Perdem-se e encontram-se cada vez a maior distância um do outro. E mesmo assim, conscientes do fim, decidem continuar.
domingo, 3 de janeiro de 2016
Abluções (1)
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
O enxerto
No seu espelho, vê um homme du monde. Influente, abastado, movendo-se nas rodinhas certas. Um connaisseur de restaurantes, vinhos, máquinas potentes, "gajas" e essoutros adornos que lhe enfeitam o aplomb. Tem convicções, claro: a sua geração produziu mais convictos por milímetro quadrado que ratos o navio. Todos francófonos, por defeito. Excessivement ennuyeux, à Steinbroken. Chatos que nem hóstias, à moi.
Um tipo perfeitamente tolerável, em doses profiláticas, por efeito vacina. Em certos domínios e em particulares coutadas, quase inevitável: vem com a mobília. Sobretudo com a cadeira magistral. O que noutro dia me caiu em penitência, no entanto, é um híbrido: foi cruzado com porteira. Sabe rigorosamente tudo sobre toda a gente, do presidente ao último moicano. Tudo, no caso, é o pormenor insalubre, o mexerico fica-entre-nós, o guloso não-devia-contar-isto, o impante ninguém-sabe-mas. Seguro em fontes credíveis, fontes em primeiro ou segundo grau de proximidade, que o biltre conhece meio mundo e a outra metade não tem que conhecer.
O prazer que retira da bisbilhotice é quase físico. Estremece na gargalhadinha púbere, os olhos reluzentes de gozo, enquanto pela boca móbil de garoupa lhe escorre sumo de malícia, com um soupçon (hélas! a francesice é altamente contagiosa) de peçonha. Vibrante de picaresco revisteiro, invade o interlocutor com palmadinhas nas costas inundadas de cumplicidade balofa enquanto debita adultérios sem graça e intrigas rascas. É constitucionalmente impossível fazer-lhe entender que a maledicência não é a oitava arte. Plus ça devient vieux plus ça devient con...
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
Ana Clara
Ontem encontrei-me com os meus catorze anos. Apareceram-me lampeiros a meio do dia de trabalho, e eu que já não me lembrava deles. Apareceram-me pela mão da minha memorável colega de carteira, a Ana Clara, e eu que já não me lembrava dela.
A Ana Clara tinha dezassete anos numa turma de miúdos de catorze ou quinze. A turma era gaiata, estudiosa e competitiva. A Ana Clara era bonita e namoradeira. A turma vestia desportivo e jogava voleibol. A Ana Clara vestia sensual e jogava aos amores. A mãe estava no negócio da beleza e ela era uma excelente montra: longa madeixa loira, pele mate, perfeita de fond et de teint, malares esculpidos e olhos de tísica, com uma expressão ligeiramente bovina, que a rapariga era burrinha e com poucos entusiasmos para além da aparência e das lacerações do coração.
O seu universo estava cheio de paixões, protestos de amor eterno, crises sentimentais, rupturas encharcadas em lágrimas, ameaças de suicídio, num permanente novelo. Precisava, naturalmente, de um confidente, papel bem difícil de preencher em casting de catraios. Coube-me a mim por mor de três qualificações essenciais: altura, talento para primeiros socorros e a superior experiência de vida conferida pela leitura precoce de romances oitocentistas. Que a Ana Clara nada devia a Eugénie Grandet.
E assim o ano dos meus catorze anos correu dramático e instrutivo. Entretanto, a vida fluiu e a singularidade que nos aproximara perdeu-se em percursos oblíquos. Restava-me apenas a impressão de que casara cedo, obviamente grávida, e teria mudado para os subúrbios.
Até hoje, que me entrou pela porta. Sucessivos e avassaladores amores depois, com bastas traições de faca e alguidar, depressões e químicos a granel, a morte várias vezes próxima, uma miríade de intervenções e internamentos, esta Ana Clara é um embrulho vazio. Já não mora ninguém dentro do olhar vago da poupée de cire em que se tornou. Curiosamente, a degradação mental não foi acompanhada pelo degenerar físico. Talvez com a idade. Agora, é uma concha bonita e perfeitamente maquilhada, que, à saída, se insinua ao nosso velho porteiro gordalhufo. Ele encolhe a barriga e impa pressuroso e mesureiro, enquanto, ao lado, a companheira comprime a beiça e ajeita mentalmente a adaga na liga. Em segundos, compôs-se um triângulo de ardores. Há coisas que nunca mudam. Malheureuse Eugénie, do alto dos meus catorze anos te digo: há mais na vida do que sentir e o destino não existe.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
A terceira pedra
Irrita-me quando "os de mais idade" apelidam os primeiros amores de adolescência como namoricos. Nada mais falso. O encanto das primeiras paixões reside na sua autenticidade, na pureza à flor da pele, na falta de apetite, nos chiliques, em todos fenómenos químicos – elevados níveis de dopamina e norepinefrina – amplamente estudados. Aqui, só há verdade; não há namoricos quando há fanicos nem paixonetas quando não há tretas. Tudo se sobrepõe aos mínimos olímpicos.
Mais tarde, não há paixões, há relações. Como um processo esquematizado que culmina num nome indecifrável: amor. A prova de que ninguém o descodificou está na multiplicidade de definições e descrições que norteiam poetas e prosistas. É fonte de inspiração e de alimento, mas ninguém soube donde veio. Cuidado é, porventura, a palavra mais avisada. Não é sinónimo de amor, mas não é menos multifacetado. Implica crença, atenção, carinho e cumplicidade e, entre muitos outros, é qualificativo.
Um dia disseram-me que era muito naïf nas relações, uma espécie de desastre. Não me apoquento, mesmo sabendo que estou à mercê de múltiplas decepções, continuo a acreditar no valor facial das pessoas, isto é, no que me demonstram e, crème de la crème, no que fica por mostrar. Não cultivo autocomiseração pela desilusão da paixão imberbe, muito pelo contrário, tenho-a como uma inevitabilidade da minha natureza, sou assim, e quem for verosimilhante me consuma e não deixe sobrar. E que traga um soupçon de malícia. Vem a calhar.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
A segunda pedra
Acredito que todos os estados de alma do ser humano podem e devem ser úteis, dos melhores aos mais medonhos, dos piores aos mais exigentes. Um dia, uma pessoa muito querida perguntou-me se não sentia ciúmes. Respondi que sim, mas depois de digeridos, usava-os nas minhas fantasias mais lascivas, obtendo do efeito maior prazer. Bizarro? Não, bizarro seria alimentá-los e fazer recrudescer poeira que me privasse de prosseguir.
Ora, também no sofrimento – ou principalmente com ele – devemos aprender. Distinguir a dor do sofrimento é porventura o primeiro passo. A primeira pode ser inevitável, mas o segundo é uma opção; pela singela diferença em que a dor vem de fora e o sofrimento de dentro. Uma picada de agulha pela manhã implica desconforto, mas não necessariamente mal-estar durante todo o dia, ou seja, para além de opção e ao contrário da dor que é episódica, o sofrimento é um processo que se prolonga no tempo e que cabe a cada um de nós dar a mais adequada e sábia tramitação.
O segundo consiste na aprendizagem a que ele nos pode submeter. Como diz Séneca, "cobarde é aquele que morre por medo de sofrer, e idiota aquele que vive para sofrer". Saber retirar do sofrimento ensinamentos, mais do que uma questão de bom senso e sapiência, é um objecto de superior forma de saber viver (às vezes sobreviver) da melhor maneira possível. Consiste num manancial de traquejo e arcaboiço que seguramente nos visitará e municiará no futuro. E, como em qualquer aluno, cada um ao seu ritmo e destreza, com passagens e chumbos.
Por último, a verdade. Sofrer depura-nos a alma, faz emergir o mais verdadeiro que cabe em nós. Ninguém se conhece na plenitude, mas na essência do que somos pela privação do prazer. A felicidade? Com essa não aprendemos nada. Pela simples razão que esta não passa de um resultado, jamais de um prelúdio. Muitas vezes dizemos que "naquele tempo éramos tão felizes e não sabíamos…". Éramos nada mais do que uns desprezíveis idiotas. Só se sabe o que é bom depois de experimentar o que foi mau. Só se pode provar a felicidade depois de se ter ingerido algumas boas doses de sofrimento.
Só se é depois de se ter sido.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
A primeira pedra
Já aqui escrevi. Não me peçam para falar de amor. É assunto muito meu, muito diferente do que leio literatura afora. Um fato largo nas mangas e apertado no peito, cujo corte, mesmo feito à medida, nunca me assentará decentemente. E, contudo, mão amiga fez-me lembrar porventura a frase com a qual mais me identifico sobre esta questão.
«Este será o amor que, lutando duramente, agora preparamos: duas solidões que se protegem, se completam, se limitam e se inclinam uma para a outra.» Rainer Maria Rilke in Cartas a Um Jovem Poeta (Briefe an einen jungen Dichter), 1929, publicação póstuma
Parafraseando a famosa frase de Anna Karenina, todos os amores parecem-se iguais, mas cada um deles é igual à sua maneira. O amor é uma experiência solitária, vivida por cada um como a primeira ocasião e o primevo esforço de se encontrar sozinho no lugar mais recôndito da sua existência.
Eis o supremo egoísmo que ninguém quer assumir. Nem atirar a primeira pedra.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Seu Jorge
Encostado ao balcão da clínica, esperava que me processassem o recibo. Do lado de lá, uma noviça sentada ao lado da Dona Manuela, essa sim, mulher expedita de verbo fácil ao telefone enquanto tecla frenética marcações, olhava para mim, depois para ela, e corava, não sabia emitir o diabo do recibo. É só um momento, repetia. Do lado de cá, senti uma mão vinda de baixo até ao meu ombro. Virei-me. Era o excelso professor, o eminente comentador, o admirável constitucionalista.
– Oh, senhor professor, lembra-se de mim?
– Claro, foi o único aluno que solicitei para sair da minha sala de aula – aclarou.
– Oh, senhor professor, mas isso foi há vinte e cinco anos e picos.
– Foi, mas sabe, eu já estou nos setenta, vivo mais de recordações do que deste triste presente.
Enquanto a noviça não recebia uma peva de atenção da expedita Dona Manuela, saímos do balcão e encetámos amena cavaqueira.
– Isto está tudo muito mau, não estou nada esperançoso neste pobre país. Eu, professor catedrático há quase quarenta anos, estou a receber uma mísera pensão, mal chega a dois mil euros, cada vez recebo menos direitos de autor, a minha editora está em pré-falência, tenho de continuar a trabalhar nas duas universidades – desabafava, pesaroso, enquanto eu assentia com um ar compreensivo – Sabe qual foi o maior de todos os problemas? Termos entrado para o euro sem harmonização fiscal, perdemos soberania ao deixarmos de utilizar o instrumento cambial – aquiesci, sem concordar em absoluto, mas deixei-o prosseguir, sou um excelso ouvinte, eminente conversador e admirável espectador. Passámos por Itália, por África, pelo Daesh, pelo Mundo. No final, felicitou-me – precisamos de muitas pessoas como o dr., pessoas que criam emprego, mostram lá fora como somos bons e podemos almejar por um melhor futuro.
Com a cara e a roupa pulverizados de perdigotos, voltei ao balcão para obter o recibo. A moça, agora alva, pediu-me desculpas pelo incómodo e saí da clínica com mais três ovações reverentes do prestigiado professor constitucionalista, ainda na sala de espera.
A caminho de casa cogitei a razão pela qual me tinha pedido para sair da dita aula. Lembrei-me. Dissera em voz alta ao Jorge que com esta auspiciosa Constituição acabaríamos todos decepcionados. E, talvez por isso, e um pouquinho de presunção, Miranda nunca se esqueceu de mim.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
A uma certa distância
Como dizia o meu pai, há certas pessoas a quem não se deve dar confiança, por quem devemos guardar as devidas distâncias e a quem nunca se deve tratar por tu. Não me ponho numa posição de soberba, de complexos bacocos de superioridade, mas de parcimónia e, sem pruridos, de cuidado. Acautelar uma relação – de que tipo for – não acarreta riscos dispensáveis, apenas resguarda futuros equívocos. Embora a analogia não seja vistosa, ou até possa ser, costumo comparar uma qualquer relação a um processo de striptease venial, em que ao longo do tempo as pessoas são exultadas a deixar cair algumas roupagens, mas que a qualquer momento da exibição, esta pode e deve acabar, com muitas ou poucas vestes, dependendo dos teasers, e não mais do que deles. Alguns ainda nem tiraram o sobretudo e outros já se encontram em pêlo. É aqui que reside o predicado da percepção e da prudência, já sem referir o do bom senso.
O descenso está no abuso, e este no desuso da bonomia que, por caldos e cautelas, se quer a uma certa distância. Et pour cause.
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
Assim na Terra como no Céu
Sempre achei patético anunciar que se vai acabar um blogue e passado algum tempo retomá-lo. Aliás, a história recente vê com maus olhos quem volta atrás numa qualquer decisão – principalmente nas irrevogáveis. Paciência. Não vou enumerar as razões do meu salto à retaguarda encarpado – e como as tenho. Quem quiser volta aqui. Recebo todos, mesmo os anónimos, com uma franca sensação de depuração. Prometo um post, uma fotografia, uma música ou uma oração por dia. Assim na Terra como no Céu.
ps: Agradeço penhoradamente a todos os que me levaram a reincidir.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Uma despedida e um agradecimento
Acredito que todos nós merecemos o melhor. Os leitores que me lêem e eu próprio que por aqui escrevo. Porém não tenho escrito, nem tão-pouco o melhor que sei; duas razões suficientes para deixar este espaço que com carinho iniciei há pouco mais de quatro anos e que com pouco engagement, confesso, vou largar. Não sei se a CF vai querer continuar por aqui – só lhe comuniquei a minha saída. Não obstante, agradeço a todos, aos que me comentaram, aos que me leram, aos que me incentivaram, aos que me toleraram. A todos sem excepção. Na incerta certeza que nos encontraremos num outro lugar. Prometo, desde já, dar conhecimento a quem se e me interessar. Muito agradecido. Até sempre.
banalizar
As redes sociais são o livro aberto da vida. Nelas poderemos encontrar histórias completas feitas em fotografia, tal e qual um romance onde está escrito o primeiro amor, o segundo e o terceiro, o filho, a filha, o casamento e o divorcio. A diferença essencial é que um romance contado a palavras escritas, com muitas páginas, vírgulas e pontos finais, transmitido em arte literária, ganha contornos de obra prima, cultura e sabedoria. Já a outra, registada em fotografias casuais e desfocadas, enaltece sinais feios, rugas marcadas, roupas fora de moda, cores mortas e degradadas. Enquanto uma dignifica, a outra banaliza.
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
imaginação
Sabe pela fonte mais segura do mundo que necessita de tal cuidado, mas especialmente hoje que pensa nisso, descobre que nunca o teve. Na realidade deveria concluir, e por tal facto, que não sabe ao certo o que quer, não conhece a falta que lhe faz o que nunca teve, ou o porquê do desejo do que jamais experimentou. Nas horas vagas pensou no assunto. Não deveria admiti-lo, mas o certo é que pensou também nas horas ocupadas, aquelas que lhe são pagas, e em que a sua cabeça deveria estar empenhada em descobrir soluções empresariais, campanhas proveitosas, receitas milagrosas, mas a dela não. Dedicou quase todos os minutos do dia a tentar perceber o porquê da falta do que não sabe ao certo ser. Fez a retrospectiva total e parou no casamento. Aquele onde nunca conheceu o sabor que ainda procura, a marca da tradição, o colo que vigora nos livros e na religião, aquele que desdenhamos mas que tanto procuramos, como se tudo quanto se critica nos devesse chegar de forma camuflada, sem ninguém ver, dado que é vergonha uma mulher assumir que necessita que cuidem dela, nos dias do feminismo flagrante. Não se perdeu por ali e foi vida fora.
Deambulou por terrenos solitários e partilhados, deu a volta pelo destino, arriscou sem medo e sem receio de parar os momentos criteriosos onde seria suposto encontrar o cheiro do que procura, e sentiu-o algumas vezes, muito poucas, mas conclui ser dali que lhe nasceu a real falta, só pode ser dali. Em redor, o mesmo de sempre. As pessoas para cuidar, os problemas por resolver, a vida para correr, os dias para trabalhar, os momentos fracos para vencer, o colo para dar, os tapetes a escorregarem por baixo dos pés, os joelhos a levantar, o queixume a morrer, o fio da navalha a cortar, a voz a falhar. Não se apercebeu em concreto do que lhe sucedia até me bater à porta. Não catalogou coisa nenhuma até se sentar no banco de uma secretária que conhece de cor o que são mãos trémulas de cansaço, olhares que desviam, gestos que denunciam, expressões que defendem o que não existe: - deve ser culpa minha, devo ser eu. Só isso justifica que funcione sempre tudo igual. Mas sabe, foi ontem e estive mesmo para desistir. A minha colega de trabalho, sabe, um amor de pessoa, disse-me que se entregou ao projecto com unhas, dentes e convicção. Falhou férias, esqueceu noites, ignorou refeições, o que lhe valeu foi a televisão que o marido, em cuidados com ela, lhe comprou, não fosse a pobre mirrar a visão num mísero ecrã de pc vulgar. Olhe, aquilo atingiu-me no peito. Olhei para ela e fiquei na ânsia da escolha de quem assassinar em reacção. Se a ela, alvo de protecção, se ao marido dela, capaz de a cuidar, se a mim mesma, nada merecedora de receber. Durante alguns minutos, tenho de lhe confessar, estive a matá-la por dentro. Primeiro arranquei-lhe as goelas com as minhas mãos. Depois, devagarinho, tirei-lhe as unhas uma a uma, limpei-lhe o sangue com um lenço de assoar e prossegui caminhos, não sem antes lhe perguntar se doía muito. Ela gemeu em aflição, claro, mas não tive pena nenhuma, culpa que me assaltasse ou arrependimento que me parasse. Deixei-a morrer aos poucos na minha imaginação, precisava mesmo que ficasse morta, sem respiração, sem reacção, sem sossego ou protecção. Nunca ninguém se preocupou com a minha visão, sabe o que é isso? - Consigo imaginar ser muito difícil, respondo numa estranha sintonia. Não sabe, sei que não sabe, é claro que não sabe, e por isso nunca na vida lhe apeteceu matar alguém na imaginação.
Continuei a anuir com a cabeça, indo ao seu encontro. Mostrando com o meu gesto que nunca na vida matei alguém na minha imaginação.
sábado, 7 de novembro de 2015
Edgar, o bácoro
Não nutria especial interesse por extractos bancários chorudos, talões do multibanco gordos, cartões de crédito e débito bojudos e cheques com muitos zeros. Tudo aquilo cheirava-lhe vago, não palpável, uma espécie de fast money desenxabido, sem sal nem picante. Ou um gourmet servido em pratos gigantes e fundos com comida molecular, uma espuma de alheira aromatizada com três ervilhas, uma pitada de cominhos em cebola roxa caramelizada sobre um secreto de porco escondido. Nada disso, Edgar gostava de volumes imensos que não coubessem em carteiras. Apenas em malas, grandes malas com código de abertura. Quando as abria ensaiava uma liturgia. Derrengava-se para o seu interior com o seu pequeno e largo nariz de bácoro, onde pendia na pontinha uns grossos óculos de massa transparente, e começava a cheirar, de fora para dentro, as vis notas coloridas – chamava-lhes badalhocas, mas aqui todo o adjectivo é redundante. De olhos esbugalhados, julgava-se um homem das novas tecnologias: afastava-se e fotografava-as com o seu Nokia atado por fita-cola rançosa. Depois tocava-lhes de leve, uma e duas vezes, para sentir aquela energia. Quais cheques, extractos, talões do multibanco e cartões? Dinheiro era aquilo. Notas desenhadas, coloridas, com marcas de água, traços de prata, selos, carimbos, assinaturas e números de série. Feito o reconhecimento, começava a retirar os maços um por um e a contar as notas com o seu polegar pequeno de falangeta larga, uma por uma.
Um dia presenciei aquele transe calado. Eram muitos maços de notas de vinte – não gostava das de maior valor, demoravam menos tempo a enumerar. Depois da fotografia e do passar das mãos, começou ávida e furiosamente a tarefa. Manejava as notas com a destreza dum baralhador profissional de cartas numa rapidez atónita. Por cada dez notas contadas levava o dedo à boca para humedecer; depois das trinta começava, de boca aberta, a salivar até pingar sobre as mesmas. Aí, grunhia: molhadinhas são mais fáceis de descolar, eheh. Virava-se para o canto do escritório para ninguém ver. O cuspo saía em tal abundância que parecia a bica de uma fonte inquinada e, à medida que o tempo passava e passava, misturavam-se-lhe eructações e sucos estomacais. Só podia. Pelo cheiro e pelas notas a esfarelar. Quando acabou de contar o último maço, umas boas duas horas depois, olhei: aquilo parecia um rolo de papel higiénico que tinha caído numa sanita cheia de urina ainda por vazar. Perfeito, com este maço pago o salário do mês de Julho aos operários – vociferou.
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