é instintivo e não racional; é folclórico, estridente e fátuo. O receio é ruminado, passa para a corrente sanguínea e neurotransmite-se pela serotonina em boas doses de consciência. Mas, se um dia pudesse escolher, preferia o medo ao receio. A loucura, berrante ou gritante, não é monótona, é colorida e progride para uma espécie maior de lucidez. E como a lucidez da loucura é tão mais livre…
Por vezes, às vezes menos vezes, sinto que falhei. Por omissão ou convicção. Não é bonito, mas também não é medonho – medonho é julgar que não se falha e ainda se transige. O meu grau de exigência não mo permite e é com ele que vivo. Não habito com as frustrações dos outros, nem sou responsável pelas suas ilusões. Por mim está decidido, falhei a Vida. Mas quem perdeu foi Ela.
domingo, 18 de outubro de 2015
o sonho
O meu filho perguntou-me hoje se eu sabia qual era a maior invenção de todos os tempos. Comecei inocentemente a enumerar descobertas cientificas, as que me lembrei, as que fiz esforço para lembrar, as que me pareceram óbvias, as que me surgiam mais ou menos triviais. Tudo errado, tudo tiros ao lado, nenhuma se aproximava da resposta pretendida. Disse-me depois tranquilo que era o sonho e a imaginação. Perante o meu ar estremunhado, ainda matutino, iniciou a sua simples explicação. - É fácil mãe, se tu não tivesses sonhado em ter um filho, eu jamais teria nascido. Se o Homem não imaginasse que seria possível chegar à lua, nunca a teria pisado. Se os médicos não sonhassem com a cura para as doenças, ainda hoje se morreria de gripe. Sorriu-me satisfeito e eu ripostei, - mas isso não é uma invenção, a capacidade de sonho é uma coisa inerente ao ser humano, afirmei. -Pois é mãe, mas para mim o sonho é a maior capacidade de todos os tempos, tudo o resto vem depois, tu é que ainda não pensaste bem nisso...
Talvez porque sonho impossíveis, me esqueço das suas aplicações factuais. "O sonho comanda a vida", diz o poeta, e se até as crianças lá chegam, não deveríamos nunca enveredar por outras espécies de considerações falaciosas, sem ponta de significado.
domingo, 11 de outubro de 2015
tesouro
O tesouro é um jogo onde cada pessoa de um grupo terá de dizer algo bom sobre cada elemento. Foi sem esforço que salientei uma ou duas coisas de cada membro, há a que me transmite paz, a que me dá colo, a que esbanja ternura, a enérgica, a que me faz rir... Assumo o papel sem questões de maior, teço as considerações necessárias por cada sentir que atribuo, sinto um sorriso do outro lado, uma incredulidade, um sou mesmo assim, e vá lá saber-se fiquei para o fim. Olhei para a folha assinada pelos intervenientes e senti-me estranha. Maternal é coisa que eu não sabia ser visível. Esforço-me por cuidar com o cuidado genuíno, mas a transparência parece ser de carácter maior. Inspirar confiança agradou-me demais, no sentido pessoal e profissional. Não há neste mundo grandeza maior de ser conseguida, sem prova provada de merecimento real. A humildade surgiu lá para o meio, cercada por simpatia, serenidade, postura forte e sólida, sinceridade. Olhei para aquilo tudo e não tive tempo de ficar com uma ponta de orgulho, antes mesmo de qualquer chance desabou-me o mundo aos pés, já me tinham dito há muito que as nossas questão pessoais se enviesam no circuito. Na realidade falar do que eu sinto que sou, em confronto com o que dizem de mim, é de uma ambivalência de carácter maior. A tendência natural foi de alguma renúncia. A vontade era explicar a todos, por A mais B, que em algumas questões estão redondamente enganados. Postura forte, por exemplo, estou longe de a ter, muito embora a possa transparecer numa defesa edificada por entre as malhas do percurso, não suporto colos desajeitados e eventualmente desproporcionados. Não obstante, trouxe a folha para casa. Era uma regra comum ao jogo da fortuna dourada, e desde aí até muito depois reli-a inúmeras vezes. Sei o que é isto, é o pecado profissional da dádiva, e a carência da retribuição subsequente, mas seguramente abrangente. É comum a todos, descobri hoje, e fiquei verdadeiramente mais sossegada. É que eu não suporto narcisistas levados ao extremo, e mirrava-me de castigo sozinha se me enquadrasse no território.
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
um dia...
Esperavas-me num restaurante velho de cidade pequena. Olhaste-me com olhos de quem me conhece há muito, um engano carregado de histórias contadas e recontadas, escutadas e escritas por baixo de uma lua que acendia o estranho desejo vadio. Agarraste-me na mão e disseste pouca coisa, centravas os teus olhos nos meus enquanto a comida me escorregava ligeira como um esparguete, a fome era negra, a hora tardia, a pressa chegava, fazia-se madrugada e tanto por contar. Saímos para o frio do Outono e caminhamos num escuro de umas luzes mornas, até ao local onde escondeste tudo quanto tinhas para me dizer. Lembro-me claramente do formato do banco onde nos sentamos. Conheço de cor a disposição do redor e lembro-me das palavras que te saltavam da boca medrosa, crente no ouvido perfeito de uma mulher. Guardaste para ti muito mais do que deverias naquele dia. Levaste o livro que me emprestaste, sem notas, sem novidades, sem discussão de ideias, sem tempo e sem modos, não dispúnhamos de nada disso. Sentimos a promessa do reencontro daqui a horas nenhumas, só assim poderíamos vencer a breve partida. -Tem calma, disse para os dois,- é daqui a pouco... E já está quase na hora de celebrar outra vez. Não sei se te lembras, mas o tempo corre, e nunca mais deixaste a minha mão sozinha. Um dia, caso contigo de vez.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
A. Francisca da Silva
Dizem que os opostos se atraem, e eu acredito muito nisso. Hoje foi um dia bom, um dia em que o meu mundo foi muito feliz. Amanhã o dia será replecto de memórias que o tempo insiste em não levar. O tempo cura tudo, dizem também, mas eu sou do contra desde sempre e insisto que o tempo não cura coisíssima nenhuma, o tempo quando muito faz outra coisa. O tempo aloja memórias, resolve silêncios, escuta a vida que corre como se nada acontecesse, sem paragens, sem regressos, sem mudanças de direcção. O tempo limpa com cuidado como se fosse um pano de água tépida, permite que seja possível continuar sem a dor insuportável de uma facada maior. Cose com jeito as peles da alma, acode ao choro que acorda apenas quando calha, quando acontece, quando um pingo de chuva na testa humedece o chão. O tempo passado, ontem quinze, hoje dezasseis anos, permite-me recordá-la do dia que me deixou, nos deixou, foi-se embora. Nunca mais volta, e eu consigo viver sem ela. Mas sentirei para sempre a sua falta, enquanto a memória do seu cheiro não se desvanecer no orvalho da minha loucura, enquanto a textura da sua pele não morrer às minha mãos, enquanto comer pataniscas de bacalhau e sopas de feijão branco, carregadinhas de migas de pão. Na vida não há curas, há histórias. Nem sei se me quereria mesmo curar delas.
domingo, 4 de outubro de 2015
luz
Tenho mais meia dúzia de horas, grosso modo falando, para terminar a reflexão que insiste em não pender para lado nenhum. Direita, esquerda e centro, nada me diz coisa nenhuma no que toca à esperança. Lembro-me sempre do exemplo dos que detêm a sábia experiência do conhecimento já vivido, que me indicam o meu coração como o melhor conselheiro no caso da dúvida. Entretanto, e na continuidade da indecisão apesar do meu coração, decido dar azo a afazeres de casa antes de me aventurar por entre um sem número de engravatados, que me esperam com sorrisos falsos nas mesas do voto. O meu País está presentemente entregue à facilidade da incompetência, na política e em muitos outros locais. É mais fácil escolher ao jeito do que à lógica, dá mais troco colar de encosto do que lutar contra a maré, é muito mais proveitoso escapar com ligeireza à obrigação, do que cumprir com convicção. O difícil, acabo por concluir, é virar a engrenagem que corre sem modos por um trilho comprido e infindável de um venha a nós abjecto. A política deixou de ser séria quando deixou de ser um serviço social, tal como qualquer outro bem de consumo que perde qualidade quando se massifica a produção. Nem todos nasceram para governar um povo, para isso é preciso escutar, como dizem os sábios, o coração colectivo. A razão nesta coisas tem muito pouco a dizer, serve simplesmente como orientação necessária, no fundo como no amor, como no crescimento, como na crença, como na vida em geral.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
maravilhas do aperfeiçoamento
Vou começar a coser à máquina. Vi esta semana na folha do Lidl uma máquina de costura daquelas modernas, pequenas, bonitas e muito prendadas. A minha vontade foi sair de casa, adquirir o bem e voltar com ele, colocá-lo na mesa da cozinha e começar a remendar cortinados, mantas, almofadas, tudo o que uma casa com muitos anos possuí por remendar. Depois parei um bocadinho e lembrei-me que no escritório da minha mãe repousa a Bernina velhinha da minha avó. Uma máquina espaçosa e incorporada num móvel próprio para o efeito, com compartimentos para dedais, linhas, tesouras, com várias cabeças de ponto e um enorme pedal debaixo da mesa, que deverá ser impulsionado por forma a dar conta do serviço. Necessita de ser oleada, já apurei. Precisa de ser afinada, oiço dizer, pela boca de quem sabe do oficio, muito mais do que uma mera curiosa em pré-serviço. Será uma complicação tremenda a recuperação dizem, o transporte até à nova casa, o pedalar sempre que eu quiser bordar um ponto. Fico a pensar no assunto e concluo que nos dias de hoje o mundo é vendido feito. A culinária é pré-cozinhada, os legumes são pré-seleccionados, os doces são instantâneos. A sabedoria é distribuída já feita, os livros são sabidos em resumos pré-concebidos, até alguns alunos da escola são pré-escolhidos, encaixados nas turmas mais, não vá a naturalidade da escolha casual permitir contaminações impróprias de quem decide à partida o destino da evolução. Não vai haver tempo a desperdiçar com processos, tudo já se encontra estudado e devidamente processado, continuado, um dia destes mastigado. A máquina do Lidl segue a tendência da facilidade, muito embora seja necessário o assento para a confecção. Fiquei a pensar se me hei-de colocar no lado da Olívia patroa, e ver crescer obra de rompante e sem esforço, ou se me hei-de contentar com a Olívia empregada, levando o tempo necessário ao primor do ajuste, ao toque da linha, à dobra no sítio certo, com o som do pedal, o pano a ranger, as minhas mãos a puxarem em coordenação com as pernas, o gato a rondar o quintal. Só fico com um ligeiro medo da velha bruxa que vivia na casa ao lado, as memórias são indissolúveis e inerentes, e não há bela sem senão. Os anos que me separam deste tempo não chegaram para que eu tenha deixado de acreditar em bruxas malvadas vestidas de preto. Sei apenas que se vestem também de muitas outras cores, mais uma das maravilhas do aperfeiçoamento.
sábado, 26 de setembro de 2015
perdão
Sempre que me desiludo com alguém desisto de compreender as pessoas. Disse desisto? Mentira, faço um pequeno interregno, tento incluir na lógica do mundo as reacções ilógicas, disseco os absurdos, engreno a máquina e toca a andar. Depois de vez em quanto perco o sono com isso. Nas noites em que perco o sono encontro invariavelmente o meu pensamento mais privado, aquele que à luz do dia se esconde dos meus olhos como se na verdade nem existisse. Chego a pensar se o guardo na almofada e o ressuscito de vez em quando, só mesmo quando faz falta. Normalmente nunca concluo coisa nenhuma, a noite nunca me ajudou. Transforma-me todas estas intimidades num conjunto de factos sem sentido, adensa-me as loucuras, agiganta-me as dores, mata-me os sonhos e os projectos, esfria-me o calor do conforto que o dia me volta a trazer. O que me vale são as manhãs, de preferência de Inverno, preciso das cores amareladas para sentir a lucidez completa do pulsar do meu sangue. Depois existem determinadas alturas da minha vida em que fico realmente assustada. Disse assustada? Não será bem isso, será eventualmente ocupada e pensativa na busca de uma solução onde se encaixe o que descubro que não me faz sentido. Concluí hoje que necessito de adquirir com urgência um móvel de arrumações gigante, mandado fazer pela medida do infinito, nada que Ikeas do mundo consigam edificar. Milhões de prateleiras, gavetas sem fim, um saco sem fundo onde caberiam todos os factos dignos de esquecimento, mas passíveis de valer para relembrar experiências a não repetir. Disse não repetir? Errado, completamente errado, repetimos sempre os erros até à exaustão do cansaço. Executamos os mesmos passos, proferimos as mesmas palavras, magoamos com os mesmos actos, batemos com a mesma mão. Talvez por isso o mundo não tenha caminho e se salve todos os dias, ao mesmo tempo, numa mesma e única medida. No fundo sabemos perdoar, dizem que foi Deus que nos ensinou. Eu disse Deus? Disse. Disse Deus em nome de uma entidade divina que descobriu a génese da forma da vida. Sem ela, tudo morria demasiado cedo.
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
maria, natália, eduarda...
Na mais pura das incompetências, julgo que entendo sempre quem me procura. Foi exactamente o que aconteceu com Maria, quando há bem pouco tempo se sentou à minha frente. Chorava baba e ranho, esfregava o nariz encarnado com as mãos, soluçava ininterruptamente, engolia as palavras que tanto me queria dizer, entre um choro e o outro, enquanto mastigava saliva em excesso azedada de vergonha, de zanga e de medo. Entrei mais ou menos onde devia, abri as portas emocionais, escutei-lhe o tremor do corpo, a voz das lágrimas, as frases inteiras que lhe saiam do abanar dos pés. A pouco e pouco, depois de quase uma hora de despejo, saiu mais calma. Pelo meio deixou-me a história de uma "infidelidade perdoada", como ela lhe chama. Feita debaixo das suas barbas, ou melhor, dos seus olhos, que barba foi o que ele esfregou na outra, não queremos saber onde. Antes de sair colocou-me a derradeira questão, estava mesmo à espera dela. Se viver com ele no risco da recaída, se seria mais prudente sair, levar os três filhos, procurar outra forma de vida, outra casa, um emprego, quem sabe até um marido fiel. Deixei-a sem resposta, claro, não há resposta pronta para estas questões que insistem em colocar-me. Tem voltado, regularmente, insistindo na dita pergunta, no perdão e na solidão. Normalmente esqueço-a rápido com a pessoa seguinte, quando outra história, semelhante ou totalmente distinta, aparece pela porta adentro, e venho quase sempre com a sensação de dever cumprido: não arrisco no conselho, tenho parcimónia na emoção, absorvo e devolvo o que me parece sensato, dou abraços, estendo mãos, agarro numa almofada que precise de ser esbofeteada, ou melhor, que acolha uma raiva contida em contra-mão. Esforço-me sempre por incorporar tudo, mas a verdade é que se pensar bem, ou melhor, se a vida me colocar na frente da guerra, sinto que não sei nada do que digo, quando julgo que alcanço tanto. Isto traz-me uma sensação de mediania que me assusta, e uma certeza de que na realidade, quando julgo alcançar a dor de Maria, estou ligada ao meu mundo, sabido e conhecido. Não ambiciono entendê-la, tenho medo de a descortinar totalmente, espero nunca sentir a tentação da partilha, que encontro tantas vezes num trâmite conhecido. E quem diz Maria, diz Natália, diz Nélia, diz Eduarda, todas com a sua história. Mas hoje, sem saber bem o porquê, simplesmente lembrei Maria.
sábado, 12 de setembro de 2015
sinal da cruz
Uma avó minha dizia-me que existia uma cruz que me protegeria para sempre. Ofereceu-ma em oiro amarelo, pendurada num fio comprido que os nós tornavam um pouco mais curto, não fosse ficar escondido no meio das camisolas e perder a função. Mesmo ao lado dela estavam as figas, podia o diabo tecê-las, e a cruz não bastar para dar conta do recado. A minha mãe ainda ensaiou pendurar-lhe mais um dente, caído da minha boca. Dizia ela que me daria mais sorte, mas pareceu-me demais tanto amuleto a acrescentar ao anjo da pulseirinha do baptismo tardio, e declinei a oferta sem idade para tal. Felizmente o meu pai ouviu-me e salvou-me ao exagero, concordando com as minha fracas palavras de menina. Tenho tudo guardado a sete chaves, num cofre sem combinação, oferecido num Natal de um inverno frio e muito chuvoso. É de um vermelho ardente exageradamente bonito, feito de veludo e doirados, dividido em compartimentos acessíveis e outros mais recatados. O fio, a cruz e os amuletos estão na porta do fundo, nunca se sabe. A outra avó fazia-me crer na vida da terra e nos caminhos do Homem. Andou descalça tempo demais, e talvez por isso construiu uma couraça rugosa nos pés, que ela arrancava fatia a fatia, com uma faca de mato. Não podia cortar em demasia, poderia ferir o pé, e poderia ainda ser picada por um tojo pontiagudo e aguçado. Era necessária para o facalhão a precisão cirúrgica do bisturi, a fim de executar a tarefa na perfeição, nem muito corte, nem pouco desbaste. Nunca entendi a falta de fé desta segunda avó. Apregoava a terra e a dureza da vida enquanto dizia não crer na virgem, ao mesmo tempo que acartava garrafões de azeite para oferecer à Santa do monte que se via da estrada, e que nunca lhe fez nenhum milagre. Era de doidos ouvir isto, tal como era estranho vê-la caminhar com uma devoção escondida para rezar a nossa Senhora de Fátima, quando calhava, mesmo quando não era preciso. Nunca me deu uma cruz, mas ofereceu-me quase todos os lençóis da minha cama, e ensinou-me como ninguém a cortar as peles dos pés. Noutro dia exagerei e cortei-as demais. Calçar uns sapatos deveria ser o melhor remédio, mas ninguém me tira da ideia que deveria ter comprado mais uma cruz. Será porventura a incongruência da crença, ou eventualmente uma súbita precisão de fé? Não fica a questão, fica uma certeza: há casos, em que nem uma nem outra me bastam. Nem as duas juntas, quanto mais.
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
isso é velhice, mãe
Nas férias há sempre um qualquer tempo em que a análise aparece certeira, entre uma bola de Berlim poderosa quanto à substância, e uma água bem mais fria do que o habitual, perante a qual fraquejo e padeço do terrível terror do salpico, sempre prodigiosamente atento à minha pessoa. Converjo numa mesma tarde e dentro da mesma elipse de pensamento terrores distintos e perversos, e a mixórdia instala-se ao ponto de nem o marasmo do mar me sossegar o espírito. De vez em quando o mais novo aparece com um balde e uma pá, e com um barco que vai a passear numas poças de areia sem um dono à vista, é tão bom o espaço livre. O mais velho apanha umas ondas que ele imagina serem grandes, que o devem levar para mais longe do que as Índias e as Austrálias, que são imensas, tantas quantas uma cabeça de doze anos conseguir imaginar, é tão maravilhosa a ambição da possibilidade. Mas há um País que construiu um muro para barrar a entrada a pessoas, penso para mim. Um murro gigantesco e quilométrico, que serve para afastar quem em desespero foge de uma guerra onde a vida vale menos do que uma grama de armamento. Um mundo onde se barram pessoas com um enorme muro de arame farpado é um mundo de ferro, onde um pico aguçado espicaça pessoas que procuram vida e paz, em vez de morte e guerra. Neste mundo de ferro, por outro lado, desmantelou-se um site onde a fraqueza da carne impera, num contra-senso diabólico que coloca a humanidade no pódio do ranking das espécies estranhas e traiçoeiras, que para sentir o pulsar do sangue nas veias necessita de atraiçoar pessoas como quem espera encapuçado por uma boa dose de animação erótica. Podes sentir, podes fazer, podes imaginar, só não te podes mostrar. Entretanto a senhora do norte atrás de mim, fala mais alto do que os meus ouvidos conseguem suportar. Berra que se era para ficar na praia todo o dia teria de ter sido avisada, necessitava de ter levado o pão, o fiambre, as latas de atum, os pacotes de batatas fritas com sabor a presunto. Não tenho nada a opor, mas não aprecio escutar ementas alheias, dão-me fome, e outras vezes dão-me vómitos, depende da circunstância e do menu. O banho aproxima-se de mim. Antes que me invada até aos ossos mais recônditos do corpo e da garganta, atravessada por um ou outro duro de roer, vêem-me à cabeça mais meia dúzia de invasores. A obstinação, que é sempre um exagero que encontro demais. A inveja, um móbil peçonhento e mortal que mata os peixes, o sal da água, a areia dos meus pés. O oportunismo, outro pecado mortal, desconsiderado pela bíblia e pela religião. Não devia, é um veneno mais venenoso do que um raticida manhoso. Mata a decência dos Homens, a generosidade da espécie, a vocação do jeito, a valorização do saber. A onda chegou depressa e salvou-me, sábia, do fim esperado do meu pensamento. Arremessou-me contra a areia, lavou-me as pernas com a espuma suja, invadiu-me os olhos que turvaram debaixo do sol, e sacudiu-me para fora o desassossego danado.- Mãããeeee, grita o meu filho feliz, vieste ao banho, viva... - Vim amor, vim. A água está fria, não achas? - Não, está óptima. Tu é que estás sempre friorenta, pareces o avô que só vem ao banho quando o rei faz anos. Isso é velhice, mãe...
Decerto que o meu pai não apreciaria ouvir aquilo.
Decerto que o meu pai não apreciaria ouvir aquilo.
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
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