© Paulo Abreu e Lima

segunda-feira, 14 de março de 2016

π

Os dias do ano não chegam para os "dias de". Há pouco tempo foi o Dia da Mulher, hoje é o Dia do π (pi). Risível, pensará a maioria; interessante, penso eu. A razão entre o perímetro da circunferência e o seu diâmetro é um número constante com uma sequência de casas decimais que nunca se repete. Uma constante que não acaba mais. Vibrante. Gostava que fosses um π. Um pi de mãos esguias e pequenas, boca de peixinho de aquário a sorrir e olhos de farol. Voz de menina japonesa, pés de gueixa e ventre de odalisca. Submissa no corpo, pespineta e irrequieta na alma. Uma Mulher que não acaba mais. Hoje, prenúncio do adeus, não te encontro senão nas saudades infrenes. Hoje, dia do pi, a sequência terminou triste, repetida e inconstante. Há lá coisa pior do que o adeus não ecoado mas escrito nas brumas? Não há. Regressarei ao seminário. Eclesiástico, voltarei a ser monge versado em matemáticas obtusas e resgatarei o meu π na vertigem do silêncio.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Abluções (6)



Hoje em dia, as palavras caligrafadas, escritas pelo próprio punho, desenhadas à mão, revelam-se quase tão íntimas quanto um beijo molhado roubado ao fim da tarde no epílogo de Verão. Letras escritas em elipse, ovaladas ou pontiagudas, entrecortadas por novas investidas ao início de cada palavra, cientes e inclinadas, acendem danças litúrgicas cadenciadas que nos levam à singular natureza do âmago, ao espécime mais exótico e único que habita em cada um de nós. Toda a grafologia é-me indiferente mas, uma vez presente, encoraja consecutivos prodígios de sedução em indeléveis erupções sobre o papel, ávido de reparo. Sinto-o amiúde, e até cruzava um aceso encosto apaladado por muitas das tuas letras em tinta de permanente satisfação.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Abluções (5)

Curto e grosso: sou alérgico às exibições de vaidade e pesporrência. Ficava-me melhor afirmar que lhes sou indiferente, mas faltava à verdade. Aos que se (e)levam despudoradamente a sério requisito um perímetro de distância. A suficiente para me deslumbrar com a humildade e simplicidade dos demais. A sabedoria reside na lhaneza das pequenas perguntas; jamais no ruído das grandíloquas respostas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O ciúme

O ciúme é visto como uma forma inábil de gostar, uma distorção de pequenas suspeitas feitas verdade, um defeito de vontades mal contadas. Proliferam apreciações. Os julgadores sugerem uma deformação de carácter; os capazes observam uma inquietante necessidade de tirania sobre os outros; os sentenciadores, um exacerbado egoísmo destrutivo e os prescientes auguram que quem o sente acolhe-se em abóbadas de cristal. Até o nosso excelso Vergílio Ferreira arrasa: «A mulher mais ciumenta é talvez a que mais facilmente atraiçoa o marido e menos tolera que ele a atraiçoe. Porque o ciúme é a afirmação de um direito de propriedade. E esse direito reforça-se com a traição dela e diminui-se com a dele». Trau!

Deixando de parte patologias e questões de auto-estima, o ciúme, não sendo um sentimento nobre, é instintivo e natural, marcado sobretudo pela irracionalidade do medo – basta observar o comportamento animal. Não obstante, está intimamente ligado à inveja, e só difere desta porque nele preside o temor da perda e nela o rancor de vingança.

Em doses profiláticas, confesso que me é simpático, não lhe aponto o dedo, faz cócegas ao ego. Mas nada mais. A ingénua ideia de quem gosta sente ciúmes é redutora e, porventura, o maior equívoco. Quem gosta confia, quem ama solta. Quem gosta acredita, quem ama tolera. Tudo o resto é Othello.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Abluções (4)

Por que razão somos demasiado exigentes com quem nos é próximo e tão benevolentes com quem nos é alheio? Poderíamos elencar prodigiosas razões, não fora o caso de asseverar que, por outro lado, com os nossos já fomos insalubremente descuidados e que com os outros obsequiosamente curiais. É nesta dúbia variação concomitante entre o sólido e o solúvel, o seguro e o volátil, o essencial e o assessório, que radica a nossa maior estupidez.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Abluções (3)


Deseja-se saúde com demasiada leviandade, como uma bucha para completar um desejo, um jargão icónico de Bom Ano, Feliz Aniversário, copos de champagne. Deseja-se saúde por tudo e nada, certos de que fica bem e não compromete. A imprudência está na leveza do desejo e ligeireza dos votos. Saúde, como paciência, não é do domínio da pertença, mas da existência. Há palavras às quais não se deve retirar gravidade sob pena de deixarem de existir.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Abluções (2)

Perdera o dom da interpretação. De que lhe servia o passado além das memórias? E o futuro, que serventia sem perscrutação? Confinava-se ao triste quotidiano sem sobressaltos, aos dias que findam com as noites. E, suplicante, pedia brandura às vidraças, não saberia o que a esperava do lado de fora. Se uma plateia vibrante, se um palco mudo.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Abluções (1)


Perdem-se e encontram-se cada vez a maior distância um do outro. E mesmo assim, conscientes do fim, decidem continuar.