© Paulo Abreu e Lima

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Glamour

Onde quer que surgisse era um semáforo encarnado nas ruas, um criogénico nos bares apinhados, um holofote nos restaurantes mais reservados. O acompanhante imberbe sentia-se constrangido; o experimentado, aturdido. Sabia-se cobiçada pelos homens e invejada pelas mulheres, coisa rala a que pouco se acometia, sabia-se diferente e isso chegava. Não era simplesmente bela, era luz branca que rasgava clareiras, cintilante sem lantejoulas, presença de alma que desintumescia egos inflados de plumas. Fazia dos companheiros uns burlescos pavões com caudas depenadas do lado de fora da porta. Era ridículo, queria outra coisa. Estava farta de intelectuais com piercings na penca, homens de negócios suados com cartões dourados nas pontas da carteira, colegas de profissão com contactos na Lux. Queria a normalidade que lhe tocasse mais fundo, o desassombro dos sonhadores livres, o tu cá eu aí. Pobres homens que se inebriam pela aparência, pela fama e pelo Poder, que não percebem nada de mulheres. Ela queria pouco. Um olhar cúmplice, uma gargalhada inteligente e uma mão bondosa e quente em cima da sua. Sensibilidade e emoção, lágrimas frágeis e alimento maduro. Uma mulher como ela precisava de robe e de pantufas, de uma face encostada e de um silêncio monossilábico. Precisava de viver ao toque da presença de quem lhe exibia a efemeridade da vida.

12 comentários:

  1. Ó Paulo mas isso é o que a maioria das mulheres quer...ultrapassados os 50, em que já se aprendeu alguma coisa. De amor e de sexo!±
    Até lá quer ser admirada e cortejada, com ou sem lantejoulas. E, depois de casada - com um homem normal que lhe toque fundo - ,quer dividir com o ele as tarefas comuns e a educação dos filhos, para não ser só ela a chegar à cama estafada.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. (no seu comentário, depois de "sexo" aparece uma cruz, deve ser um sinal :-)

      Helena, como sabe melhor do que eu, as mulheres mediáticas querem esse conforto mais cedo. Em certas profissões, mal saem dos estúdios e têm uma agenda social cheia e, muitas vezes, não é nesses meios onde se sentem melhor. Outras fazem-se troféus de "poderosos", muitas vêm de meios sociais complicados, enfim, o meio mediático é muito efémero...

      Eliminar
  2. "Um olhar cúmplice, uma gargalhada inteligente e uma mão bondosa e quente" é o que todos queremos, diria eu, sem distinguir nesse querer géneros nem idades, nem nada.

    O mediatismo poderá provocar algum deslumbramento, mas passageiro e superficial, porque não é só ele que é efémero, é também a vida (como diz...).

    Beijinho :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Certo, Isabel, mas "um olhar cúmplice, uma gargalhada inteligente e uma mão bondosa e quente" é muito mais difícil obter em meios onde a vaidade, a trica, a "competição" e o escrutínio rosa se movem mais fluentemente. É difícil ser figura da comunicação social. A imagem é crucial e por vezes impiedosa. E, acredite, deslumbra mais o público do que os do meio...

      Beijinho, vejo que chegou bem :)

      Eliminar
  3. Julgo que os homens nunca percebem muito das mulheres, pelo menos de algumas delas. Bem vistas as coisas o que elas querem é a essência do que fica depois do brilho, são tão simples. Talvez enganem, é um facto, o brilho pode ofuscar quem não olhe para além dele mesmo. Culpa nossa, assumidíssima: é o lado lunar do glamour, uma arma tão feroz quanto enganadora...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muitos homens não percebem muito de algumas mulheres e vice-versa, assim como muitas mulheres não percebem patavina umas das outras, ou seja, as pessoas (homens e mulheres) mergulham permanentemente em equívocos, esse é o drama. Olha, não gostaste da foto? :))

      Eliminar
    2. Gostei pois. Tu, uma máquina fotográfica e uma mulher bonita, dão sempre bom resultado... :) Já tinha ouvido dizer...

      Eliminar
    3. É provável que já tenhas ouvido e experimentado :)

      Eliminar
  4. Ai! Paulo parti-me a rir com o +/- que nem consigo repetir no teclado.Como diabo é que eu teria feito o malvado sinal?!
    Mas pensando bem de amor e de sexo todos sabemos sempre mais ou menos. E ainda dizem que não há coincidências...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cruz credo, abrenúncio, mas que está lá, está :-)

      Eliminar
  5. Ó Paulo o + seria sempre para si. Já o - ficaria para mim...por enquanto. :-)))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ó Helena, prefiro + com + que dá sempre +, para sempre ;-)

      Eliminar