© Paulo Abreu e Lima

sábado, 21 de fevereiro de 2015

viagem

Vejo na televisão uma série sem limite, daquelas onde um vestido de folhos cabe numa mala de mão, os sapatos altos não fazem doer nos pés, e a Torre Eiffel vive-se de muito perto, ao virar de uma esquina. Penso automaticamente no que seria de mim se não a tivesse conhecido, e concluo que há coisas que não poderíamos não conhecer. A série é de amor, não vá a vida afrouxar e o cansaço tolher os passos de quem corre sem direcção. Por causa disso tudo funciona, menos uma ou duas coisas que parecem um pormenor insignificante, e que bem vistas as coisas até são. Descem o Sena num barco que ruma sem destino numas mãos infindáveis que nunca se soltam. Sorriem perto da Catedral que abençoa com uns bichos medonhos, quem por lá passa. As pontes são corridas por um conjunto de pessoas que não se olham nem se escutam, apenas se cruzam, enquanto os dois passeiam de olhos postos numa mesma direcção (quem disse que amar é olhar um para o outro, pode bem estar enganado). É noite escura. A lua morreu no dia em que chegaram, caprichosa como só ela pode ser. O sol apareceu sempre cedo, por uma fresta aberta da madrugada, ainda o bulício da cidade se encontrava adormecido. Partiram sempre como se o dia fosse o primeiro, mesmo quando foi o último. Encontraram-se na porta de um hotel para a despedida, mas nunca se soltaram. Espreitaram para dentro e seguiram, como se nada os pudesse terminar. O táxi esperava-os. Entraram e deixaram-no seguir, percorreram a cidade encostados um no outro, sussurraram muitas coisas nos ouvidos. Nunca mais chegava o local escolhido, nem sequer se lembravam de qual era. O caminho, o caminho é o lugar onde tudo pode acontecer (quem não o valoriza, pode bem estar enganado), e o destino é coisa digna de ser uma impossibilidade. Os poetas, os amantes e as mulheres, sabem bem disso. Os criadores de séries também.

8 comentários:

  1. Foi assim a minha "série". Conheci o meu ex-marido em Paris. E tudo o que está acima foi verdade.
    Obrigada CF.

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    1. Um beijinho Virgínia. Que bom, se lhe trouxe um momento feliz...

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  2. É verdade. O caminho é o lugar onde tudo pode acontecer. Um bom caminho não é uma procura, mas um encontro com o inesperado.

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    1. Certo. Pior é quando não o encaixamos como parte do todo. E fazemos questão de o situar no antes de tudo o que queremos alcançar... Se é que me explico... :)

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    2. Compreendo perfeitamente! Também padeço do mesmo mal :)

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  3. O caminho do amor. O caminho da vida. Sim. É no caminho que tudo acontece. :)

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    1. Também acho Luísa, mas por vezes ainda não consigo sentir... É um dos meus grandes objectivos, acredite. E uma das minhas grandes fraquezas...

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