© Paulo Abreu e Lima

domingo, 28 de julho de 2013

na dúvida


Confiar não é acreditar. Posso confiar o meu automóvel a alguém com o mesmo à-vontade com que não acredito tratar-se do melhor condutor do mundo. Nem sequer do mais cauteloso. Apenas sei, acredito, que fará o seu melhor para mo devolver intacto, lavado e, por gentileza, com o depósito atestado. Confiança não é a característica mais evoluída na escala de uma relação. É, com certeza, necessária, mas nunca suficiente. A determinada altura, dá lugar a outra, bem mais adaptada a todo o meio afectivo envolvente: à crença. Enquanto a confiança encontra lastro no elevado grau de probabilidade de alguém não falhar, não decepcionar, não a romper; acreditar acarreia bem mais precisão e convicção de que o outro fará sempre o seu melhor. Prefiro muito mais um prometedor acredito em ti, do que um chantagista confio em ti. Confiar apenas responsabiliza, e até pode intrometer desajustes estranhos e subsequentes culpabilidades sendo, por natureza, sobranceiro ao nomear quem confia em quem, subalternizando o objecto por magnânima confiança. Acreditar não só responsabiliza como valoriza ao mais alto nível. Há uma aposta, larga e quase cega, de alguém muito especial convicta em mim. Um toque de esperança que deveria caber sempre em sorte a cada um de nós ao longo do tempo. Depois, numa sociedade em que as confianças lavram-se por deprimentes contratos, cujos cumprimentos são dirimidos ao milímetro, haverá dádiva mais preciosa e quente do que um benfazejo e simples Acreditar? Não, não há nada mais nobre.

14 comentários:

  1. Sem dúvida. :) Prefiro o acreditar, pelas razões que tão bem explicou. É muito mais inspirador. Bom domingo

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    1. É muito mais dado, não é Fátima...?

      Boa semana :)

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  2. Pois ... mas é por isso que muitas vezes me dizem "A Maria João ainda acredita no Pai Natal".

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    1. Pois faz muito bem em acreditar, Maria João. Até porque, no fundo, todos nós acreditamos em alguma coisa. Com o Pai Natal não seria diferente... :)

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  3. Não sei Paulo.
    Acredito em Deus.
    Mas dificilmente acredito no ser humano, porque sei que ele se transforma e aquele que eu conheço hoje pode ser diferente daquele que ele será amanhã. Assim, só posso confiar que ele me não desiludirá. O que não quer dizer que acredite que assim será...
    Prefiro a confiança à crença. Mas isto sou eu que "viro frangos há muitos anos" e acreditei que os homens podiam ser deuses. Não podem. É nisso que reside o seu encanto e, sobretudo, o valor da minha confiança!

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    1. Mas, Helena, não deixa de haver uma certa sobranceria na "confiança", um ente activo (o que confia) e outro passivo (onde foi depositada confiança). Não há dádiva alguma, apenas troca e favor. Acreditar é mais Humano. Porque humilde.

      (também já virei alguns frangos :-))

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    2. Se há sobranceria ela vem da força imensa de quem confia e representa uma dádiva enorme àquele em quem depositamos a nossa confiança.
      Aliás, considero que ambos os entes são activos. O que entrega e o que recebe, porque um não quer desiludir e o outro não quer ser desiludido!
      Finalmente, a humildade é, muitas vezes, uma forma de sobranceria. Sonsa!

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    3. Percebo o que quer dizer, Helena. Digamos que "acreditar em alguém" é passar um cheque em branco e "confiar em alguém" é colocar um determinado valor. De qualquer forma o emitente é quem paga para ver... enfim, não sairíamos daqui, mas também concordo consigo. Quanto à humildade, quis referir-me mais à bondade cega do acto. Mas com sal :-)

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  4. Para mim, tal como para ti, são totalmente distintas. Uma, a confiança, deposita o ónus em nós. É uma construção nossa, provavelmente fundamentada, mas nossa. A outra, a crença, centra-se no outro e nas suas capacidades de resposta e desempenho. São um caminho claro, e é impossível chegar a uma sem passar pela outra. Iria até mais longe, dizendo que a segunda só nasce quando já saímos de nós e nos estendemos ao outro como parte integrante de uma perfeição dual. Se é arriscada? Sem dúvida. O outro falha como nós falhamos e como falham as dualidades. Mas ainda assim é de uma validade primordial, importante o suficiente para que tudo se construa enquanto se acredita.

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    1. Exacto!

      E, principalmente, bem mais bondosa...

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  5. Confesso, Paulo, que nunca tinha pensado nesta diferença e, por isso, fiquei algum tempo a pensar nela. No fundo as duas coisas acabam por relacionar-se, mas acreditar será uma coisa mais "cega", sim. Concordo completamente com isto: "Acreditar não só responsabiliza como valoriza ao mais alto nível. Há uma aposta, larga e quase cega..."

    E depois, Paulo, mesmo quem já vai estando habituado à sua brilhante "maîtrise" das palavras, consegue ainda surpreender-se. Gostei muito, mesmo muito, deste post!...

    Beijinho :)

    (E aqui, fácil, muito fácil: é o Rossio, sem nenhuma dúvida! :P )

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    1. Ó, Isabel, muito obrigado. Principalmente quando são surpresas agradáveis!

      Beijinho :)

      (Check!)

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  6. http://youtu.be/035FUgVlnyY, lembrei-me deste "É preciso acreditar"

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    1. Que bonito este seu Acreditar, Filipa.

      (tenho tanta pena que não seja mais assídua no seu blogue... mas compreendo)

      Beijinhos!

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