© Paulo Abreu e Lima

terça-feira, 9 de abril de 2013

locais fora do mundo (i)



Existe uma pequena aldeia nas funduras do distrito de Coimbra, ali pelo sopé da Serra do Açor, entre a Estrela e a Lousã, onde até há bem pouco tempo não havia estrada ou trilho que guiasse uma junta de bois, quanto mais uma carroça. O caminho em terra batida mais próximo finava a doze quilómetros; de resto, só mesmo a pé, esgardunhados pelo mato e picados pelas abelhas. Local perfeito para os foragidos da lei, para os eremitas do ânimo e para uma outra espécie de gente. Os indígenas. Ao largo da aldeia, sempre iluminada pelo sol como uma auréola envolta por nesgas de nuvens, uma lenda hórrida pairava no negrume da serra. Diogo Lopes Pacheco, um dos três assassinos de D. Inês, logrou fugir à morte certa e acabou os seus dias por aquelas paragens. Os dois mui nobres comparsas, Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves, não foram muito longe, tombaram quentes para os lados de Santarém sob as ordens de D. Pedro. Hoje em dia, ainda constam alguns Lopes Pachecos pela pequena aldeia, descendentes do mandatado de D. Afonso IV. Gente de bem, presumo, que o ano de 1355 vai longe e as mesmas máculas não perduram por tantas gerações.
 
Quis conhecer um.
 
Vindo de Coimbra, atravessei inúmeras vezes o Mondego, margem a margem, ao longo de Vila Nova de Poiares. Já no interior, começavam a surgir povoações com nomes estranhos: Cerdeira, Avô, Côja, Benfeita, Pardieiros. E por fim, Piódão!


Ao longe, parece uma aldeia-presépio, com casinhas de xisto e telhados de lousa. Todas as janelas e portas são azuis – ao que dizem, a única cor de tinta que primeiro chegou ao lugarejo. As ruas são sinuosas e estreitas, medievas; as escadas, íngremes; tudo em pedra, tudo impecavelmente limpo. À excepção da praça, onde confluíam turistas em busca de artesanato, queijadas, mel e licores de castanha, medronho e zimbro, as ruelas interiores permanecem desertas. As pouquíssimas pessoas que encontrei eram esquivas, ariscas, viravam costas aos forasteiros, e refugiavam-se nos lares. Encontrei uma anciã de casaco azul-bebé (ficava mais convincente se usasse xaile preto, mas dessas não havia) e perguntei alto: "Conhece o Lopes Pacheco, minha senhora…?". Fugiu. Ainda fui atrás dela, mas desaparecia em cada esquina, em cada ruazinha, em cada beco. "Diabo, será que o mui nobre não era varão viril e não deixara visível descendência?", cogitei baixinho.




Cansado de tanto subir e descer, de tanto espreitar e ver nada, surge ao longe outro ancião – bem-apessoado, o homem! – e perguntei: "Posso fotografá-lo…?". Respondeu "depende, quanto me dá?". Sorri e perguntei como se chamava.
 
– Chamo-me José Lopes Pacheco, tenho oitenta anos e sou de Piódão! E o senhor donde vem?
– Chamo-me Paulo e venho de Lisboa…
– De Lisboa? Lamento profundamente.
 
Voltei a sorrir, falava com um piodonense (ou lá como se chama um habitante de Piódão) mas, muito mais, falava, com uma considerável margem de segurança, com um verdadeiro Lopes Pacheco, com um pentaneto dum tetraneto dum trineto dum hexaneto(?) do mui nobre assassino Diogo Lopes Pacheco.


Decorrida a amena cavaqueira, despedi-me, desci para a praça e bebi um delicioso licor de castanha – soube-me pela vida.

Entretanto escureceu, "ala que se faz tarde"! Mas não sem antes voltar a avistar a aldeia: os Lopes Pachecos vivem num presépio.


17 comentários:

  1. Parece de facto retirado de uma história de encantar. Tudo muito bonito Paulo! As fotografias são absolutamente deslumbrantes e a sua descrição, é até um pouco poética. E depois, há ainda a música. Uma harmonia perfeita.
    Fica um pedido: conte-nos mais histórias assim, por favor!

    Beijinho :)

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    1. Obrigado, Isabel. Mas quem tinha histórias de encantar era aquele senhor Lopes Pacheco. Lembro-me da das "Galinheiras": mulheres que saiam de Piódão a pé até a Covilhã e apanhavam todos os ovos que encontravam no chão para depois vender... Surreal!

      Beijinho:)

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    2. Caramba, agora sou eu: "saíam" e não "saiam"...

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    3. Já tínhamos combinado que não íamos ligar mais a essas "minudências", Paulo! ;)
      Também eu pus uma vírgula entre um sujeito e um predicado (um erro imperdoável, que nem a emoção justifica -eheheh).
      No fundo nada disso tem a menor importância diante da beleza esmagadora deste seu post. Jáa lhe disse que gostei muito? :)

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    4. "Jáa" e volto a agradecer :))

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  2. Que lugar, Paulo! Diretamente tirado da terra da magia, ainda mais visto pela(s) sua(s) lente(s)! :) Lindooooo.

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    1. Não são as minhas lentes, aquilo é mesmo mágico, muito bonito mesmo!
      Obrigado e beijinhos, Fátima :)

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  3. Tão belo...como um conto daqueles que leio aos meus netos.

    E as fotos, Paulo, cada vez mais extraordinárias....lindíssimas....

    Thanks!

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    1. Antes de lá ir, tinha lido que ainda havia gente com aquele apelido. Parece que se confirma!
      Obrigado por tudo!

      Bjos.

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  4. Os "lugares fora do mundo" têm encantos, claro. Piódão, é um desses lugares, que por acaso, também conheço. Na luz do dia conseguem ver-se recantos, no meio das gentes fugidias. Ao fim da tarde acendem-se as luzes que transformam a aldeia em presépio. Lindo, não é?

    ( Estás enganado Paulo, Piódão não está fora do mundo. Está numa rota perfeita, apenas escondida...)

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    1. Uma rota escondidíssima, CF. Para chegar lá é cada curva e contracurva... Imagina aquilo antes de chegar lá estrada, na década de setenta... haverá consanguinidade...? É belo, mas mete medo :)

      (Bjos)

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  5. Lindo!! Lindo!!
    (Tinha prometido nao voltar a comentar,desculpe-me mas nao aguentei..=)

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    1. Ninguém a impediu ou censurou, Marta.
      Obrigado.

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  6. Já li tres vezes, já divulguei no FB ( podes ler os comentários), já ouvi esta maravilhosa balada medieval, já nem sei que mais faça....mas este post vale mais de mil palavras, Paulinho!

    Obrigada!

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    1. Ó Virgininha Amiga, assim não vale, estou derretido :))
      Bjos,

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  7. O nosso Portugal tem cantinhos lindos de assombrar! As curvas e contra-curvas que fazemos para chegar, aumentam ainda mais a emoção de os encontrar!
    Claro que nem todos conseguem partilhar a beleza dos locais que tiveram a sorte de encontrar.
    Este post mostra que o Paulo ( desculpe trata-lo assim !!! ) consegue e maravilhosamente bem !!!
    As fotografias,o texto, a musica ... lindos!
    Obrigado.

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