© Paulo Abreu e Lima

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Assim na Terra como no Céu

Sempre achei patético anunciar que se vai acabar um blogue e passado algum tempo retomá-lo. Aliás, a história recente vê com maus olhos quem volta atrás numa qualquer decisão – principalmente nas irrevogáveis. Paciência. Não vou enumerar as razões do meu salto à retaguarda encarpado – e como as tenho. Quem quiser volta aqui. Recebo todos, mesmo os anónimos, com uma franca sensação de depuração. Prometo um post, uma fotografia, uma música ou uma oração por dia. Assim na Terra como no Céu. 

                    ps: Agradeço penhoradamente a todos os que me levaram a reincidir.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Uma despedida e um agradecimento

Acredito que todos nós merecemos o melhor. Os leitores que me lêem e eu próprio que por aqui escrevo. Porém não tenho escrito, nem tão-pouco o melhor que sei; duas razões suficientes para deixar este espaço que com carinho iniciei há pouco mais de quatro anos e que com pouco engagement, confesso, vou largar. Não sei se a CF vai querer continuar por aqui – só lhe comuniquei a minha saída. Não obstante, agradeço a todos, aos que me comentaram, aos que me leram, aos que me incentivaram, aos que me toleraram. A todos sem excepção. Na incerta certeza que nos encontraremos num outro lugar. Prometo, desde já, dar conhecimento a quem se e me interessar. Muito agradecido. Até sempre.

banalizar

As redes sociais são o livro aberto da vida. Nelas poderemos encontrar histórias completas feitas em fotografia, tal e qual um romance onde está escrito o primeiro amor, o segundo e o terceiro, o filho, a filha, o casamento e o divorcio. A diferença essencial é que um romance contado a palavras escritas, com muitas páginas, vírgulas e pontos finais, transmitido em arte literária, ganha contornos de obra prima, cultura e sabedoria. Já a outra, registada em fotografias casuais e desfocadas, enaltece sinais feios, rugas marcadas, roupas fora de moda, cores mortas e degradadas. Enquanto uma dignifica, a outra banaliza.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

imaginação

Sabe pela fonte mais segura do mundo que necessita de tal cuidado, mas especialmente hoje que pensa nisso, descobre que nunca o teve. Na realidade deveria concluir, e por tal facto, que não sabe ao certo o que quer, não conhece a falta que lhe faz o que nunca teve, ou o porquê do desejo do que jamais experimentou. Nas horas vagas pensou no assunto. Não deveria admiti-lo, mas o certo é que pensou também nas horas ocupadas, aquelas que lhe são pagas, e em que a sua cabeça deveria estar empenhada em descobrir soluções empresariais, campanhas proveitosas, receitas milagrosas, mas a dela não. Dedicou quase todos os minutos do dia a tentar perceber o porquê da falta do que não sabe ao certo ser. Fez a retrospectiva total e parou no casamento. Aquele onde nunca conheceu o sabor que ainda procura, a marca da tradição, o colo que vigora nos livros e na religião, aquele que desdenhamos mas que tanto procuramos, como se tudo quanto se critica nos devesse chegar de forma camuflada, sem ninguém ver, dado que é vergonha uma mulher assumir que necessita que cuidem dela, nos dias do feminismo flagrante. Não se perdeu por ali e foi vida fora. 

Deambulou por terrenos solitários e partilhados, deu a volta pelo destino, arriscou sem medo e sem receio de parar os momentos criteriosos onde seria suposto encontrar o cheiro do que procura, e sentiu-o algumas vezes, muito poucas, mas conclui ser dali que lhe nasceu a real falta, só pode ser dali. Em redor, o mesmo de sempre. As pessoas para cuidar, os problemas por resolver, a vida para correr, os dias para trabalhar, os momentos fracos para vencer, o colo para dar, os tapetes a escorregarem por baixo dos pés, os joelhos a levantar, o queixume a morrer, o fio da navalha a cortar, a voz a falhar. Não se apercebeu em concreto do que lhe sucedia até me bater à porta. Não catalogou coisa nenhuma até se sentar no banco de uma secretária que conhece de cor o que são mãos trémulas de cansaço, olhares que desviam, gestos que denunciam, expressões que defendem o que não existe: - deve ser culpa minha, devo ser eu. Só isso justifica que funcione sempre tudo igual. Mas sabe, foi ontem e estive mesmo para desistir. A minha colega de trabalho, sabe, um amor de pessoa, disse-me que se entregou ao projecto com unhas, dentes e convicção. Falhou férias, esqueceu noites, ignorou refeições, o que lhe valeu foi a televisão que o marido, em cuidados com ela, lhe comprou, não fosse a pobre mirrar a visão num mísero ecrã de pc vulgar. Olhe, aquilo atingiu-me no peito. Olhei para ela e fiquei na ânsia da escolha de quem assassinar em reacção. Se a ela, alvo de protecção, se ao marido dela, capaz de a cuidar, se a mim mesma, nada merecedora de receber. Durante alguns minutos, tenho de lhe confessar, estive a matá-la por dentro. Primeiro arranquei-lhe as goelas com as minhas mãos. Depois, devagarinho, tirei-lhe as unhas uma a uma, limpei-lhe o sangue com um lenço de assoar e prossegui caminhos, não sem antes lhe perguntar se doía muito. Ela gemeu em aflição, claro, mas não tive pena nenhuma, culpa que me assaltasse ou arrependimento que me parasse. Deixei-a morrer aos poucos na minha imaginação, precisava mesmo que ficasse morta, sem respiração, sem reacção, sem sossego ou protecção. Nunca ninguém se preocupou com a minha visão, sabe o que é isso? - Consigo imaginar ser muito difícil, respondo numa estranha sintonia. Não sabe, sei que não sabe, é claro que não sabe, e por isso nunca na vida lhe apeteceu matar alguém na imaginação. 

Continuei a anuir com a cabeça, indo ao seu encontro. Mostrando com o meu gesto que nunca na vida matei alguém na minha imaginação.

sábado, 7 de novembro de 2015

Edgar, o bácoro

Não nutria especial interesse por extractos bancários chorudos, talões do multibanco gordos, cartões de crédito e débito bojudos e cheques com muitos zeros. Tudo aquilo cheirava-lhe vago, não palpável, uma espécie de fast money desenxabido, sem sal nem picante. Ou um gourmet servido em pratos gigantes e fundos com comida molecular, uma espuma de alheira aromatizada com três ervilhas, uma pitada de cominhos em cebola roxa caramelizada sobre um secreto de porco escondido. Nada disso, Edgar gostava de volumes imensos que não coubessem em carteiras. Apenas em malas, grandes malas com código de abertura. Quando as abria ensaiava uma liturgia. Derrengava-se para o seu interior com o seu pequeno e largo nariz de bácoro, onde pendia na pontinha uns grossos óculos de massa transparente, e começava a cheirar, de fora para dentro, as vis notas coloridas – chamava-lhes badalhocas, mas aqui todo o adjectivo é redundante. De olhos esbugalhados, julgava-se um homem das novas tecnologias: afastava-se e fotografava-as com o seu Nokia atado por fita-cola rançosa. Depois tocava-lhes de leve, uma e duas vezes, para sentir aquela energia. Quais cheques, extractos, talões do multibanco e cartões? Dinheiro era aquilo. Notas desenhadas, coloridas, com marcas de água, traços de prata, selos, carimbos, assinaturas e números de série. Feito o reconhecimento, começava a retirar os maços um por um e a contar as notas com o seu polegar pequeno de falangeta larga, uma por uma.
Um dia presenciei aquele transe calado. Eram muitos maços de notas de vinte – não gostava das de maior valor, demoravam menos tempo a enumerar. Depois da fotografia e do passar das mãos, começou ávida e furiosamente a tarefa. Manejava as notas com a destreza dum baralhador profissional de cartas numa rapidez atónita. Por cada dez notas contadas levava o dedo à boca para humedecer; depois das trinta começava, de boca aberta, a salivar até pingar sobre as mesmas. Aí, grunhia: molhadinhas são mais fáceis de descolar, eheh. Virava-se para o canto do escritório para ninguém ver. O cuspo saía em tal abundância que parecia a bica de uma fonte inquinada e, à medida que o tempo passava e passava, misturavam-se-lhe eructações e sucos estomacais. Só podia. Pelo cheiro e pelas notas a esfarelar. Quando acabou de contar o último maço, umas boas duas horas depois, olhei: aquilo parecia um rolo de papel higiénico que tinha caído numa sanita cheia de urina ainda por vazar. Perfeito, com este maço pago o salário do mês de Julho aos operários – vociferou.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

o tempo

Há dias em que sinto que compro para mim mesma batalhas que jamais conseguirei ganhar. O sentimento surge-me agudo quando olho para alguém que eu gostaria de salvar a todo o custo, em prejuízo de mim própria. Quando isso me acontece preciso de parar. Preciso de redimensionar o universo e olhar para um sol, mesmo que a chuva turve o mundo à minha volta e me esconda toda a "evidente" claridade. Nunca na vida vou ficar distante do sofrimento alheio por muitos anos que o olhe de frente, lhe sinta o cheiro nauseabundo a entrar-me pelas narinas, lhe prove o sabor azedo que engulo devagar e a tanto custo. Com o tempo passa, diziam-me dantes, quando eu limpava devagar um choro teimoso. Mentira, mentiram-me à descarada, com o tempo não passa coisíssima nenhuma. Com o tempo só passou a ilusão da perfeição, que deu lugar ao derradeiro confronto com a verdade. O tempo neste campo só piorou tudo. Tudinho.  

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

casa mortuária

Faço uma constatação prática sobre uma notícia de um jornal: uma directora de um colégio interno maltratou uma criança. Levantam-se vozes indignadas e eu assisto de perto, numa consciência muito limpa de quem conhece o território por dentro e por fora. Ao ler este episódio lembrei Maria, uma pobre criança colocada de castigo numa casa mortuária durante umas horas, numa cidade onde se reza pelo País e pelo mundo. Quis o destino e a madre que ficasse esquecida por uma noite inteirinha, ninguém a procurou, ninguém lhe sentiu a falta, ninguém lhe escutou as preces aflitas, tarde fora, noite dentro, foi preciso o canto do galo para que alguma alma de Deus lhe procurasse o caminho do regresso. Não se lembra ao certo do que fez durante todas as horas que por ela passaram. Sabe o que lhe contaram, foi encontrada enrolada em posição fetal, pela manhã, embrulhada em desperdícios humanos de diversa ordem, gelada de meter dó. Deram-lhe um banho quente, devolveram-lhe vida, entregaram-na à sua real idade de criança desobediente: nunca mais voltas a portar-te mal outra vez... Por muito que eu queira, ainda não a consegui devolver ao momento passado do esquecimento. Por muito que a encoraje a confiar na segurança da distância e no rigor do espaço terapêutico, ainda não me foi possível colocá-la na fronteira da realidade passada, o exacto lugar onde o trauma poderá serenar. Há bem pouco tempo voltou à casa onde a esqueceram, e onde a educação lhe era dada à custa dos sacrifícios que tão bem conhecia: o abandono. Por lá, madres diversas continuam a educar criancinhas, a rezar pelo mundo, a mostrar aos Homens a sua infinita bondade. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

teimosia

A discussão filosófica parece não lhe fazer sentido. Não abre a linha do horizonte para a realidade partilhada, centra-se na que julga ser a certa, a sua, e inicio a escorrência de palavras que me pareceu precisa ao entendimento, gosto mesmo disto. Sempre apreciei a questão, confesso, sou uma inveterada pensadora inconsequente, muito melhor do que uma sonhadora. O que é a realidade? A realidade não é a minha nem a tua, nem sequer a nossa, a realidade será sempre, talvez, mais do que uma. O dado em si, por um lado, simples e sem ser percepcionado, o que faz com que no limite  nem exista realmente para a humanidade, dado que só o facto sentido lhe dará a consistência. Nesta linha eu sinto um, tu sentes outro e ela, por seu lado, sentirá ainda outro, o que me leva a considerar que teremos uma infinidade de realidades percepcionadas em cada acto, coisa ou acontecimento isolado. Não me assusta nadinha, a mim que sou das subjectividades, esta ausência de rigor matemático que nos impede de digerir um acontecimento até ao limite da análise interna, externa e circundante, pelo contrário, anima-me. Só isso me pode fazer acreditar na individualidade e aceitar a teimosia. Que não haja dúvidas, é um facto. Gosto mesmo muito disto.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

mau trato

Ontem descobriram um idoso vítima de maus tratos, escondido por um filho que o "cuidava" secretamente há um ano. Se calhar muitos não sabem, mas idosos vítimas de maus tratos são uma realidade mais presente do que a crise política, o desemprego, a migração. Há dias em que se descobre um caso mais sério e a imprensa vive dessa sensação imediata, onde uma cama suja de desperdícios faz o serviço, ao mesmo tempo que as palavras apontam o desleixo, defendem o idoso que se encontra no hospital, incriminam o cuidador. Enquanto isso, nas barbas do país, centenas de idosos definham sozinhos sem dinheiro para comer. Milhares de homens e mulheres contam meia dúzia de euros que distribuem por medicamentos, água, luz e alimentos. As instituições solidárias são muitas vezes dotadas de interesses maiores do que a vida de quem precisa, tiro o chapéu às que ousam não ser, bravo, é uma vitória. Os vizinhos fecham os olhos porque é a vida e o problema não é deles, louvo os que se apoiam mutuamente, fazem-me crer que ainda existe a verdadeira solidariedade. Os familiares giram depressa, não há vagar que os guarde nem recompensa que valha a pena por cuidar, admiro os que conseguem, apesar de todas as dificuldades. Portugal está velho e cada vez mais mal tratado. E a consciência de pessoa por inteiro teima em ficar cada vez mais reduzida, à medida que o tempo avança e a capacidade cultural abrange mais sectores da população. Não quero concluir, de forma nenhuma, que maior conhecimento é desleixo e egoísmo. Mas por vezes não consigo deixar de pensar, que esta "grande evolução" pode matar o amor.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Uma honra

Nunca tinha entrado em círculos fechados de fotografia via internet. Há três meses decidi entrar e participar num com muitos milhares de participantes – uns amadores como eu e outros autênticos profissionais com provas dadas e fazendo desta arte a sua profissão. Publiquei ao longo destes poucos meses umas sete fotos no máximo (pode-se publicar uma por dia). Qual prova cega de vinhos, não conhecia nenhum deles, nem algum deles me conhecia, logo, o cenário perfeito para uma avaliação isenta de lobbies ou grupos de amigos e conhecidos. Há dias soube, ganhei o Troféu 2015. Uma honra.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Falhar a Vida



Por vezes, às vezes muitas vezes, receio ter passado ao lado. Ao lado dos meus filhos, da minha carreira profissional, dos meus amigos, do amor eros. Escrevo receio e não medo. Este é instintivo e não racional; é folclórico, estridente e fátuo. O receio é ruminado, passa para a corrente sanguínea e neurotransmite-se pela serotonina em boas doses de consciência. Mas, se um dia pudesse escolher, preferia o medo ao receio. A loucura, berrante ou gritante, não é monótona, é colorida e progride para uma espécie maior de lucidez. E como a lucidez da loucura é tão mais livre…

Por vezes, às vezes menos vezes, sinto que falhei. Por omissão ou convicção. Não é bonito, mas também não é medonho – medonho é julgar que não se falha e ainda se transige. O meu grau de exigência não mo permite e é com ele que vivo. Não habito com as frustrações dos outros, nem sou responsável pelas suas ilusões. Por mim está decidido, falhei a Vida. Mas quem perdeu foi Ela.

domingo, 18 de outubro de 2015

o sonho

O meu filho perguntou-me hoje se eu sabia qual era a maior invenção de todos os tempos. Comecei inocentemente a enumerar descobertas cientificas, as que me lembrei, as que fiz esforço para lembrar, as que me pareceram óbvias, as que me surgiam mais ou menos triviais. Tudo errado, tudo tiros ao lado, nenhuma se aproximava da resposta pretendida. Disse-me depois tranquilo que era o sonho e a imaginação. Perante o meu ar estremunhado, ainda matutino, iniciou a sua simples explicação. - É fácil mãe, se tu não tivesses sonhado em ter um filho, eu jamais teria nascido. Se o Homem não imaginasse que seria possível chegar à lua, nunca a teria pisado. Se os médicos não sonhassem com a cura para as doenças, ainda hoje se morreria de gripe. Sorriu-me satisfeito e eu ripostei, - mas isso não é uma invenção, a capacidade de sonho é uma coisa inerente ao ser humano, afirmei. -Pois é mãe, mas para mim o sonho é a maior capacidade de todos os tempos, tudo o resto vem depois, tu é que ainda não pensaste bem nisso...

Talvez porque sonho impossíveis, me esqueço das suas aplicações factuais. "O sonho comanda a vida", diz o poeta, e se até as crianças lá chegam, não deveríamos nunca enveredar por outras espécies de considerações falaciosas, sem ponta de significado. 
 

domingo, 11 de outubro de 2015

tesouro

O tesouro é um jogo onde cada pessoa de um grupo terá de dizer algo bom sobre cada elemento. Foi sem esforço que salientei uma ou duas coisas de cada membro, há a que me transmite paz, a que me dá colo, a que esbanja ternura, a enérgica, a que me faz rir... Assumo o papel sem questões de maior, teço as considerações necessárias por cada sentir que atribuo, sinto um sorriso do outro lado, uma incredulidade, um sou mesmo assim, e vá lá saber-se fiquei para o fim. Olhei para a folha assinada pelos intervenientes e senti-me estranha. Maternal é coisa que eu não sabia ser visível. Esforço-me por cuidar com o cuidado genuíno, mas a transparência parece ser de carácter maior. Inspirar confiança agradou-me demais, no sentido pessoal e profissional. Não há neste mundo grandeza maior de ser conseguida, sem prova provada de merecimento real. A humildade surgiu lá para o meio, cercada por simpatia, serenidade, postura forte e sólida, sinceridade. Olhei para aquilo tudo e não tive tempo de ficar com uma ponta de orgulho, antes mesmo de qualquer chance desabou-me o mundo aos pés, já me tinham dito há muito que as nossas questão pessoais se enviesam no circuito. Na realidade falar do que eu sinto que sou, em confronto com o que dizem de mim, é de uma ambivalência de carácter maior. A tendência natural foi de alguma renúncia. A vontade era explicar a todos, por A mais B, que em algumas questões estão redondamente enganados. Postura forte, por exemplo, estou longe de a ter, muito embora a possa transparecer numa defesa edificada por entre as malhas do percurso, não suporto colos desajeitados e eventualmente desproporcionados. Não obstante, trouxe a folha para casa. Era uma regra comum ao jogo da fortuna dourada, e desde aí até muito depois reli-a inúmeras vezes. Sei o que é isto, é o pecado profissional da dádiva, e a carência da retribuição subsequente, mas seguramente abrangente. É comum a todos, descobri hoje, e fiquei verdadeiramente mais sossegada. É que eu não suporto narcisistas levados ao extremo, e mirrava-me de castigo sozinha se me enquadrasse no território.  

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

um dia...

Esperavas-me num restaurante velho de cidade pequena. Olhaste-me com olhos de quem me conhece há muito, um engano carregado de histórias contadas e recontadas, escutadas e escritas por baixo de uma lua que acendia o estranho desejo vadio. Agarraste-me na mão e disseste pouca coisa, centravas os teus olhos nos meus enquanto a comida me escorregava ligeira como um esparguete, a fome era negra, a hora tardia, a pressa chegava, fazia-se madrugada e tanto por contar. Saímos para o frio do Outono e caminhamos num escuro de umas luzes mornas, até ao local onde escondeste tudo quanto tinhas para me dizer. Lembro-me claramente do formato do banco onde nos sentamos. Conheço de cor a disposição do redor e lembro-me das palavras que te saltavam da boca medrosa, crente no ouvido perfeito de uma mulher. Guardaste para ti muito mais do que deverias naquele dia. Levaste o livro que me emprestaste, sem notas, sem novidades, sem discussão de ideias, sem tempo e sem modos, não dispúnhamos de nada disso. Sentimos a promessa do reencontro daqui a horas nenhumas, só assim poderíamos vencer a breve partida. -Tem calma, disse para os dois,- é daqui a pouco... E já está quase na hora de celebrar outra vez. Não sei se te lembras, mas o tempo corre, e nunca mais deixaste a minha mão sozinha. Um dia, caso contigo de vez.  

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A. Francisca da Silva

Dizem que os opostos se atraem, e eu acredito muito nisso. Hoje foi um dia bom, um dia em que o meu mundo foi muito feliz. Amanhã o dia será replecto de memórias que o tempo insiste em não levar. O tempo cura tudo, dizem também, mas eu sou do contra desde sempre e insisto que o tempo não cura coisíssima nenhuma, o tempo quando muito faz outra coisa. O tempo aloja memórias, resolve silêncios, escuta a vida que corre como se nada acontecesse, sem paragens, sem regressos, sem mudanças de direcção. O tempo limpa com cuidado como se fosse um pano de água tépida, permite que seja possível continuar sem a dor insuportável de uma facada maior. Cose com jeito as peles da alma, acode ao choro que acorda apenas quando calha, quando acontece, quando um pingo de chuva na testa humedece o chão. O tempo passado, ontem quinze, hoje dezasseis anos, permite-me recordá-la do dia que me deixou, nos deixou, foi-se embora. Nunca mais volta, e eu consigo viver sem ela. Mas sentirei para sempre a sua falta, enquanto a memória do seu cheiro não se desvanecer no orvalho da minha loucura, enquanto a textura da sua pele não morrer às minha mãos, enquanto comer pataniscas de bacalhau e sopas de feijão branco, carregadinhas de migas de pão. Na vida não há curas, há histórias. Nem sei se me quereria mesmo curar delas.